segunda-feira, 26 de setembro de 2011

OS DIAS NA CHACARA BELA


Liberato Cunha

De repente me vêm à memória os dias na chácara bela... Vejo-me sentando numa cadeira de fibra a tardezinha, embaixo de um pé de jambre, quando já começa a esfriar. O Sol vai se pondo lentamente, como quem espera que todos os bichos estejam seguros.   As jaós cantam em sintonia a anunciar que mais uma noite se aproxima; Consigo distinguir dois tipos de canto: Um com apenas um assovio longo (conhecida regionalmente com jaó preta) e outro com quatro assovios curtos (conhecida como jaó fofó). No curral ali próximo, os bezerros aos berros, parecem querer chamar a atenção, eles foram apartados de suas mães para assim garantir o leite no dia seguinte.  Estão com medo, mas logo se acalmam. Dois casais de araras voam em direção ao morro do Augustinho, a procura de um lugar seguro para passar a noite.  Os inhambus (ou lambús) ressoam seu belo canto, entoado numa escala ascendente, apressando tanto os intervalos como a duração dos assovios finais.  As galinhas começam a subir nas árvores para se aquietarem; As angolistas, ariscas como são, procuram as a mais altas. Ainda nem escureceu totalmente e a lua já começa a aparecer, majestosa, bela, enorme... É noite de lua cheia! Nesse momento um silencio paira, será que, assim como eu, todos os bichos estão a admirar aquele magnífico luar? Com as lamparinas já acesas, minha mãe está na cozinha, “o que será que está fazendo?” Penso. Mas logo o cheiro do café responde minha pergunta; Este será servido com paçoca de carne de mateiro, que o Cide acabara de pilar. Tem também bolinho de chuva, para os que não comem caça. Enquanto ainda estou comendo, começa a sinfonia dos sapos. Há uma sincronia entre eles; Noto que o som vem de dois lugares diferentes: Da represa ao lado, e do córrego ao fundo da casa, porém um grupo começa apenas quando o outro para. Fico imaginando como a natureza pode ser tão sábia. Algumas galinhas ainda andam pelo campo de futebol, a claridade da lua faz com que elas não percebam que já é noite. Aliás, eu também estou no campo, alegre por ter a oportunidade de brincar a noite como se fosse dia. Já cansado deito na grama e fico a procurar “aparelhos”, era assim que chamávamos os satélites que ficavam voando de um lado para outro cruzando aquele imenso céu estrelado.  Na porta da casa de palha, o Cide conta estórias de caçadas, pescas, assombrações e de pessoas de Araguacema. Muitas gargalhadas podem ser ouvidas bem longe de lá até altas horas. O Sadã fica sempre por perto, atento a cada ruído estranho que vem da mata, às vezes ele parece prestar atenção na nossa proza. No alto do pé de jenipapo uma coruja parece querer incrementar as estórias de assombração, e nos deixar ainda mais assustados, com seu canto horripilante, típico de filmes de terror.  Já não sabemos se a tremedeira é de frio ou de medo, melhor ir dormir. São quatro e meia da manha e já estou acordado, ajudando o Cide a “desbuiar” o milho na beira de uma fogueira para alimentar as galinhas. Na rádio nacional AM o locutor Mauricio Rabelo (ainda me lembro da vinheta: Mauricio Rabelo, que cara legal!) conta uma piada, e depois toca a música ”Chico Mineiro” de Sergio Reis.  Enquanto tiramos o leite, os periquitos começam a anunciar que mais um belo dia está nascendo, e são imitados pelos xexéus. Esses são exímios imitadores, imitam perfeitamente quase todos os pássaros.Minha mãe aguarda em casa com o café e o cuscuz já prontos, que serão servidos com carne bovina seca bem fritinha. Temos ainda queijo fresco e coalhada. Quanta fartura! Após “quebrar-jejum” ajudo a D. Rita pegar as verduras fresquinhas na horta, ao fundo da casa. No almoço teremos frango caipira com quiabo. Eba! Mal posso esperar... E assim eram os dias na chácara bela... Ainda sinto os cheiros, os sabores, ouço os sons e lá se foram 15 anos.  Não há nada como a magia das lembranças!

 Liberato N. Cunha –
Palmas 14 de Agosto de 2011.

2 comentários:

  1. Ainda me lembro disso, como fosse hojee.

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  2. Quantas lembranças boas vieram agora a minha mente, que tempo bom... éramos tão felizes e não sabíamos!!

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