sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O TRAVESSÃO


ALDIR LIRA - ZUMA

Anos 70, meados.O plano estava sendo maquinado já há algum tempo, depois de ouvirmos o Inadirzim dizendo que no travessão tinha peixe à fartura. Por algum tempo ficamos reunindo coragem para realizar a aventura. O Travessão não era o pedral, não. Ali era perigoso, diziam. Sem falar que lá a correnteza leva para o lado detrás da ilha e se caso acontecesse algum problema não se sabia que perigos havia no “lado escuro da ilha”. Eu, então com uns 10 anos de idade, nunca tinha dado a volta por aquele lado.Eu e o Rúzi (Roosevelt) surrupiamos dois remos do seu Doroteio e seguimos pela margem rumo ao porto dos homens olhando qual canoa seria a vítima, pois íamos pegá-la “emprestada” sem que o proprietário soubesse, coisa que era comum pra nós. Já passava do meio dia e a tabatinga estava ainda molhada e escorregadia, devido à chuva forte daquele dia, mas o céu estava uma belezura de azul. Azul que só se vê no céu tocantinense, que refletido nas águas do Araguaia formavam um quadro fabuloso.
Olhava uma canoa daqui, outra dali e nada se adequava às nossas necessidades. Ou era muito grande, ou as menores estavam trancadas na base do cadeado. Sujeitinhos egoístas, onde já se viu trancar canoa?Nossa busca se estendeu por algum tempo ainda e quando já estávamos no último porto das mulheres, aquele que tinha muitas árvores meio caídas para dentro do rio, nós avistamos uma canoa do tamanho certo, sob o pé de ingá. Ela estava amarrada a um pé de sarã,  apenas com corda. Demos umas olhadas sorrateiras pra os lados (daquelas que antecedem a atitudes erradas), pra ver se o dono ou alguém estava por perto. Tudo às quietas, a não ser pelo barulho das águas e das árvores. Nos achegamos a ela e ainda meio desconfiados, com ares distraídos, assim como se nada quiséssemos (só faltou assobiar olhando pra cima) desamarramos a canoa e depois mais uma olhada para os lados a empurramos rio adentro e entramos. Esse era um momento tenso, pior mesmo só a hora da devolução.
Remamos rio acima e eu quase que podia ouvir os gritos do dono da canoa nos flagrando com a boca na botija, mas nada aconteceu, pois era hora da sesta araguacemense, e como se dizia, poder-se-ia sair pelado nessa hora que não havia viv’alma pra ver (aliás, Araguacema é a única cidade que conheço que o comércio ainda fecha ao meio dia). Seguimos com remadas cadenciadas, passando pelo porto do lajedo, churrascaria, convento, prainha onde embicamos rumo ao travessão. Aí a coisa ficou séria! A correnteza teimava em querer nos levar pra o lado do pedral e tivemos que remar feito gente grande pra manter o rumo do travessão.
A briga foi boa e depois de algum tempo, já cansados, nos aproximamos do travessão. O barulho que as águas faziam era algo parecido com um trovão ininterrupto. Aí o medo chegou e eu pensei: Fiz merda! Não conseguiremos aportar nas pedras e a canoa vai virar.
Mas o Rúzi no jacumã foi perito e conseguimos enfiar a canoa numa brecha entre as pedras e aportamos numa espécie de lagoa. Passado o susto, fiquei a admirar aquela espécie de cachoeira, me achando o bonzão por estar ali, quase no Pará e no meio das pedras. Maravilhado com tanta beleza saí andando um pouco para explorar o lugar, e em seguida pusemo-nos a pescar.Era tucunaré aos cântaros, e com a emoção de fisgar tanto peixe, nem vimos a hora passar.
Quando o rio começou a ficar vermelho, como fica todo dia ao por do sol, é que percebemos que estava escurecendo. Uma coisa é ficar no travessão durante o dia e outra é ficar ali, à noite. Apressados, juntamos nossas linhas de mão e saímos o mais rápido que podíamos. Lá pela metade da distância ouvimos que o motor de luz ligou iluminando a cidade. Aí eu pensei: Me lasquei!Se tinha uma coisa sagrada em casa esta era a hora das refeições. Nosso pai fazia questão absoluta de ter todos nós reunidos naquele momento. E o jantar era servido religiosamente entre as seis e sete da noite. E o motor de luz ligava às seis o que significava que eu já estava atrasado pra o evento. Aceleramos o passo, digo, as remadas pra tentar minorar os danos. Toda minha alegria de ter pescado tanto tucunaré se esvaiu. Era certo que ganharia uns corretivos do seu Aldir. Estávamos tão preocupados com o avançado da hora que nem nos preocupamos mais com o  momento da devolução da canoa. Era como se ela fosse nossa. Triste engano!
Quando estávamos aportando no mesmo lugar onde a pegamos, eis que surge por entre uma moita, sabe quem? Pois muito que bem. Pra furtador de canoa todo castigo é pouco e lá se vem o dono da dela todo “satisfeito”, esbravejando, prometendo cascudos, contar pra nossos pais, falou que tinha precisado da canoa pra ir a um tal torrão, etc. Ficou de gritaria até ver a quantidade de peixes que tínhamos. Vendo que ele se interessara pelos peixes oferecemos alguns pra aplacar a fúria do dito, que aceitou de pronto, não sem antes nos garantir os tais cascudos, caso nos atrevêssemos a pegar a canoa dele novamente.
O “Ruzivélte”, com seu cambo de peixes, virou à direita na casa do Raimundim Queiroz e eu segui na rua dos muricis, já imaginando a sova que ia levar logo mais. A estas alturas o jantar já devia estar terminando, e pior, sem a minha presença.
Ali na casa do seu Conrado resolvi descer pela rua do campo de futebol. Era nossa estratégia quando queríamos chegar sorrateiros, passávamos pelo campo, pulávamos o muro do quintal de casa e entravamos pela cozinha. Esse era meu plano.Já estava escuro e atravessar do campo até em casa pelo mato era perigoso, pois poderia ter cobra. E eu liguei pra cobra? Tinha coisas mais urgentes com que me preocupar, e realmente preocupado segui até chegar na escada da caixa d’água que tinha no muro do quintal. Subi por ela para poder pular para dentro.
Lá em cima, prendi a ponta do cambo de peixes entre dentes pra desocupar as mãos, e como o muro era alto e não dava pra pular direto, eu precisava me pendurar na borda dele e depois saltar. Como eu disse, todo castigo pra furtador de canoa é pouco. Naquele dia tinha chovido e os tijolos ainda estavam molhados, então, ao ficar pendurado com cambo de peixes no meio dos dentes, o muro não agüentou o peso e desabou da metade pra cima. Pense num barulho! Pra quem queria chegar às escondidas nada faltava. Caí de costas com metade do muro sobre meu estômago e com peixe espalhado pra todo lado é que pensei: Dessa eu não escapo.
Eu não conseguia respirar, já que a pancada no estômago foi forte, e no meio do meu desespero por ar é que vi todo mundo chegando correndo, assustados com tamanho barulho. E meu pai junto!Já não bastava chegar atrasado para o jantar, tinha que destruir o muro também, pensei aflito, ali no meio dos escombros junto com a peixaiada. Agora sim, a surra ia ser das boas.
Ocorreu-me que alguém ia perguntar onde eu tinha pescado tanto peixe. E se eu dissesse “TRAVESSÂO” seria mais um agravante. Mas, a minha situação ali, caído e com um monte de entulho e peixe sobre mim, com os olhos e a boca arregalados na tentativa de respirar deve ter preocupado meu pai, pois me colocou de pé com um olhar meio assustado (que pensei ser irado), levantou meus braços fazendo massagem na minha barriga e costas até que consegui aspirar e em pouco tempo estava sendo apalpado por minha mãe para ver se não estava com nenhum osso quebrado.
Depois, jantando sozinho, fui fazer os cálculos dos danos e me senti satisfeito. Com tudo que aprontei, levar só um ralho e ficar com o tronco dolorido por causa da queda não foi de todo ruim. No dia seguinte almoçamos os peixes e eu, enquanto comia, fazia planos pra próxima ida ao travessão... Aldir Lyra – ZumaSão Paulo- Sp, 14/09/2011

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