sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ABRÓBA


Aldir Lyra-Zuma

- Mané, já é quase hora da janta e inda num almoçemo...
Era um casal, desses que se vê muito por aí por este sertaozão brasileiro, sem muita aptidão para o trabalho. Talvez morassem ali pelo Tartaruga ou mesmo pelas margens do Piranha perto do Borges, quiçá pelos lados da Abreulândia ou Bonfim. Nem filhos fizeram e não se sabe se por preguiça ou o que. 
- Se nóis tivesse uns bacurizim pudia inté pegá uns corró nesse prano do governo. Era só matriculá êis e ir buscar o dinhero.
De modos que viviam numa pindaíba só. Faltava de tudo, mas o que mais faltava era a coragem pra o trabalho.
- Êita, vontade  de capiná esse mato do terrêro, mas a enxada tá cega...
- Mané, o pote secou, vai na grota buscá água...
- Tamo ô num tamo no inverno, muié? Põe a lata na biqueira e espera chuvê! Diacho de muié infarenta!
-... Ai que preguiça! (já dizia Macunaíma)
E, depois de cuspir pro lado a masca de fumo, continuou o ofício de se balangar na rede. E assim a vida os levava, maltrapilhos e esfomeados, morando numa choupana de palha de babaçu das paredes ao teto. O piso era de terra batida. O madeiramento era de Imbaúba, que não tem cerne, é oca, e fácil de cortar.
- Mané, o vizim prantô uma roça de abróba, tu num qué ir lá pra ver se trais umas pra nóis fazê um dicumê? Lá é tanta abróba quêis num vão nem se apercebê.
E o Mané foi. Chegando lá ficou abismado, a roça do vizinho era uma belezura! Tinha milho, feijão, abóbora... e tudo ali ao alcance da mão.
- Pra quem gosta, trabaiá é bão demais, ói pcêvê!
E na janta comeram abóbora com fatura, sem sal mesmo, que não tinha. Pois muito que bem.  Tomaram gosto pela coisa – fartura é trem bão – e ficaram nessa roubação de abóbora por uns dias. Ia na roça, pegava abóbora, comiam, deitavam na rede, acordavam, comiam abóbora. Ele já estava mais barrigudim e ela mais roliça. Inclusive Piaba, a vira-lata, estava mais fornida. ... Até que o dono da roça começou a perceber que as melhores abóboras estavam desaparecendo.
- Que diacho de bicho tá levando minhas abóboras?
- Que bicho que nada! Olha só o tamanho desse rastro. E essa masca de fumo? Isso é rastro de vizinho. Mas deixa estar, vou carregar uma espingarda com carga de sal grosso que esse cabra vai ver.
-Mané, tu num quiria ir lá na roça pra mode buscar mais abróba, não?
E o desavisado foi. Já estava tão acostumado que até achava que a roça era dele também. Desenvolto como ele só, perambulava pela lavoura sem se preocupar com nada. Escolhe uma daqui, dispensa dali, escolhe outra melhor aculá...
PAW! Berrou a doze, cuspindo sal. Um grito e uma carreira pro rumo do rancho, com a bunda ardendo devido ao tiro do tal sal grosso,  e um bando de cachorro latindo atrás dele, num pega-pra-capar da gota!Chegou ressabiado e mal humorado...A muié já com a água quente:
-Mané, cadê as abróba?
Bruto:
- Tu prantô abroba? Eu prantei abróba? Tu tem roça de abroba?!
A esposa percebendo o aborrecimento do Mané resolveu ficar calada, mas não agüentou muito tempo:
- Mané, eu assuntei um barúi. Foi tiro?
Mais bruto:
- E o que havéra de ser, um peido?!
- Foi nim tu?
Muito mais bruto:
- E em quem havéra de ser? Quem era que tava robano abróba? Quem é que tá com a bunda sargada? ...  -Vô cortá umas vara pra fazê um cantêro!


Aldir Lyra-Zuma

Causo popular adaptado
São paulo, 22/09/2011

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