terça-feira, 27 de setembro de 2011
AS FESTAS JUNINAS
ZEILA OLIVEIRA
O sol refletindo sobre o Araguaia, o vento, o banzeiro das águas, o friozinho das manhãs, as noites suaves, o céu estrelado, as areias branquinhas da praia começando a despontar... Iniciava-se o mês de junho, trazendo aos nossos corações uma explosão de emoções, quanta expectativa!!! o final do semestre escolar, aquele friozinho na barriga à espera do temido resultado, e a torcida para não estar de recuperação, a alegria contagiante das festas juninas, as férias que já estavam próximas, aliada à certeza da chegada da mais movimentada época do ano em nossa Araguacema, e junho chegava já enchendo de cores, luzes e alegrias os nossos corações que em sua doce sêde de ser feliz, abriam portas e se sentiam completos diante das poucas oportunidades que nossa cidade tinha a nos oferecer, mesmo simples assim, o rosto de cada um era de um apaixonado, e o segredo era aproveitar ao máximo essa oportunidade que como o próprio tempo, passava tão depressa.
A quadra de esportes da igreja, dava lugar a um palco de três divertidas noites de muita animação, 22, 23 e 24 de junho. Com barraquinhas de comidas, bebidas, foguetes, fogueiras, balões, música no alto-falante e muita animação. Na escola fazíamos as bandeirolas para decoração e as professoras tratavam de formar os pares para a quadrilha...era aquele alvoroço! Comigo nunca funcionava esta história de professora escolher um par para mim, pois se eu estimasse que o garoto era feio, ou "saliente", ou caçador de "intica" eu ja estava fora. Portanto, eu mesma me incumbia de encontrar o meu par. Ermilson, Edvan, Herbet eram uns verdadeiros homenzinhos precoces, sempre educados, respeitadores e tinham o meu apreço, me recordo de ter dançado quadrilha com eles.
Professora Leila do Inadir, graciosa e elegante, era quem gritava a quadrilha. Achava lindo, ela com sua voz fina e de uma sensualidade ímpar para meu gosto de menina, anunciar no microfone que dentro de alguns instantes a quadrilha ia começar e que deveríamos procurar nossos respectivos pares e formarmos a fila...era um Deus-nos-acuda, os últimos retoques na maquiagem, nos laços dos vestidos, nas tranças ou nas maria-chiquinhas. Os meninos ajeitavam o bigode, conferiam se não haviam perdido a bainha, e se o chapéu estava firme na cabeça para não cair na hora do cavalinho. O coração saltava pela boca, isso gerava uma euforia incontrolável, ninguém dava conta de segurar, - cadê a noiva? e o noivo? gente, olha a fila! Zeilas, Marinas, Cláudias, Marias, Pedros, Célios, Otávios, Joãos, queriam se encontrar, empurram daqui, puxam dali, gritam, cantam, fazem gracinhas, após minutos de muita euforia todos já bem acompanhados e ao som da música "A fogueira está queimando, em homenagem a São João, o forró ja começou, vamos gente arrastar pé neste salão...", significava que estava dada a largada, agora precisávamos nos concentrar para fazer bonito, sem errar, pois a platéia que nos assistia era grande, professores, pais, irmãos, tios, tias, primos, avós, padrinho, madrinha, amigas, curiosos e toda a vizinhança.
Preparar para cumprimentar o público, caminho da roça, damas na frente dos cavalheiros, olha a chuva, olha a cobra, a ponte quebrou, preparar para cestinha de flores e etc. até aí tudo tranquilo...mas quando a professora Leila toda faceira, sacudindo as abas de seu vestido amarelo de bolinhas pretas, de finas alças e saia godê, acentuando ainda mais sua feminilidade e sua cintura de pilão, rebolando a nossa frente dizia assim: Damas, olhem o rebolado!!!! Neste momento, os babados e as rendas das nossas saias baianas estampadas de flores, preparadas pelas nossas mães para esta ocasião, pareciam querer voar, formando uma verdadeira ciranda de babados e flores, tamanha era a nossa alegria e excitação.Triste mesmo era acenar para o público em sinal de despedida. A quadrilha havia terminado, agora só no ano seguinte, porém a festa estava só começando. Depois da nossa dança, era a vez dos adultos, e de artistas passávamos a meros expectadores. Porém, a nossa euforia era tão grande, que não conseguíamos ficar parados para assistir a quadrilha dos adultos, a gente queria mesmo era aproveitar a noite, comer pipoca, milho assado, canjica, maçã do amor, participar do correio elegante e da cadeia, pra ver se aquele menino causador da nossa insônia mandava nos tirar de lá.
Dona Ana do Ti-Rosa, Otávia, dona Maurina e outras senhoras prendadas, assavam frangos, e ofereciam como prendas para a igreja, que durante a noite iam a leilão pelo mais famoso cantador de leilões que Araguacema conheceu em toda sua história, seu Zacarias Marques. Recordo-me que ele dizia assim: Quem mais dara, mais tomara! Eu não sabia o que isso queria dizer e confesso que até hoje não sei. E pra finalizar ele dizia: e dou-lhe uma, e dou-lhe duas e dou-lhe três. Os frangos de pernas para cima, espetados com palitos, para segurar as azeitonas, eram postos em bonitas bandejas decoradas com farofa e rodelas de ovos cozidos, isso cheirava a quilômetros. Porém, estes iam para a mesa dos senhores fazendeiros, ou comerciantes, Elias Bosaipo, Marcos Coelho, Sandoval Simas, Antonio Costa, Dona Ivone, Dona Jesus Borges e outros.
Com as prendas arrecadadas, faziam-se bingos e seu Zacarias com um jeito peculiar que só ele tinha, cantava as pedras. Para a maioria das pedras ele tinha uma forma engraçada de dizê-las. Por exemplo, 22, dois patinhos na lagoa, 51, uma boa idéia, 33, idade de Cristo, 11, time de futebol e etc. Eu ficava a ver navios, não entendia o que aquilo significava, mas uma coisa é certa, suas frases ficaram gravadas na minha memória e de muitos meninos daquela época.
Tia Chica Preta fazia bolos de puba, que derretiam na boca, de tão bons que eram, e vendia-os em fatias, que não custavam quase nada, dona Santa se encarregava de assar as batatas doces na brasa, vó Zulmira fazia arroz-doce polvilhado com canela, dona Lôra se encarregava de fazer os pés-de-moleque, tia Mariota o bolo cacete, e dona Nêga preparava o quentão, que era delicioso, mas só os adultos podiam tomar. Elas não ganhavam nenhum tostão por esse trabalho, a renda era para a igreja, como forma de serem abençoadas pelos santos e perdoadas caso cometessem algum pecado.
Eram três dias de muita animação. Os adultos saiam pelas ruas fazendo uma passeata caipira com casamento na roça e tudo mais. O pau-de-sebo era uma das grandes atrações, era uma espécie de mastro comprido e untado com sebo com um prêmio no topo para os que conseguissem escalá-lo, viam-se notas de dez, cinquenta, e cem cruzeiros. Era um tal de sobe e escorrega, e a molecada marota, que se acabava em risos e gargalhadas, seguidas das risadas da maravilhada torcida que nunca viu um deles conquistar o tão sonhado prêmio.
Minhas primas, juntamente com minhas irmãs e eu, fazíamos simpatias para saber se íamos nos casar, ou com quem íamos casar. Colocávamos a clara do ovo, dentro de uma garrafa com água e na nossa fértil imaginação, víamos uma noiva vestida de branco, se não víssemos íamos ficar beatas. Enfíavamos uma faca no pé de bananeira e só tirávamos no dia seguinte, ou seja no dia de Santo Antonio, a faca tinha que conter as iniciais do nome daquele menino por quem nosso coração suspirava, ou então não nos casaríamos com ele.
Na véspera das festas, as irmãs franciscanas escolhiam duas ou três garotas para concorrerem a "Rainha". Estas por sua vez deveriam sair de casa em casa, vendendo votos. Ou seja vendendo um cupom que valia uma quantidade X, quem vendesse mais cupons e arrecadasse mais dinheiro, esta seria eleita Rainha, com direito a faixa de cetim e coroa de papel laminado dourado, na cabeça. Era válido também arrecadar prendas para leilão. Por eu ser o xodó da irmã Mariana, ela me escolheu para concorrer a tão sonhado cargo de "Rainha das festas juninas", tendo como concorrentes Jaqueline Marinho e Joselena Mourão. Foi parada pra desmantelo . Cada uma tinha direito a escolher um casal para padrinhos e uma conselheira. Eu, como só tinha de besta, a cara e o caminhado, escolhi logo dona Amujacy e seu Marcos para padrinhos e Nadjinha para conselheira, pois Nadjinha era uma moça muito sensata e prudente, assim poderia me ajudar a controlar minha ansiedade e os meus impulsos. Mamãe me costurou um bonito vestido cor-de-rosa, em tecido de crepe de seda, com um bolero vermelho, enfeitado de rosas de gripi brancas. Tia Claísa trouxe de Goiânia, especialmente para este evento, uma bonita sandália branca, bordada com discretas flores nos tons rosa e vermelho, para condizer com meu vestido. Jaqueline tinha como padrinho, Dr. Alcebíades e como conselheira Luciley, o que me causava certa inquietação, pois Luciley dava nó em pingo d'água. Eu não podia perder...tinha a garganta seca, os lábios ressecados, e o coração mais parecia um zabumba. Minutos antes da apuração dos votos, dona Amujacy, como grande dama da sociedade araguacemense, não podia permitir que sua afilhada perdesse e para prevenir, falou com algumas pessoas da organização pedindo um tempo, o que não foi difícil de concordarem, pois sabiam que quanto mais dinheiro entrasse, maior seria o lucro para a igreja. Mais que depressa, ela mandou buscar na fazenda Lajeado, um novilho, que ali mesmo foi arrematado em leilão e assim, minha vitória foi garantida.
Quanta alegria e emoção vivemos na nossa infância! A felicidade faíscava em labaredas, ser feliz era tão fácil e tão simples ...
E quando as brasas das fogueiras estavam quase em cinzas e todos os pedidos ja haviam sido feitos, com versinhos amorosos nos despedíamos das festas juninas, dando os últimos pulinhos sobre a fogueira, cantando e recitando:
"Capelinha de melão,
é de São João
é de cravo é de rosa é de manjericão
São João está dormindo não nos ouve não,
Acordai, acordai, acordai São João."
"Abençoados Santinhos
Nesta Festa Junina
Recebam os recadinhos
Destas ditosas meninas!"
Zeila.
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