quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A DOÇURA DE NONÔ


Zé da Codespar

Sempre que eu chegava ao Hotel da Ivone me deparava com uma movimentação frenetica de hospedes incompatível com a aparência provinciana da cidade. Em geral, eram quase todos homens e, a maioria deles, falando arrogantemente alto, deixando em polvorosa as humildes garçonetes e se deleitando com os enaltecimentos de seus pedigrees feitos pela dona do hotel. Dentre os que permaneciam hospedados por dias havia sempre alguns folgados e metidos a importantes demais, que não se dignavam tomar banho no rio, no final do dia.
Como Araguacema, nos longínquos anos sessenta, ainda nem sonhava ter água encanada, todos os dias já era natural ouvir-se a voz de d. Ivone chamando seu filho:
_ Paulinho, vai buscar água.
O garoto, de apenas doze anos, pegava uma vara,de cujas extremidades pendiam duas latas de 18 litros e se dirigia para o rio. Com a vara no cangote, protegido por um pano, o jovem tímido, de comportamento introvertido, ajoelhava-se sobre as águas e se levantava com as latas cheias.
Com essa carga excessiva para sua idade, subia o íngreme barranco do rio, percorria um caminho de 400 metros até o hotel, onde a despejava em um reservatório para que os bacanas metidos a besta se banhassem.
Paulinho, hoje, talvez nem se lembre disso porque essas tarefas eram tipicas dos meninos de sua idade e não eram tidas pela sociedade da época como abuso, mas sim como fator de formação de um homem.
Mas aqueles que presenciavam o esforço do menino para proporcionar um banho sádico como esse, sabiam que em sua região isso não seria aceitável e, mesmo assim, não se constrangiam de suas atitudes.
Mudando um pouco do assunto acima e me atendo ao título deste texto, devo dizer que, quando me hospedava no hotel da Ivone por um período maior que um dia, sempre me prendia a atenção uma garotinha de uns 8 ou 10 anos, pelo seu comportamento melancólico, talvez triste, de olhinhos pidões, lábios bem carnudos, que seriam sensuais se não fossem de uma criança. Parecia mesmo que ela era a patinha feia da família.
O tempo passava, ela ia crescendo, tomando forma de mocinha, mas sua aparência melancólica e seu jeito tímido de ser não se modificavam. Delineava-se nela o padrão típico das moças do sertão destinadas a se casarem com rudes roceiros e geradoras de grandes proles.
Anos depois de eu ter saído da região, retornei a Araguacema e me encontrei com uma mulher muito bonita, viçosa, desembaraçada e de conversa cativante.
Como Ivone notou que eu não estava reconhecendo aquela linda mulher, ela, quase me repreendendo, disse:
_ Não é possível que você não conhece mais a Nonô!
Não me lembrava mais nem que aquela menina, cujo apelido era Nonô, filha da Ivone, se chamava Ione.

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