segunda-feira, 19 de setembro de 2011

DOCES LEMBRANÇAS


PAULO HENRIQUE DE OLIVEIRA MESQUITA - PH.D

É muito difícil hoje imaginar uma vida sem algumas regalias que ora nos são indispensáveis. Até mesmo os mimos mais triviais do nosso dia a dia, se nos falta, nos causa transtornos e perturba o nosso conforto. A nossa era é tecnológica, mas houve um tempo para nós, onde experimentamos viver na era do fogo. Todas as manhãs, ao acordarmos, mais uma vez era preciso acender o fogo, mas não como o reproduzimos agora. O fogão a lenha era o veículo condutor por onde transportamos boa parte de nossas vidas. Por ele, nos conduzimos e nos alimentamos. O “gargurau” que em dificuldades granjeamos é que nos alimentou no momento mais crítico de nossas vidas sempre utilizando do nosso velho e indispensável fogão a lenha. Por sua vez o “bernaldo” sempre foi o grande aliado das nossas lamentações, nos aturdia e não arredava o pé do fogão.
Mesmo vivendo em dificuldades éramos saudáveis e felizes e não sabíamos. Os nossos dias eram inteiros e tinham exatamente vinte e quatro horas. Durante décadas experimentamos viver a vida em todas as suas nuances. Provamos dificuldades irretocáveis e também dias de muita alegria. Para nós, não havia favores. E quantos labores! Mas tudo isso nos fez descobrir o valor da vida real que naquelas circunstâncias aprendemos a viver.
Para fazer um almoço levava-se de oito a dez “lachas de lenha”, compradas logo ali na Raimunda do Doca. Enquanto com a boca se assoprava, as primeiras pontas de brasa, o fogo era “atiçado” e, se a lenha era ruim a “guariba” se formava enchendo toda a cozinha.
A grande enchente que deu início no final de 1979 e percorreu até meados de abril de 1980, trouxe consigo destruição e nos expôs a situações por nós ainda não vividas. O que parecia a visão do apocalipse transtornava a nossa vida e remexia as nossas bases de sustentação. A visão cadavérica no fim de tudo, quando as águas deram adeus aos quintais das nossas casas, apontava para o fim de uma trajetória cansativa e totalmente desanimadora. Nunca imaginaríamos, percorrendo os entulhos do nosso passado, em todas as ruas por onde as águas passaram que, em meio a tanta destruição, renascer das cinzas e daquelas águas fosse para nós algo tão excitante.Usado por Deus, o nosso sempre ditoso amigo o Rio Araguaia abandonou o seu leito natural, avançou contra a nossa história e, com ímpeto, arrojou sobre ela com as suas águas e com toda a sua fúria os seus banzeiros. E tocou o mais intimo de suas entranhas pra gerar um novo rebento. Este por sua vez, não somente veio a nos trasladar de uma realidade de limitações, há uma nova realidade de vida, como também nos ajudaria a compor uma nova história. A partir daí, tudo se fez novo.
Tendo a enchente de 1980 como marco zero dessa transformação, partimos rumo ao desconhecido, deixando as coisas que para traz ficaram e partindo para as que diante de nós estavam. Lançamos novas colunas e começamos a erguer uma nova história sobre os alicerces erguidos pelos nossos ancestrais. Daí se seguiram mudanças significativas e essencialmente necessárias. A chegada da energia elétrica. Meu Deus! Imagina ficar na rua depois das 10:15h da noite; aposentar a nossa lamparina, amiga inseparável de todas as noites; não precisávamos mais “dormir com as galinhas”, muito menos jantar antes que escurecesse. Uma luz brilhou para nós e em apenas um salto saímos da carne de sol e salgada para a era dos resfriados. Nem por isso entendemos que foi tão simples assim e por isso nos barramos na era tecnológica, pois nem todos podiam possuir a sua geladeira que até então os mais ricos e abastados a possuíam e as que existiam funcionavam a gás. Outra experiência que nos moveu o íntimo foi a chegada da água encanada. A “seneágua” como era costume chamarmos a empresa responsável pela obra redentora que nos livraria do “cambão” que durante toda a nossa vida criou calo no nosso “cangote” e dores no “mucumbu”.
Até então tudo era novidade, e quão difícil era para nós algumas coisas que hoje são antiquadas e até mesmo supérfluas se comparadas às dificuldades de obtê-las naquela situação...
·        Comer macarrão era coisa de domingão;
·        Carne demorava semanas até chegar à nossa mesa;
·        Usar “cintina” pra fazer as necessidades e na porta apenas uma cortina de pano;
·        Chuveiro nem pensar;
·        Chuveiro quente, uma utopia;
·        Escovar os dentes e tomar banho, na beira do rio era uma rotina;
·        Usar o “cambão” pra encher potes e “camburão” com água buscada no rio para atender a necessidades domésticas;
·        Pisar arroz no pilão até tirar a última “escolha” e não valia deixar o arroz só “arrupiado”;
·        Bater o “escovão” no piso de vermelhão que mais tarde evoluiu para verdão e amarelão;
·        Pegar lenha no mato;
·        Lavar os “trem” no rio;
·        Nascer, crescer e morrer e não conhecer o mar, um Shopping Center; um parque de diversões; ou sequer beber uma coca cola. Pode parecer estranho, mas é real.
A vida pacata que aprendemos a viver nos tornou essencialmente "humanos" no sentido mais profundo e real que a palavra possa nos revelar.                   Contudo, tivemos também perdas irreparáveis. O novo mundo que se nos foi apresentado nos fez deixar para traz histórias vibrantes e momentos inesquecíveis. Agora, as histórias e as imagens desse tempo, se tornaram lembranças que permeiam a nossa mente e nos transportam sem fronteiras a um passeio sem precedentes ao mundo das nossas emoções. A partir de então recorremos á memória e assim dar vida a uma vida que passou, mas que permanece viva dentro de nós. Posso isso nasceu o Magia de Lembrar Intermináveis.
Imagina viver em um lugar onde você conhece todas as pessoas, e que possa contá-las uma a uma pelo seu nome. Separá-las genealogicamente por suas filiações. Conhecer as suas profissões, saber das suas enfermidades e ainda dar a cada uma delas um apelido que possa caracterizá-la e diferenciá-la entre as demais. Conhecer as suas casas intimamente, saber quantas mulheres, homens e crianças há em cada uma delas. Participar das suas tribulações e também das suas alegrias e até mesmo discernir quando estão alegres ou tristes. Imagine você vivendo em um lugar onde a única certeza que você tem é que você não está sozinho e que sempre existe alguém com quem possa contar. Uma cidade que é pequena demais pra caber tudo aquilo que há e se faz dentro dela e exageradamente grande para abarcar a todos indistintamente. Imagine a alegria de ter como quintal da sua casa o verde das florestas, animais de várias espécies. Caça e pesca em abundância e ter por testemunha disso tudo o Rio Araguaia, correndo à nossa frente e se encarregando de levar consigo as nossas desventuras, deixando apenas a areia lavada das praias e o lodo das pedras nos pedrais.Poucas pessoas no mundo tiveram o privilégio de residir em uma cidade e conhecer e manter afinidade com todos os seus habitantes. Se entristecer e se alegrar com eles e compartilhar “cumbucas” de farinha, feijão, arroz, mandioca, tapioca, paçoca. Tudo, até pedaço de “bolo de receita” a gente dividia. E nada era mais lindo do que ver a dança das cumbucas que iam e vinham. Elas iam sempre cheias, mas nunca voltavam aos seus donos vazias. Assim éramos nós.                     Hoje o mundo "evoluiu" e nós mudamos com ele. Agora, podemos dizer que somos um pequeno pedaço de terra cercado de globalização por todos os lados. Do mesmo modo em que ela encurta caminhos, aumenta as distancias entre sonho e a sua realização para a grande maioria de nós. Lutamos tanto para abrir os caminhos que nos trouxessem até aqui e hoje nos perdemos em meio a tantas possibilidades que parecem tornar todas as nossas lutam sem sentido.
Paulo Henrique
Ph.d
Glossário
Arroz arrupiado: Arroz cheio de escolhas (arroz com casca).
Atiçado: Atear fogo; jogar lenha na fogueira; assanhar.  Ex: “Maria, atiça o fogo pra não apagar”.Bernaldo: Fome; necessidade de alimento. Ex: Mãe, hoje eu amanheci num bernaldo que como até pedra no feijão.bolo de receita: Bolo comum sem cobertura ou recheio; antiga receita de bolo, sem muitos ingredientes e feito em forma redonda.
Cambão: Aparato feito com uma vara firme com uma corda de um metro nas duas extremidades amarradas em balde ou lata para carregar água.Camburão: Tambor, muito utilizado para aparar água da biqueira em tempo de chuva.
Cangote: Pescoço; cervis; parte superior da coluna cervical. Ex: Acho que dei um jeito no meu cangote.
Cintina: Banheiro de fossa séptica; privada; casinha. Ex: Antes de haver água encanada em Araguacema o jeito era apelar para cintina.
Cumbucas: Utensílio doméstico feito de cabaça.
Escolha: Grão com casca do arroz no meio do arroz limpo.
Gargurau:  Merenda servida na hora do recreio; lanche; comida; comida rápida. Ex: Quem não se lembra ou não tem saudade do gargurau que era servido no colégio estadual na hora do recreio.
Guariba: Grande volume de fumaça produzida pelo fogão a lenha enchendo toda a casa e provocando desconforto nas vias respiratórias.
Lachas de lenha: Combustível apropriado para o fogão de lenha. Do tronco de madeira partido ao meio e ainda em pedaços menores era tirada a lacha de lenha que era vendida por peça. Ex: Paulo vai na Raimunda do Doca comprar umas lachas de lenha.
Mucumbú: Costas; cacunda; espaldas. Ex: Hoje amanheci com uma dor nos mucumbus.Trem: Louça; utensílios de utilidade da cozinha. Ex: Todos os dias depois do almoço a Gilvani vai lavar os trem no porto das mulheres.

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