ZE DA CODESPAR
Nos idos de 1965 a 1969, quando o sol declinava, abrandando o forte calor de todas as tardes, a turma do vôlei ia chegando, aos poucos, para as costumeiras partidas em que se envolviam moças e rapazes de Araguacema.
As professoras Zuleide, Dalva, Jaci e a enfermeira Lúcia, exímias jogadoras, se uniam aos não menos craques Minã (Rani), Dentã (Pedro Lopes), Cocô (Olimpio), Maneco, Chico (da Jandira), eu, quando estava por lá, e outros para disputarmos animadas partidas para, depois, suados e cansados, mergulharmos nas águas gostosas do Araguaia, em meio a uma divertida algazarra.
Às vezes me pego rindo sozinho ao me lembrar de um acontecimento hilário em uma dessas partidas de vôlei. A disputa já ia começar, quando alguém propôs apostar uma garrafa de um refrigerante recém lançado no mercado e gritou: "valendo uma Fanta".
Do outro lado o Maneco respondeu, em cima da bucha: que diabo é Fanta? Ninguém conteve o riso e as gargalhadas. Nem é preciso dizer que o pobre Maneco, a partir de então, passou a ser alvo das gozações sempre que se falava em Fanta.
Era notável o clima de amizade fraterna reinante entre os jovens da cidade, cujo ponto alto era o respeito cultivado com muito zelo entre eles. A sinceridade com que aquela comunidade de jovens procurava pautar as relações de amizade gerava um convívio que me fazia escolher Araguacema, dentre outras mais movimentadas, para meu lazer.
À tardinha, quando o sol beijava o horizonte paraense e as moças, bem vestidas e perfumadas, desfilavam suas belezas na Praça das Gaivotas, diante das águas levemente encapeladas pela brisa, acontecia um espetáculo da natureza de rara beleza que ficou em mim como a mais bela lembrança de Araguacema.
O pôr-do-sol das tardes de verão lançava raios avermelhados sobre o imenso espelho d’água esverdeado, emoldurado pelo verde das matas e o branco das praias, tingindo de sangue um caminho luminoso por onde passavam os olhares extasiados, tanto do forasteiro como do ribeirinho, embora este nem se impressionasse tanto.
Os nativos do lugar já se acostumaram com essa dádiva divina para seus olhos e, de tanto ser oferecida graciosamente, todos os dias, não a valorizavam tanto quanto um habitante da metrópole, cujo céu é eternamente toldado pela fumaça das chaminés das fábricas e as águas dos rios têm a cor da fuligem dos motores depositada no asfalto e levada pelas chuvas.
Como se não bastasse tanta generosidade do Criador com esse belíssimo pôr-do-sol, a noite chegava trazendo consigo um luar escandalosamente lindo, cujo brilho intenso iluminava as areias branquíssimas da praia em frente e o velho casario da cidade ainda desprovida de energia elétrica.
A Praça Gentil Veras era apenas um largo coberto pela gramínea nativa, cortado por um caminho de pedestres que ligava o comércio do Cesário Borges ao do Elias Bosaipo, passando por uma frondosa mangueira, cujos frutos apodrecidos, depois de dias caídos, atraíam moscas e mosquitos tornando imprópria a utilização de sua sombra.
Mas a Praça das Gaivotas recém construída, ainda sem o bar de mesmo nome, além de aconchegante e panorâmica, se oferecia como mirante e ponto de encontros de namorados e violeiros, como o Rani e o Olimpio, cujos violões eram magistralmente dedilhados em lindas canções pelas madrugadas afora, entre copos de cerveja e pinga no murici.
A praia tão intensamente iluminada era um convite aos namorados para deixarem o calor insuportável da cidade e desfrutarem a brisa gostosa que perpassava contínua as areias macias. Uma daquelas canoas amarradas na beira do rio seria tomada “por empréstimo” sem que o dono soubesse e sem que soubéssemos quem era o dono.
A brisa incessante tornava o clima da praia ameno, quase frio, e sugeria aos românticos casais de namorados que cavassem valas, convenientemente distantes dos outros, em busca da areia quente, onde se deitavam abraçadinhos e cobertos pela areia escavada.
O som das músicas do Roberto, Jerry Adriano, e outros da Jovem Guarda, que vinha de LP’s tocados na radiola ou toca-discos a pilhas, encobria as juras, suspiros e arroubos vindos das alcovas improvisadas.
Essas memoráveis noitadas se compunham de dois momentos: o primeiro se dava logo na chegada à praia, quando os casais formavam uma roda para jogar conversa fora e o segundo acontecia quando a vontade de ficar a sós falava mais alto e cada casal se afastava para abrir sua valinha.
Numa dessas noites, no primeiro desses momentos, o cazalzinho Dalva e Juvenal estavam juntinhos na roda e, enquanto o papo rolava, Dalva enfiava a mão na areia e avançava em direção às coxas do Juvenal. De repente ela gritou: “achei um ninho de tracajá”! Do breve silêncio que se fez destacou-se a voz de um gaiato: “mas os ovos não são de tracajá"!
Em meio à gargalhada geral, enquanto a Dalva cabisbaixa procurava esconder o rubor de sua face, Juvenal disfarçava o mal estar com um sorriso amarelo.
Ao romper da madrugada todos embarcávamos de volta na canoa a ser devolvida, torcendo para que o dono não tivesse madrugado, como aconteceu certa vez, quando Juvenal, sempre muito correto, se dispôs a pegar uma dessas canoas e, na hora de devolve-la, já do meio do rio, começou a ouvir o justo sermão do dono furioso postado na margem à sua espera. Mas, por amor, sempre valem pequenas contravenções. Não é Juvenal?
Araguacema sempre teve muitos “gaiatos” profissionais que faziam a alegria de muitos e deixam outros mais vermelhos que cabeça de frango pelebreu. O coitado do Seu Juvenal mesmo deve ter ficado assim. kkkkk E não há nada como a Magia das Lembranças!!
ResponderExcluirLiberato Cunha