sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ASSIM NASCEU CASEARA

ZE DA CODESPAR
Era novembro de 1965 quando eu cheguei de São Paulo para gerenciar a Codespar – Cia. de Desenvolvimento do Sul do Pará, um projeto agropecuário financiado pela Sudam, com o propósito de desenvolver a economia do norte do Brasil.
Entre os compromissos de realizações assumidos pela Codespar, o mais urgente era a construção de uma rodovia, ligando a Belém – Brasília, em Paraíso do Norte, à sede do projeto, no seio da floresta paraense.
As obras dessa rodovia já estavam em curso e, nessa altura, as máquinas estavam trabalhando próximo à localidade onde uma estrada precária, já existente, derivava para a direita, rumo a Araguacema, passando por uma corrutela chamada Abreulândia. Daquele ponto, que passou a ser chamado de Forquilha (hoje Divinópolis), a rodovia em construção prosseguia, rumo ao Araguaia, enquanto outra turma construía pontes e, dentre elas, a do Rio Piedade com uma extensão maio.
Quando a estrada ultrapassou a divisa de municípios, entre Miracema e Araguacema, o prefeito da primeira, Mariano Cavalcante, não perdeu a oportunidade de deixar seu nome ali e loteou uma grande área na margem da rodovia, à qual deu o nome de Marianópolis e que rapidamente virou cidade.    
Na margem desse pseudo lago, que nada mais é que um braço do Araguaia alimentado pelas águas do Rio do Côco,  morava um mariscador solitário chamado Casé, de cujo rancho ainda permaneciam erguidos os esteios a contemplar o belo rio e que já havia falecido, há tempos, vitimado pelos efeitos da bebida.
Em meados de julho de 1966, não me lembro o dia, o trator de esteiras construiu uma rampa no barranco do lago, para acesso à balsa metálica de 40 toneladas, que já estava ali, e, ao lado da rampa, ergueu-se um grande barracão, para servir de entreposto.
A partir desse ponto, de ambos os lados da estrada, foram surgindo outros barracos de moradia de empregados da empresa, de botecos, cantinas, como a do Gaucho e outros aventureiros.
Quando já se contavam uns trinta barracos e o movimento ali já indicava uma rápida expansão, o barqueiro da Codespar, chamado Haroldo Luz, veio a mim e ponderou que o lugarejo já merecia ganhar um nome com o qual a direção da empresa concordasse.
Ele sugeriu alguns nomes, dentre os quais Goiara, e eu, não concordando com nenhum deles, sugeri um nome que sintetizasse tanto a memória de seu único morador como a beleza natural do rio: Casé e Ara(guaia). Ele, na hora, vibrou com o nome.
Ali mesmo escrevi CASEARA em uma tábua bem grande e ele a fixou em um poste, ao lado do barracão da empresa, e saiu pelos barracos a anunciar o novo nome da cidade que, até então, era chamada de Lago do Casé.
A escolha agradou a todos, mas, hoje, eu devo confessar que, naquele dia, não compartilhava do entusiasmo do Haroldo, nem via probabilidade de crescimento daquele arruamento, porque, para mim, aquilo era apenas um entreposto provisório da empresa, fadado a se extinguir, depois de consolidado o projeto.   
   
        
                                  



terça-feira, 27 de setembro de 2011

AS FESTAS JUNINAS


ZEILA OLIVEIRA

O sol refletindo sobre o Araguaia, o vento, o banzeiro das águas, o friozinho das manhãs, as noites suaves, o céu estrelado, as areias branquinhas da praia começando a despontar... Iniciava-se o mês de junho, trazendo aos nossos corações uma explosão de emoções, quanta expectativa!!! o  final do semestre escolar, aquele friozinho na barriga à espera do temido resultado, e a torcida para não estar de recuperação, a alegria contagiante das festas juninas, as férias que já estavam próximas, aliada  à certeza da chegada da mais movimentada época do ano em nossa Araguacema, e junho chegava já enchendo de cores, luzes e alegrias os nossos corações que em sua doce sêde de ser feliz, abriam portas e se sentiam completos diante das poucas oportunidades que nossa cidade tinha a nos oferecer, mesmo simples assim, o rosto de cada um era de um apaixonado, e o segredo era aproveitar ao máximo essa oportunidade que como o próprio tempo, passava tão depressa.
A quadra de esportes da igreja, dava lugar a um palco de três divertidas noites de muita animação, 22, 23 e 24 de junho. Com barraquinhas de comidas, bebidas, foguetes, fogueiras, balões, música no alto-falante e muita animação. Na escola fazíamos as bandeirolas para decoração e as professoras tratavam de formar os pares para a quadrilha...era aquele alvoroço! Comigo nunca funcionava esta história de professora escolher um par para mim, pois se eu estimasse que o garoto era feio, ou "saliente", ou caçador de "intica" eu ja estava fora. Portanto, eu mesma me incumbia de encontrar o meu par. Ermilson, Edvan, Herbet eram uns verdadeiros homenzinhos precoces, sempre educados, respeitadores e tinham o meu apreço, me recordo de ter dançado quadrilha com eles.

 Professora Leila do Inadir, graciosa e elegante, era quem gritava a quadrilha. Achava lindo, ela com sua voz fina e de uma sensualidade ímpar para meu gosto de menina, anunciar no microfone que dentro de alguns instantes a quadrilha ia começar e que deveríamos procurar nossos respectivos pares e formarmos a fila...era um Deus-nos-acuda,  os últimos retoques na maquiagem, nos laços dos vestidos, nas tranças ou nas maria-chiquinhas. Os meninos ajeitavam o bigode, conferiam se não haviam perdido a bainha, e se o chapéu estava firme na cabeça para não cair na hora do cavalinho. O coração saltava pela boca, isso gerava uma euforia incontrolável, ninguém dava conta de segurar, - cadê a noiva? e o noivo? gente, olha a fila! Zeilas, Marinas, Cláudias, Marias, Pedros, Célios, Otávios, Joãos, queriam se encontrar, empurram daqui, puxam dali, gritam, cantam, fazem gracinhas, após minutos de muita euforia todos já bem acompanhados  e ao som da música "A fogueira está queimando, em homenagem a São João, o forró ja começou, vamos gente arrastar pé neste salão...", significava que estava dada a largada, agora precisávamos nos concentrar para fazer bonito, sem errar, pois a platéia que nos assistia era grande, professores, pais, irmãos, tios, tias, primos, avós, padrinho, madrinha, amigas, curiosos e toda a vizinhança.
Preparar para cumprimentar o público, caminho da roça, damas na frente dos cavalheiros, olha a chuva, olha a cobra, a ponte quebrou, preparar para cestinha de flores e etc. até aí tudo tranquilo...mas quando a professora Leila toda faceira, sacudindo as abas de seu vestido amarelo de bolinhas pretas, de finas alças e saia godê, acentuando  ainda mais sua feminilidade e sua cintura de pilão, rebolando a nossa frente dizia assim: Damas, olhem o rebolado!!!! Neste momento, os babados e as rendas das nossas saias baianas estampadas de flores, preparadas pelas nossas mães para esta ocasião, pareciam querer voar, formando uma verdadeira ciranda de babados e flores, tamanha era a nossa alegria e excitação.Triste mesmo era acenar para o público em sinal de despedida. A quadrilha havia terminado, agora só no ano seguinte, porém a festa estava só começando. Depois da nossa dança, era a vez dos adultos, e de artistas passávamos a meros expectadores. Porém, a nossa euforia era tão grande, que não conseguíamos ficar parados para assistir a quadrilha dos adultos, a gente queria mesmo era aproveitar a noite, comer pipoca, milho assado, canjica, maçã do amor, participar do correio elegante e da cadeia, pra ver se aquele menino causador da nossa insônia mandava nos tirar de lá.
Dona Ana do Ti-Rosa, Otávia, dona Maurina e outras senhoras prendadas, assavam frangos, e ofereciam como prendas para a igreja, que durante a noite iam a leilão pelo mais famoso cantador de leilões que Araguacema conheceu em toda sua história, seu Zacarias Marques. Recordo-me que ele dizia assim: Quem mais dara, mais tomara! Eu não sabia o que isso queria dizer e confesso que até hoje não sei. E pra finalizar ele dizia: e dou-lhe uma, e dou-lhe duas e dou-lhe três. Os frangos de pernas para cima, espetados com palitos, para segurar as azeitonas, eram postos em bonitas bandejas decoradas com farofa e rodelas de ovos cozidos, isso cheirava a quilômetros. Porém, estes iam para a mesa dos senhores fazendeiros, ou comerciantes, Elias Bosaipo, Marcos Coelho, Sandoval Simas, Antonio Costa, Dona Ivone, Dona Jesus Borges e outros.

Com as prendas arrecadadas, faziam-se bingos e seu Zacarias com um jeito peculiar que só ele tinha, cantava as pedras. Para a maioria das pedras ele tinha uma forma engraçada de dizê-las. Por exemplo, 22, dois patinhos na lagoa, 51, uma boa idéia, 33, idade de Cristo, 11, time de futebol e etc. Eu ficava a ver navios, não entendia o que aquilo significava, mas uma coisa é certa, suas frases ficaram gravadas na minha memória e de muitos meninos daquela época.
 Tia Chica Preta fazia bolos de puba, que derretiam na boca, de tão bons que eram, e vendia-os em fatias, que não custavam quase nada, dona Santa se encarregava de assar as batatas doces na brasa, vó Zulmira fazia arroz-doce polvilhado com canela, dona Lôra se encarregava de fazer os pés-de-moleque, tia Mariota o bolo cacete, e dona Nêga preparava o quentão, que era delicioso, mas só os adultos podiam tomar. Elas não ganhavam nenhum tostão por esse trabalho, a renda era para a igreja, como forma de serem abençoadas pelos santos e perdoadas caso cometessem algum pecado.

Eram três dias de muita animação. Os adultos saiam pelas ruas fazendo uma passeata caipira com casamento na roça e tudo mais. O pau-de-sebo era uma das grandes atrações, era uma espécie de mastro comprido e untado com sebo com um prêmio no topo para os que conseguissem escalá-lo, viam-se notas de dez, cinquenta, e cem cruzeiros. Era um tal de sobe e escorrega, e a molecada marota, que se acabava em risos e gargalhadas, seguidas das risadas da maravilhada torcida que nunca viu um deles conquistar o tão sonhado prêmio.

Minhas primas, juntamente com minhas irmãs e eu, fazíamos simpatias para saber se íamos nos casar, ou com quem íamos casar. Colocávamos a clara do ovo, dentro de uma garrafa com água e na nossa fértil imaginação, víamos uma noiva vestida de branco, se não víssemos íamos ficar beatas. Enfíavamos uma faca no pé de bananeira e só tirávamos no dia seguinte, ou seja no dia de Santo Antonio, a faca tinha que conter as iniciais do nome daquele menino por quem nosso coração suspirava, ou então não nos casaríamos com ele.
 Na véspera das festas, as irmãs franciscanas escolhiam duas ou três garotas para concorrerem a "Rainha". Estas por sua vez deveriam sair de casa em casa, vendendo votos. Ou seja vendendo um cupom que valia uma quantidade X, quem vendesse mais cupons e arrecadasse mais dinheiro, esta seria eleita Rainha, com direito a faixa de cetim e coroa de papel laminado dourado, na cabeça. Era válido também arrecadar prendas para leilão. Por eu ser o xodó da irmã Mariana, ela me escolheu para concorrer a tão sonhado cargo de "Rainha das festas juninas", tendo como concorrentes Jaqueline Marinho e Joselena Mourão. Foi parada pra desmantelo . Cada uma tinha direito a escolher um casal para padrinhos e uma conselheira. Eu, como só tinha de besta, a cara e o caminhado, escolhi logo dona Amujacy e seu Marcos para padrinhos e Nadjinha para conselheira, pois Nadjinha era uma moça muito sensata e prudente, assim poderia me ajudar a controlar minha ansiedade e os meus impulsos. Mamãe me costurou um bonito vestido cor-de-rosa, em tecido de crepe de seda, com um bolero vermelho, enfeitado de rosas de gripi brancas. Tia Claísa trouxe de Goiânia, especialmente para este evento, uma bonita sandália branca, bordada com discretas flores nos tons rosa e vermelho, para condizer com meu vestido. Jaqueline tinha como padrinho, Dr. Alcebíades e como conselheira Luciley, o que me causava certa inquietação, pois Luciley dava nó em pingo d'água. Eu não podia perder...tinha a garganta seca, os lábios ressecados, e o coração mais parecia um zabumba. Minutos antes da apuração dos votos, dona Amujacy, como grande dama da sociedade araguacemense, não podia permitir que sua afilhada perdesse e para prevenir, falou com algumas pessoas da organização pedindo um tempo, o que não foi difícil de concordarem, pois sabiam que quanto mais dinheiro entrasse, maior seria o lucro para a  igreja. Mais que depressa, ela mandou buscar na fazenda Lajeado, um novilho, que ali mesmo foi arrematado em leilão e assim, minha vitória foi garantida.

Quanta alegria e emoção vivemos na nossa infância! A felicidade faíscava em labaredas, ser feliz era tão fácil e tão simples ...

E quando as brasas das fogueiras estavam quase em cinzas e todos os pedidos ja haviam sido feitos, com versinhos amorosos nos despedíamos  das festas juninas, dando os últimos pulinhos sobre a fogueira, cantando e recitando:

"Capelinha de melão,
é de São João
é de cravo é de rosa é de manjericão
São João está dormindo não nos  ouve não,
Acordai, acordai, acordai São João."

"Abençoados Santinhos
 Nesta Festa Junina
 Recebam os recadinhos
 Destas ditosas meninas!"

Zeila.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

OS DIAS NA CHACARA BELA


Liberato Cunha

De repente me vêm à memória os dias na chácara bela... Vejo-me sentando numa cadeira de fibra a tardezinha, embaixo de um pé de jambre, quando já começa a esfriar. O Sol vai se pondo lentamente, como quem espera que todos os bichos estejam seguros.   As jaós cantam em sintonia a anunciar que mais uma noite se aproxima; Consigo distinguir dois tipos de canto: Um com apenas um assovio longo (conhecida regionalmente com jaó preta) e outro com quatro assovios curtos (conhecida como jaó fofó). No curral ali próximo, os bezerros aos berros, parecem querer chamar a atenção, eles foram apartados de suas mães para assim garantir o leite no dia seguinte.  Estão com medo, mas logo se acalmam. Dois casais de araras voam em direção ao morro do Augustinho, a procura de um lugar seguro para passar a noite.  Os inhambus (ou lambús) ressoam seu belo canto, entoado numa escala ascendente, apressando tanto os intervalos como a duração dos assovios finais.  As galinhas começam a subir nas árvores para se aquietarem; As angolistas, ariscas como são, procuram as a mais altas. Ainda nem escureceu totalmente e a lua já começa a aparecer, majestosa, bela, enorme... É noite de lua cheia! Nesse momento um silencio paira, será que, assim como eu, todos os bichos estão a admirar aquele magnífico luar? Com as lamparinas já acesas, minha mãe está na cozinha, “o que será que está fazendo?” Penso. Mas logo o cheiro do café responde minha pergunta; Este será servido com paçoca de carne de mateiro, que o Cide acabara de pilar. Tem também bolinho de chuva, para os que não comem caça. Enquanto ainda estou comendo, começa a sinfonia dos sapos. Há uma sincronia entre eles; Noto que o som vem de dois lugares diferentes: Da represa ao lado, e do córrego ao fundo da casa, porém um grupo começa apenas quando o outro para. Fico imaginando como a natureza pode ser tão sábia. Algumas galinhas ainda andam pelo campo de futebol, a claridade da lua faz com que elas não percebam que já é noite. Aliás, eu também estou no campo, alegre por ter a oportunidade de brincar a noite como se fosse dia. Já cansado deito na grama e fico a procurar “aparelhos”, era assim que chamávamos os satélites que ficavam voando de um lado para outro cruzando aquele imenso céu estrelado.  Na porta da casa de palha, o Cide conta estórias de caçadas, pescas, assombrações e de pessoas de Araguacema. Muitas gargalhadas podem ser ouvidas bem longe de lá até altas horas. O Sadã fica sempre por perto, atento a cada ruído estranho que vem da mata, às vezes ele parece prestar atenção na nossa proza. No alto do pé de jenipapo uma coruja parece querer incrementar as estórias de assombração, e nos deixar ainda mais assustados, com seu canto horripilante, típico de filmes de terror.  Já não sabemos se a tremedeira é de frio ou de medo, melhor ir dormir. São quatro e meia da manha e já estou acordado, ajudando o Cide a “desbuiar” o milho na beira de uma fogueira para alimentar as galinhas. Na rádio nacional AM o locutor Mauricio Rabelo (ainda me lembro da vinheta: Mauricio Rabelo, que cara legal!) conta uma piada, e depois toca a música ”Chico Mineiro” de Sergio Reis.  Enquanto tiramos o leite, os periquitos começam a anunciar que mais um belo dia está nascendo, e são imitados pelos xexéus. Esses são exímios imitadores, imitam perfeitamente quase todos os pássaros.Minha mãe aguarda em casa com o café e o cuscuz já prontos, que serão servidos com carne bovina seca bem fritinha. Temos ainda queijo fresco e coalhada. Quanta fartura! Após “quebrar-jejum” ajudo a D. Rita pegar as verduras fresquinhas na horta, ao fundo da casa. No almoço teremos frango caipira com quiabo. Eba! Mal posso esperar... E assim eram os dias na chácara bela... Ainda sinto os cheiros, os sabores, ouço os sons e lá se foram 15 anos.  Não há nada como a magia das lembranças!

 Liberato N. Cunha –
Palmas 14 de Agosto de 2011.

sábado, 24 de setembro de 2011

JOVENS TARDES E NOITES QUENTES DE ARAGUACEMA

                               ZE DA CODESPAR
Nos idos de 1965 a 1969, quando o sol declinava, abrandando o forte calor de todas as tardes, a turma do vôlei ia chegando, aos poucos, para as costumeiras partidas em que se envolviam moças e rapazes de Araguacema.
As professoras Zuleide, Dalva, Jaci e a enfermeira Lúcia, exímias jogadoras, se uniam aos não menos craques Minã (Rani), Dentã (Pedro Lopes), Cocô (Olimpio), Maneco, Chico (da Jandira), eu, quando estava por lá, e outros para disputarmos animadas partidas para, depois, suados e cansados, mergulharmos nas águas gostosas do Araguaia, em meio a uma divertida algazarra.
Às vezes me pego rindo sozinho ao me lembrar de um acontecimento hilário em uma dessas partidas de vôlei. A disputa já ia começar, quando alguém propôs apostar uma garrafa de um refrigerante recém lançado no mercado e gritou: "valendo uma Fanta".
Do outro lado o Maneco respondeu, em cima da bucha: que diabo é Fanta? Ninguém conteve o riso e as gargalhadas. Nem é preciso dizer que o pobre Maneco, a partir de então, passou a ser alvo das gozações sempre que se falava em Fanta.
Era notável o clima de amizade fraterna reinante entre os jovens da cidade, cujo ponto alto era o respeito cultivado com muito zelo entre eles. A sinceridade com que aquela comunidade de jovens procurava pautar as relações de amizade gerava um convívio que me fazia escolher Araguacema, dentre outras mais movimentadas, para meu lazer.
À tardinha, quando o sol beijava o horizonte paraense e as moças, bem vestidas e perfumadas, desfilavam suas belezas na Praça das Gaivotas, diante das águas levemente encapeladas pela brisa, acontecia um espetáculo da natureza de rara beleza que ficou em mim como a mais bela lembrança de Araguacema.
O pôr-do-sol das tardes de verão lançava raios avermelhados sobre o imenso espelho d’água esverdeado, emoldurado pelo verde das matas e o branco das praias, tingindo de sangue um caminho luminoso por onde passavam os olhares extasiados, tanto do forasteiro como do ribeirinho, embora este nem se impressionasse tanto.
Os nativos do lugar já se acostumaram com essa dádiva divina para seus olhos e, de tanto ser oferecida graciosamente, todos os dias, não a valorizavam tanto quanto um habitante da metrópole, cujo céu é eternamente toldado pela fumaça das chaminés das fábricas e as águas dos rios têm a cor da fuligem dos motores depositada no asfalto e levada pelas chuvas.
Como se não bastasse tanta generosidade do Criador com esse belíssimo pôr-do-sol, a noite chegava trazendo consigo um luar escandalosamente lindo, cujo brilho intenso iluminava as areias branquíssimas da praia em frente e o velho casario da cidade ainda desprovida de energia elétrica.
A Praça Gentil Veras era apenas um largo coberto pela gramínea nativa, cortado por um caminho de pedestres que ligava o comércio do Cesário Borges ao do Elias Bosaipo, passando por uma frondosa mangueira, cujos frutos apodrecidos, depois de dias caídos, atraíam moscas e mosquitos tornando imprópria a utilização de sua sombra.
Mas a Praça das Gaivotas recém construída, ainda sem o bar de mesmo nome, além de aconchegante e panorâmica, se oferecia como mirante e ponto de encontros de namorados e violeiros, como o Rani e o Olimpio, cujos violões eram magistralmente dedilhados em lindas canções pelas madrugadas afora, entre copos de cerveja e pinga no murici.
A praia tão intensamente iluminada era um convite aos namorados para deixarem o calor insuportável da cidade e desfrutarem a brisa gostosa que perpassava contínua as areias macias. Uma daquelas canoas amarradas na beira do rio seria tomada “por empréstimo” sem que o dono soubesse e sem que soubéssemos quem era o dono.
A brisa incessante tornava o clima da praia ameno, quase frio, e sugeria aos românticos casais de namorados que cavassem valas, convenientemente distantes dos outros, em busca da areia quente, onde se deitavam abraçadinhos e cobertos pela areia escavada.
O som das músicas do Roberto, Jerry Adriano, e outros da Jovem Guarda, que vinha de LP’s tocados na radiola ou toca-discos a pilhas, encobria as juras, suspiros e arroubos vindos das alcovas improvisadas.
Essas memoráveis noitadas se compunham de dois momentos: o primeiro se dava logo na chegada à praia, quando os casais formavam uma roda para jogar conversa fora e o segundo acontecia quando a vontade de ficar a sós falava mais alto e cada casal se afastava para abrir sua valinha.
Numa dessas noites, no primeiro desses momentos, o cazalzinho Dalva e Juvenal estavam juntinhos na roda e, enquanto o papo rolava, Dalva enfiava a mão na areia e avançava em direção às coxas do Juvenal. De repente ela gritou: “achei um ninho de tracajá”! Do breve silêncio que se fez destacou-se a voz de um gaiato: “mas os ovos não são de tracajá"!
Em meio à gargalhada geral, enquanto a Dalva cabisbaixa procurava esconder o rubor de sua face, Juvenal disfarçava o mal estar com um sorriso amarelo.
Ao romper da madrugada todos embarcávamos de volta na canoa a ser devolvida, torcendo para que o dono não tivesse madrugado, como aconteceu certa vez, quando Juvenal, sempre muito correto, se dispôs a pegar uma dessas canoas e, na hora de devolve-la, já do meio do rio, começou a ouvir o justo sermão do dono furioso postado na margem à sua espera. Mas, por amor, sempre valem pequenas contravenções. Não é Juvenal?    

        
          
      

 
        

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ABRÓBA


Aldir Lyra-Zuma

- Mané, já é quase hora da janta e inda num almoçemo...
Era um casal, desses que se vê muito por aí por este sertaozão brasileiro, sem muita aptidão para o trabalho. Talvez morassem ali pelo Tartaruga ou mesmo pelas margens do Piranha perto do Borges, quiçá pelos lados da Abreulândia ou Bonfim. Nem filhos fizeram e não se sabe se por preguiça ou o que. 
- Se nóis tivesse uns bacurizim pudia inté pegá uns corró nesse prano do governo. Era só matriculá êis e ir buscar o dinhero.
De modos que viviam numa pindaíba só. Faltava de tudo, mas o que mais faltava era a coragem pra o trabalho.
- Êita, vontade  de capiná esse mato do terrêro, mas a enxada tá cega...
- Mané, o pote secou, vai na grota buscá água...
- Tamo ô num tamo no inverno, muié? Põe a lata na biqueira e espera chuvê! Diacho de muié infarenta!
-... Ai que preguiça! (já dizia Macunaíma)
E, depois de cuspir pro lado a masca de fumo, continuou o ofício de se balangar na rede. E assim a vida os levava, maltrapilhos e esfomeados, morando numa choupana de palha de babaçu das paredes ao teto. O piso era de terra batida. O madeiramento era de Imbaúba, que não tem cerne, é oca, e fácil de cortar.
- Mané, o vizim prantô uma roça de abróba, tu num qué ir lá pra ver se trais umas pra nóis fazê um dicumê? Lá é tanta abróba quêis num vão nem se apercebê.
E o Mané foi. Chegando lá ficou abismado, a roça do vizinho era uma belezura! Tinha milho, feijão, abóbora... e tudo ali ao alcance da mão.
- Pra quem gosta, trabaiá é bão demais, ói pcêvê!
E na janta comeram abóbora com fatura, sem sal mesmo, que não tinha. Pois muito que bem.  Tomaram gosto pela coisa – fartura é trem bão – e ficaram nessa roubação de abóbora por uns dias. Ia na roça, pegava abóbora, comiam, deitavam na rede, acordavam, comiam abóbora. Ele já estava mais barrigudim e ela mais roliça. Inclusive Piaba, a vira-lata, estava mais fornida. ... Até que o dono da roça começou a perceber que as melhores abóboras estavam desaparecendo.
- Que diacho de bicho tá levando minhas abóboras?
- Que bicho que nada! Olha só o tamanho desse rastro. E essa masca de fumo? Isso é rastro de vizinho. Mas deixa estar, vou carregar uma espingarda com carga de sal grosso que esse cabra vai ver.
-Mané, tu num quiria ir lá na roça pra mode buscar mais abróba, não?
E o desavisado foi. Já estava tão acostumado que até achava que a roça era dele também. Desenvolto como ele só, perambulava pela lavoura sem se preocupar com nada. Escolhe uma daqui, dispensa dali, escolhe outra melhor aculá...
PAW! Berrou a doze, cuspindo sal. Um grito e uma carreira pro rumo do rancho, com a bunda ardendo devido ao tiro do tal sal grosso,  e um bando de cachorro latindo atrás dele, num pega-pra-capar da gota!Chegou ressabiado e mal humorado...A muié já com a água quente:
-Mané, cadê as abróba?
Bruto:
- Tu prantô abroba? Eu prantei abróba? Tu tem roça de abroba?!
A esposa percebendo o aborrecimento do Mané resolveu ficar calada, mas não agüentou muito tempo:
- Mané, eu assuntei um barúi. Foi tiro?
Mais bruto:
- E o que havéra de ser, um peido?!
- Foi nim tu?
Muito mais bruto:
- E em quem havéra de ser? Quem era que tava robano abróba? Quem é que tá com a bunda sargada? ...  -Vô cortá umas vara pra fazê um cantêro!


Aldir Lyra-Zuma

Causo popular adaptado
São paulo, 22/09/2011

Querido Tom,


Fiquei mto emocionada ao ler o texto "A Docura de Nonô", chorei muito! O Zé Modesto carinhosamente retratou muito bem a menina-Nonô: "comportamento melancólico, talvez triste, de olhinhos pidões, lábios bem carnudos, que seriam sensuais se não fossem de uma criança. Parecia mesmo que ela era a patinha feia da familia." Realmente foi uma fase muito díficil, digamos uma crise existencial, pois nessa época que foi revelado a mim que o meu pai era comunista(naquela época comia criancinha, tempos da Ditadura), pois participará da Guerrilha de Xambioá, também conhecida como Guerrilha do Araguaia.
É meu amigo Tom, a tal Ditadura també m deixou alguns respingos em mim, não foi la belle époque, foi um período negro de minha vida e de tantos outros brasileiros idealistas. Depois eu conto em detalhes. Como disse Fernando Pessoa: O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas a intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.
O cisne que o Zé encontrou tanto tempo depois, hoje virou pata choca. Kakakaka!!!!
Confira a foto da patinha feia(anexo).
Obrigada pelo carinho,
Beijos!

Nonô (Ione)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

PROJETO RONDON EM ARAGUACEMA

ANTONIO CARLOS

O Projeto Rondon foi criado por iniciativa do Professor Wilson Choeri, da antiga Universidade do Estado da Guanabara, hoje UERJ e foi ele o idealizador dos princípios do movimento, denominado Projeto Rondon®.
Em 11 de julho de 1967, 30 universitários da UEG, UFF, PUC/RJ e o professor Omir Fontoura, seguiram para Rondônia, dando início ao Projeto RONDON ZERO. O nome é uma homenagem ao bandeirante do século XX, Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. Os universitários lançaram a idéia de INTEGRAR PARA NÃO ENTREGAR que se transformou no lema do Projeto e a consolidação das Operações ocorreu, nacionalmente, até 1970.
O protejo da época era mais voltado para a área de saúde, medicina e odontologia. Hoje, embora desvinculado do Governo Federal, o projeto integrado por estudantes e professores operara em ações de saúde, educação, gestão de projetos e meio ambiente.
Pois bem, Araguacema não ficou fora desses projetos na década de 60, donde foi contemplada por visitas de integrantes do Projeto Rondon. Eram caravanas de estudantes que lá compareciam, principalmente no mês de julho, época das férias universitárias.
Nas suas andanças por lá visitavam a aldeia dos Carajás que ficava na praia da Gaivota, frente da cidade, sem nenhum turista, onde verificavam o estado de saúde dos índios, mas dificilmente conseguiam inspecionar os seus dentes, mas no final, servia para várias anotações sobre a vida dos indígenas.
Numa dessas passagens do Projeto Rondon por lá, eu com uma turma de moleques da minha idade atravessamos o rio ou o braço do rio como chamamos, a nado – só uns 500 metros a gente traçava no braço mesmo. Era uma alegria só, tanta gente bonita, tudo de uniforme e bonés do projeto, aquilo era uma festa para a cidade. Nesse dia de visita à aldeia, formou-se uma grande caravana da cidade - autoridades, que acompanhavam os professores e estudantes e chegando à praia se iniciou uma apresentação formal, pelo senhor prefeito, que não me lembro quem era. Mas parece que era o Edson Maranhão Duarte o Mano.
Após as apresentações formais, o cacique passou a visitar cabana por cabana acompanhado da caravana e lá falava mais ou menos assim: esse é fulano, esse é muié seu, esse é fio seu, se referindo à esposa ou à filha, pois o índio carajá  fala tudo no masculino. E assim continuou as andanças pela aldeia que era disposta em linha quase horizontal ao rio.
Chegando a determinada cabana, que estava fechada, o cacique passou direto e não fez nenhuma referência aos moradores. Uma estudante o segurou pelo braço e fez a seguinte pergunta: por que não apresenta os moradores dessa oca seu índio, ou não tem moradores aí? Respondeu ele na ingenuidade e pureza aborígine: tem sim, casaru onti, é fio meu custumando com pico. Silêncio total da caravana!!!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

DOCES LEMBRANÇAS


PAULO HENRIQUE DE OLIVEIRA MESQUITA - PH.D

É muito difícil hoje imaginar uma vida sem algumas regalias que ora nos são indispensáveis. Até mesmo os mimos mais triviais do nosso dia a dia, se nos falta, nos causa transtornos e perturba o nosso conforto. A nossa era é tecnológica, mas houve um tempo para nós, onde experimentamos viver na era do fogo. Todas as manhãs, ao acordarmos, mais uma vez era preciso acender o fogo, mas não como o reproduzimos agora. O fogão a lenha era o veículo condutor por onde transportamos boa parte de nossas vidas. Por ele, nos conduzimos e nos alimentamos. O “gargurau” que em dificuldades granjeamos é que nos alimentou no momento mais crítico de nossas vidas sempre utilizando do nosso velho e indispensável fogão a lenha. Por sua vez o “bernaldo” sempre foi o grande aliado das nossas lamentações, nos aturdia e não arredava o pé do fogão.
Mesmo vivendo em dificuldades éramos saudáveis e felizes e não sabíamos. Os nossos dias eram inteiros e tinham exatamente vinte e quatro horas. Durante décadas experimentamos viver a vida em todas as suas nuances. Provamos dificuldades irretocáveis e também dias de muita alegria. Para nós, não havia favores. E quantos labores! Mas tudo isso nos fez descobrir o valor da vida real que naquelas circunstâncias aprendemos a viver.
Para fazer um almoço levava-se de oito a dez “lachas de lenha”, compradas logo ali na Raimunda do Doca. Enquanto com a boca se assoprava, as primeiras pontas de brasa, o fogo era “atiçado” e, se a lenha era ruim a “guariba” se formava enchendo toda a cozinha.
A grande enchente que deu início no final de 1979 e percorreu até meados de abril de 1980, trouxe consigo destruição e nos expôs a situações por nós ainda não vividas. O que parecia a visão do apocalipse transtornava a nossa vida e remexia as nossas bases de sustentação. A visão cadavérica no fim de tudo, quando as águas deram adeus aos quintais das nossas casas, apontava para o fim de uma trajetória cansativa e totalmente desanimadora. Nunca imaginaríamos, percorrendo os entulhos do nosso passado, em todas as ruas por onde as águas passaram que, em meio a tanta destruição, renascer das cinzas e daquelas águas fosse para nós algo tão excitante.Usado por Deus, o nosso sempre ditoso amigo o Rio Araguaia abandonou o seu leito natural, avançou contra a nossa história e, com ímpeto, arrojou sobre ela com as suas águas e com toda a sua fúria os seus banzeiros. E tocou o mais intimo de suas entranhas pra gerar um novo rebento. Este por sua vez, não somente veio a nos trasladar de uma realidade de limitações, há uma nova realidade de vida, como também nos ajudaria a compor uma nova história. A partir daí, tudo se fez novo.
Tendo a enchente de 1980 como marco zero dessa transformação, partimos rumo ao desconhecido, deixando as coisas que para traz ficaram e partindo para as que diante de nós estavam. Lançamos novas colunas e começamos a erguer uma nova história sobre os alicerces erguidos pelos nossos ancestrais. Daí se seguiram mudanças significativas e essencialmente necessárias. A chegada da energia elétrica. Meu Deus! Imagina ficar na rua depois das 10:15h da noite; aposentar a nossa lamparina, amiga inseparável de todas as noites; não precisávamos mais “dormir com as galinhas”, muito menos jantar antes que escurecesse. Uma luz brilhou para nós e em apenas um salto saímos da carne de sol e salgada para a era dos resfriados. Nem por isso entendemos que foi tão simples assim e por isso nos barramos na era tecnológica, pois nem todos podiam possuir a sua geladeira que até então os mais ricos e abastados a possuíam e as que existiam funcionavam a gás. Outra experiência que nos moveu o íntimo foi a chegada da água encanada. A “seneágua” como era costume chamarmos a empresa responsável pela obra redentora que nos livraria do “cambão” que durante toda a nossa vida criou calo no nosso “cangote” e dores no “mucumbu”.
Até então tudo era novidade, e quão difícil era para nós algumas coisas que hoje são antiquadas e até mesmo supérfluas se comparadas às dificuldades de obtê-las naquela situação...
·        Comer macarrão era coisa de domingão;
·        Carne demorava semanas até chegar à nossa mesa;
·        Usar “cintina” pra fazer as necessidades e na porta apenas uma cortina de pano;
·        Chuveiro nem pensar;
·        Chuveiro quente, uma utopia;
·        Escovar os dentes e tomar banho, na beira do rio era uma rotina;
·        Usar o “cambão” pra encher potes e “camburão” com água buscada no rio para atender a necessidades domésticas;
·        Pisar arroz no pilão até tirar a última “escolha” e não valia deixar o arroz só “arrupiado”;
·        Bater o “escovão” no piso de vermelhão que mais tarde evoluiu para verdão e amarelão;
·        Pegar lenha no mato;
·        Lavar os “trem” no rio;
·        Nascer, crescer e morrer e não conhecer o mar, um Shopping Center; um parque de diversões; ou sequer beber uma coca cola. Pode parecer estranho, mas é real.
A vida pacata que aprendemos a viver nos tornou essencialmente "humanos" no sentido mais profundo e real que a palavra possa nos revelar.                   Contudo, tivemos também perdas irreparáveis. O novo mundo que se nos foi apresentado nos fez deixar para traz histórias vibrantes e momentos inesquecíveis. Agora, as histórias e as imagens desse tempo, se tornaram lembranças que permeiam a nossa mente e nos transportam sem fronteiras a um passeio sem precedentes ao mundo das nossas emoções. A partir de então recorremos á memória e assim dar vida a uma vida que passou, mas que permanece viva dentro de nós. Posso isso nasceu o Magia de Lembrar Intermináveis.
Imagina viver em um lugar onde você conhece todas as pessoas, e que possa contá-las uma a uma pelo seu nome. Separá-las genealogicamente por suas filiações. Conhecer as suas profissões, saber das suas enfermidades e ainda dar a cada uma delas um apelido que possa caracterizá-la e diferenciá-la entre as demais. Conhecer as suas casas intimamente, saber quantas mulheres, homens e crianças há em cada uma delas. Participar das suas tribulações e também das suas alegrias e até mesmo discernir quando estão alegres ou tristes. Imagine você vivendo em um lugar onde a única certeza que você tem é que você não está sozinho e que sempre existe alguém com quem possa contar. Uma cidade que é pequena demais pra caber tudo aquilo que há e se faz dentro dela e exageradamente grande para abarcar a todos indistintamente. Imagine a alegria de ter como quintal da sua casa o verde das florestas, animais de várias espécies. Caça e pesca em abundância e ter por testemunha disso tudo o Rio Araguaia, correndo à nossa frente e se encarregando de levar consigo as nossas desventuras, deixando apenas a areia lavada das praias e o lodo das pedras nos pedrais.Poucas pessoas no mundo tiveram o privilégio de residir em uma cidade e conhecer e manter afinidade com todos os seus habitantes. Se entristecer e se alegrar com eles e compartilhar “cumbucas” de farinha, feijão, arroz, mandioca, tapioca, paçoca. Tudo, até pedaço de “bolo de receita” a gente dividia. E nada era mais lindo do que ver a dança das cumbucas que iam e vinham. Elas iam sempre cheias, mas nunca voltavam aos seus donos vazias. Assim éramos nós.                     Hoje o mundo "evoluiu" e nós mudamos com ele. Agora, podemos dizer que somos um pequeno pedaço de terra cercado de globalização por todos os lados. Do mesmo modo em que ela encurta caminhos, aumenta as distancias entre sonho e a sua realização para a grande maioria de nós. Lutamos tanto para abrir os caminhos que nos trouxessem até aqui e hoje nos perdemos em meio a tantas possibilidades que parecem tornar todas as nossas lutam sem sentido.
Paulo Henrique
Ph.d
Glossário
Arroz arrupiado: Arroz cheio de escolhas (arroz com casca).
Atiçado: Atear fogo; jogar lenha na fogueira; assanhar.  Ex: “Maria, atiça o fogo pra não apagar”.Bernaldo: Fome; necessidade de alimento. Ex: Mãe, hoje eu amanheci num bernaldo que como até pedra no feijão.bolo de receita: Bolo comum sem cobertura ou recheio; antiga receita de bolo, sem muitos ingredientes e feito em forma redonda.
Cambão: Aparato feito com uma vara firme com uma corda de um metro nas duas extremidades amarradas em balde ou lata para carregar água.Camburão: Tambor, muito utilizado para aparar água da biqueira em tempo de chuva.
Cangote: Pescoço; cervis; parte superior da coluna cervical. Ex: Acho que dei um jeito no meu cangote.
Cintina: Banheiro de fossa séptica; privada; casinha. Ex: Antes de haver água encanada em Araguacema o jeito era apelar para cintina.
Cumbucas: Utensílio doméstico feito de cabaça.
Escolha: Grão com casca do arroz no meio do arroz limpo.
Gargurau:  Merenda servida na hora do recreio; lanche; comida; comida rápida. Ex: Quem não se lembra ou não tem saudade do gargurau que era servido no colégio estadual na hora do recreio.
Guariba: Grande volume de fumaça produzida pelo fogão a lenha enchendo toda a casa e provocando desconforto nas vias respiratórias.
Lachas de lenha: Combustível apropriado para o fogão de lenha. Do tronco de madeira partido ao meio e ainda em pedaços menores era tirada a lacha de lenha que era vendida por peça. Ex: Paulo vai na Raimunda do Doca comprar umas lachas de lenha.
Mucumbú: Costas; cacunda; espaldas. Ex: Hoje amanheci com uma dor nos mucumbus.Trem: Louça; utensílios de utilidade da cozinha. Ex: Todos os dias depois do almoço a Gilvani vai lavar os trem no porto das mulheres.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O TRAVESSÃO


ALDIR LIRA - ZUMA

Anos 70, meados.O plano estava sendo maquinado já há algum tempo, depois de ouvirmos o Inadirzim dizendo que no travessão tinha peixe à fartura. Por algum tempo ficamos reunindo coragem para realizar a aventura. O Travessão não era o pedral, não. Ali era perigoso, diziam. Sem falar que lá a correnteza leva para o lado detrás da ilha e se caso acontecesse algum problema não se sabia que perigos havia no “lado escuro da ilha”. Eu, então com uns 10 anos de idade, nunca tinha dado a volta por aquele lado.Eu e o Rúzi (Roosevelt) surrupiamos dois remos do seu Doroteio e seguimos pela margem rumo ao porto dos homens olhando qual canoa seria a vítima, pois íamos pegá-la “emprestada” sem que o proprietário soubesse, coisa que era comum pra nós. Já passava do meio dia e a tabatinga estava ainda molhada e escorregadia, devido à chuva forte daquele dia, mas o céu estava uma belezura de azul. Azul que só se vê no céu tocantinense, que refletido nas águas do Araguaia formavam um quadro fabuloso.
Olhava uma canoa daqui, outra dali e nada se adequava às nossas necessidades. Ou era muito grande, ou as menores estavam trancadas na base do cadeado. Sujeitinhos egoístas, onde já se viu trancar canoa?Nossa busca se estendeu por algum tempo ainda e quando já estávamos no último porto das mulheres, aquele que tinha muitas árvores meio caídas para dentro do rio, nós avistamos uma canoa do tamanho certo, sob o pé de ingá. Ela estava amarrada a um pé de sarã,  apenas com corda. Demos umas olhadas sorrateiras pra os lados (daquelas que antecedem a atitudes erradas), pra ver se o dono ou alguém estava por perto. Tudo às quietas, a não ser pelo barulho das águas e das árvores. Nos achegamos a ela e ainda meio desconfiados, com ares distraídos, assim como se nada quiséssemos (só faltou assobiar olhando pra cima) desamarramos a canoa e depois mais uma olhada para os lados a empurramos rio adentro e entramos. Esse era um momento tenso, pior mesmo só a hora da devolução.
Remamos rio acima e eu quase que podia ouvir os gritos do dono da canoa nos flagrando com a boca na botija, mas nada aconteceu, pois era hora da sesta araguacemense, e como se dizia, poder-se-ia sair pelado nessa hora que não havia viv’alma pra ver (aliás, Araguacema é a única cidade que conheço que o comércio ainda fecha ao meio dia). Seguimos com remadas cadenciadas, passando pelo porto do lajedo, churrascaria, convento, prainha onde embicamos rumo ao travessão. Aí a coisa ficou séria! A correnteza teimava em querer nos levar pra o lado do pedral e tivemos que remar feito gente grande pra manter o rumo do travessão.
A briga foi boa e depois de algum tempo, já cansados, nos aproximamos do travessão. O barulho que as águas faziam era algo parecido com um trovão ininterrupto. Aí o medo chegou e eu pensei: Fiz merda! Não conseguiremos aportar nas pedras e a canoa vai virar.
Mas o Rúzi no jacumã foi perito e conseguimos enfiar a canoa numa brecha entre as pedras e aportamos numa espécie de lagoa. Passado o susto, fiquei a admirar aquela espécie de cachoeira, me achando o bonzão por estar ali, quase no Pará e no meio das pedras. Maravilhado com tanta beleza saí andando um pouco para explorar o lugar, e em seguida pusemo-nos a pescar.Era tucunaré aos cântaros, e com a emoção de fisgar tanto peixe, nem vimos a hora passar.
Quando o rio começou a ficar vermelho, como fica todo dia ao por do sol, é que percebemos que estava escurecendo. Uma coisa é ficar no travessão durante o dia e outra é ficar ali, à noite. Apressados, juntamos nossas linhas de mão e saímos o mais rápido que podíamos. Lá pela metade da distância ouvimos que o motor de luz ligou iluminando a cidade. Aí eu pensei: Me lasquei!Se tinha uma coisa sagrada em casa esta era a hora das refeições. Nosso pai fazia questão absoluta de ter todos nós reunidos naquele momento. E o jantar era servido religiosamente entre as seis e sete da noite. E o motor de luz ligava às seis o que significava que eu já estava atrasado pra o evento. Aceleramos o passo, digo, as remadas pra tentar minorar os danos. Toda minha alegria de ter pescado tanto tucunaré se esvaiu. Era certo que ganharia uns corretivos do seu Aldir. Estávamos tão preocupados com o avançado da hora que nem nos preocupamos mais com o  momento da devolução da canoa. Era como se ela fosse nossa. Triste engano!
Quando estávamos aportando no mesmo lugar onde a pegamos, eis que surge por entre uma moita, sabe quem? Pois muito que bem. Pra furtador de canoa todo castigo é pouco e lá se vem o dono da dela todo “satisfeito”, esbravejando, prometendo cascudos, contar pra nossos pais, falou que tinha precisado da canoa pra ir a um tal torrão, etc. Ficou de gritaria até ver a quantidade de peixes que tínhamos. Vendo que ele se interessara pelos peixes oferecemos alguns pra aplacar a fúria do dito, que aceitou de pronto, não sem antes nos garantir os tais cascudos, caso nos atrevêssemos a pegar a canoa dele novamente.
O “Ruzivélte”, com seu cambo de peixes, virou à direita na casa do Raimundim Queiroz e eu segui na rua dos muricis, já imaginando a sova que ia levar logo mais. A estas alturas o jantar já devia estar terminando, e pior, sem a minha presença.
Ali na casa do seu Conrado resolvi descer pela rua do campo de futebol. Era nossa estratégia quando queríamos chegar sorrateiros, passávamos pelo campo, pulávamos o muro do quintal de casa e entravamos pela cozinha. Esse era meu plano.Já estava escuro e atravessar do campo até em casa pelo mato era perigoso, pois poderia ter cobra. E eu liguei pra cobra? Tinha coisas mais urgentes com que me preocupar, e realmente preocupado segui até chegar na escada da caixa d’água que tinha no muro do quintal. Subi por ela para poder pular para dentro.
Lá em cima, prendi a ponta do cambo de peixes entre dentes pra desocupar as mãos, e como o muro era alto e não dava pra pular direto, eu precisava me pendurar na borda dele e depois saltar. Como eu disse, todo castigo pra furtador de canoa é pouco. Naquele dia tinha chovido e os tijolos ainda estavam molhados, então, ao ficar pendurado com cambo de peixes no meio dos dentes, o muro não agüentou o peso e desabou da metade pra cima. Pense num barulho! Pra quem queria chegar às escondidas nada faltava. Caí de costas com metade do muro sobre meu estômago e com peixe espalhado pra todo lado é que pensei: Dessa eu não escapo.
Eu não conseguia respirar, já que a pancada no estômago foi forte, e no meio do meu desespero por ar é que vi todo mundo chegando correndo, assustados com tamanho barulho. E meu pai junto!Já não bastava chegar atrasado para o jantar, tinha que destruir o muro também, pensei aflito, ali no meio dos escombros junto com a peixaiada. Agora sim, a surra ia ser das boas.
Ocorreu-me que alguém ia perguntar onde eu tinha pescado tanto peixe. E se eu dissesse “TRAVESSÂO” seria mais um agravante. Mas, a minha situação ali, caído e com um monte de entulho e peixe sobre mim, com os olhos e a boca arregalados na tentativa de respirar deve ter preocupado meu pai, pois me colocou de pé com um olhar meio assustado (que pensei ser irado), levantou meus braços fazendo massagem na minha barriga e costas até que consegui aspirar e em pouco tempo estava sendo apalpado por minha mãe para ver se não estava com nenhum osso quebrado.
Depois, jantando sozinho, fui fazer os cálculos dos danos e me senti satisfeito. Com tudo que aprontei, levar só um ralho e ficar com o tronco dolorido por causa da queda não foi de todo ruim. No dia seguinte almoçamos os peixes e eu, enquanto comia, fazia planos pra próxima ida ao travessão... Aldir Lyra – ZumaSão Paulo- Sp, 14/09/2011

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A DOÇURA DE NONÔ


Zé da Codespar

Sempre que eu chegava ao Hotel da Ivone me deparava com uma movimentação frenetica de hospedes incompatível com a aparência provinciana da cidade. Em geral, eram quase todos homens e, a maioria deles, falando arrogantemente alto, deixando em polvorosa as humildes garçonetes e se deleitando com os enaltecimentos de seus pedigrees feitos pela dona do hotel. Dentre os que permaneciam hospedados por dias havia sempre alguns folgados e metidos a importantes demais, que não se dignavam tomar banho no rio, no final do dia.
Como Araguacema, nos longínquos anos sessenta, ainda nem sonhava ter água encanada, todos os dias já era natural ouvir-se a voz de d. Ivone chamando seu filho:
_ Paulinho, vai buscar água.
O garoto, de apenas doze anos, pegava uma vara,de cujas extremidades pendiam duas latas de 18 litros e se dirigia para o rio. Com a vara no cangote, protegido por um pano, o jovem tímido, de comportamento introvertido, ajoelhava-se sobre as águas e se levantava com as latas cheias.
Com essa carga excessiva para sua idade, subia o íngreme barranco do rio, percorria um caminho de 400 metros até o hotel, onde a despejava em um reservatório para que os bacanas metidos a besta se banhassem.
Paulinho, hoje, talvez nem se lembre disso porque essas tarefas eram tipicas dos meninos de sua idade e não eram tidas pela sociedade da época como abuso, mas sim como fator de formação de um homem.
Mas aqueles que presenciavam o esforço do menino para proporcionar um banho sádico como esse, sabiam que em sua região isso não seria aceitável e, mesmo assim, não se constrangiam de suas atitudes.
Mudando um pouco do assunto acima e me atendo ao título deste texto, devo dizer que, quando me hospedava no hotel da Ivone por um período maior que um dia, sempre me prendia a atenção uma garotinha de uns 8 ou 10 anos, pelo seu comportamento melancólico, talvez triste, de olhinhos pidões, lábios bem carnudos, que seriam sensuais se não fossem de uma criança. Parecia mesmo que ela era a patinha feia da família.
O tempo passava, ela ia crescendo, tomando forma de mocinha, mas sua aparência melancólica e seu jeito tímido de ser não se modificavam. Delineava-se nela o padrão típico das moças do sertão destinadas a se casarem com rudes roceiros e geradoras de grandes proles.
Anos depois de eu ter saído da região, retornei a Araguacema e me encontrei com uma mulher muito bonita, viçosa, desembaraçada e de conversa cativante.
Como Ivone notou que eu não estava reconhecendo aquela linda mulher, ela, quase me repreendendo, disse:
_ Não é possível que você não conhece mais a Nonô!
Não me lembrava mais nem que aquela menina, cujo apelido era Nonô, filha da Ivone, se chamava Ione.