Zé Modesto
Julho de 1966. Araguacema se preparava para celebrar mais um aniversário. No início do mês eu recebi um ofício dos diretores de futebol Aldir e Maneco, em papel timbrado da Prefeitura, convidando a Codespar para uma partida contra o time de Araguacema no dia 28.
O sargento Modesto, que havia passado uma semana comigo para conhecer a empresa, voltou impressionado com o time de machadeiros, no qual teve oportunidade de jogar, estando lá, e transmitiu isso aos dirigentes da cidade.
Convite aceito, com muita honra, minha tarefa agora era preparar o time para o jogo e para a longa viagem de barco dos jogadores que não se continham de tanta alegria. Alguns deles, com seus apelidos exóticos, como Mata-Onça, Cochilão e Zanôio não se destacavam pela habilidade, mas pela velocidade com que conduziam a bola em direção ao gol.
O barco aportou na cidade, na véspera da festa, ao cair da tarde, e já estava lá na beira do rio toda a diretoria comandada pelo anfitrião Aldir que era de uma atenção insuperável na ânsia de oferecer o melhor, em refeições e alojamento, àqueles rudes jovens.
Dura tarefa para mim foi mantê-los em regime de concentração, até a hora do jogo, e para isso determinei a eles que não saíssem à noite, nem ingerissem bebidas alcoólicas, sob pena de não jogarem. O desejo de se mostrarem para aquela cidade desconhecida deles era muito maior do que qualquer outro prazer de momento.
Eu conhecia o alto nível dos atletas de Araguacema, com os quais havia jogado algumas vezes, mas eles só conheciam a mim, como jogador. Era natural, então, que houvesse um excesso de confiança deles, em relação ao nosso time e, por isso, eu ouvia, por onde eu passava, de jogadores e torcedores, sempre a mesma provocação: “vai ser uma lavada, hein Zé”!
Chegou a hora do jogo e as quatro linhas do campo estavam completamente tomadas pela população em geral. As traves eram de madeira bruta retirada da floresta e não dispunham de redes. O capim nativo já bem pisoteado fazia um precário papel de gramado.
Do lado de Araguacema havia um jogador, o Zé da Jandira, que inspirava cuidado redobrado porque era um craque habilidoso e decisivo. Neste aspecto o meu time levava a vantagem de ter quatro jogadores de padrão excelente, dos quais apenas a mim eles conheciam.
Intervalo de jogo e a Codespar já vencia por 2x0, com gols de Ribamar e Paulistinha. O time da casa, então, resolveu se reforçar com dois turistas de Belém, apesar de meus protestos, pois não eram filhos da cidade.
No segundo tempo a partida teve uma reviravolta com dois gols de Araguacema, provocando um empate que levou a torcida, já ensandecida, a empurrar seu time com gritos de “vai fulano, vai sicrano”, das mulheres, e de “quebra esse magrelo”, referindo-se a mim, de meus amigos Eduardo Coxeba e Raimundo Chofer.
Mas nada conseguia deter os constantes ataques dos machadeiros que eram parados com seguidas faltas e uma delas aconteceu no bico da grande área. Ajeitei a bola com carinho, enquanto se formava a barreira, tomei distância e meti uma rosca tão eficiente que a pelota fez uma curva rente à barreira e entrou no ângulo superior esquerdo.
Daí em diante os da casa se descontrolaram e se desentendiam entre si, até que o Chico da Jandira foi expulso pelo juiz da partida, o Berilo, por seguidas reclamações. A torcida já havia se calado de vez, quando o gaúcho Paulo Muller, da Codespar, acertou um tirambaço da intermediária, vencendo o goleiro da casa e atingindo os torcedores atrás do gol, por falta de rede nas traves, selando assim o placar de 4x2 a nosso favor.
À noite os heróis do jogo estavam atônitos com tamanha glória para eles e deslumbrados com a imensa mesa farta de comidas e bebidas, organizada pela dedicação hospitaleira do Aldir.
Constava da festa a eleição da rainha da cidade que tinha como candidatas a Joaninha, garçonete do Hotel Araguacema, e uma das belas filhas do Raimundo (Mucuim) Queiroz, a Irene, cuja irmã Marlene, tempos depois, ainda muito jovem e bonita, cometeu suicídio.
A Joaninha, que era baixinha, rosto pontilhado de espinhas e sem beleza corporal, não tinha a menor chance de vitória, diante da incontestável beleza da concorrente.
De um lado a Ivone se desdobrava na campanha em prol de sua candidata, pedindo votos aos hóspedes de seu hotel, chegando mesmo a me obrigar a assumir financeiramente a causa. Do outro lado a concorrente, muito bonita e segura de si, esbanjava confiança na vitória e contava ainda com o apoio explícito do prefeito Maninho.
A urna foi aberta e, à medida que a contagem dos votos revelava que a Irene estava à frente, a Ivone corria a mim e me intimava a comprar tantos votos quantos fossem necessários para que a Joaninha ultrapasse a concorrente. E assim seguiu a apuração, até que o Maninho jogou a toalha, permitindo, assim, que a Joaninha se elegesse rainha.
O que me levou a cometer essa afronta à beleza de uma mulher linda como a Irene foram dois motivos: a grande consideração que eu tinha pela Ivone e vingar-me daquela que nunca dirigiu um olhar que me desse alguma esperança. Hoje reconheço que ela tinha razão. Eu era muito feio mesmo.
A festa prosseguiu com o leilão de atraentes prendas, ricamente enfeitadas, como frango e leitoa assados. O leiloeiro era muito criativo na descrição das prendas e hábil em provocar o ego dos que tinham dinheiro, levando-os a se sentirem mais importantes do que eram.
Quem dava um lance era compelido pelo leiloeiro a não permitir que o outro arrematasse a prenda e, nessa disputa de egos diminuídos, uma prenda de pouco valor era arrematada por um preço astronômico. A Paróquia agradecia.
O arrematante tinha seu momento mais prazeroso, nessa disputa de egos, quando o leiloeiro , depois de demoradas ameaças para bater o martelo, gritava: “... e dou-lhe três. Pode entregar a prenda ao fulano”. Ele, então, com ar amistosamente provocativo, mandava que a prenda fosse entregue na mesa do vencido. Para mim isso era um jeito novo de brincar e ajudar.
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