terça-feira, 4 de outubro de 2011

MINGAU DE ARARUTA


Juarilson Azevedo
  
Sentada em frente a casa que morava, Josefa alimentava seu filho. Depois de colocar o mingau no prato esmaltado, ela pegou um tamborete de couro, e sentou debaixo do jambeiro. Habitualmente usava a sombra daquela bela árvore para passar as horas, cochichando com a vizinha, a fofoca do momento. Araguacema é uma cidade bem pequena, e como em todas as outras, as notícias se espalham rápido, de boca a boca.
   Josefa era uma simples dona-de-casa, que, grávida de 04 meses, tinha vindo com o marido trabalhar em uma fazenda no estado do Pará. Aliciado pelo “gato”, seu marido Miguel, havia acreditado em promessas não cumpridas pelo patrão, e quando deu por si, já havia se tornado um escravo, não recebendo por aquilo que fazia, então, desgostoso, conseguiu fugir e veio parar em Araguacema, na intenção de conseguir dinheiro e voltar para sua cidade natal, Carolina, no Maranhão.
   Mas, só tinham as roupas do corpo, já que os poucos apetrechos que tinham tiveram que ser deixados pra trás. Em Araguacema, não tinham trabalho, não tinham onde morar, não tinham o que comer... estavam mais perdidos que filho de puta no dia dos pais.
    Um benfeitor, condoído com a situação difícil daquele casal, emprestou a casa de pau-a-pique, coberta com palmeiras de buriti, na Rua dos Muricis. Miguel passou a fazer pequenos bicos, como capinar quintais, roçar pastos, consertar cercas, pra arrumar algum dinheiro, já que não conseguia emprego em Araguacema. Mas até os pequenos bicos estavam cada vez mais difíceis, e ele então, se voltou pro Araguaia, recorrendo à pesca, pra conseguir a mistura pra farinha de puba, e quando tinha, para o arroz. No início não conseguia muito, pois no rio Tocantins de sua infância, a pesca tinha aspectos diferentes do Araguaia, mas logo pegou o jeito e rapidamente ele começou a percorrer as ruas da cidade, com as infieiras de pacus, piaus, corrós e outros mais, gritando:
-óóó u peeixe...
Tornou-se concorrente do Evandro, de “seo” Inácio, do Inadizinho e de outros tradicionais pescadores locais.
Logo desenvolveu uma artimanha: separava os mais graúdos, e ficava gritando sua propaganda sem se afastar muito da casa do cliente, ia e voltava na mesma rua, até vencer o escolhido pelo cansaço. Sua clientela era grande, tinha o Abílio do cartório, d. Ivone, o Laranjeira da farmácia, o Onildo Cunha, o Elias Bosaipo, o Aldir Lyra, o Sandoval Simas, o Antenor Barreiras, o Juarez Dentista, o Pedro Mota, entre outros. Com esta clientela tão ilustre, conseguiu até sua própria canôa, que mandou fazer de um grosso landi, retirado nas matas do Pará. E Miguel ainda separava as patacas, ladinas, caris, e outros peixes menos nobres, pra comer com sua Josefa.
   Mas, infelizmente depois de algum tempo, a pesca não estava bôa. Os cardumes estavam sumindo, já dando sinais de que a natureza não estava conseguindo se recuperar da ação predadora do homem. Além disso, Miguel começou a beber e muitas vezes, ia pescar mas adormecia dentro da canôa, embriagado. Em consequência, o alimento começou a faltar em casa, pois ele começou a sentir se fracassado e o pouco que conseguia, começou a gastar com cachaça. A última infieira que vendeu, pro Marcos da Amujaci, só deu pra uma garrafa de Tatuzinho, que comprou na venda da Madalena.
   Logo Josefa percebeu que não podia contar mais com o marido, e se pôs a trabalhar fora. Virou lavadeira de roupas na casa dos mais abastados. E foi se virando, aplicando no dia a dia, as artimanhas que o nordestino tem, pra sobreviver no semiárido. A lenha pra cozinhar coletava no cerrado ali perto. Do pé de abóbora, nascido sozinho no munturo, colhia os brotos e fazia a cambuquira. Depois, a abóbora cozida virava lanche, misturada ao leite. As folhas da vinagreira, nascida no pé da parede, era consumida como salada do almoço. O pequi colhido lá pras bandas do morro do Agustinho, era a carne da janta, que dava a sustância necessária ao vigor.
   Na casa de d. Anália, Josefa aprendeu a fazer tapetes de retalhos. Logo se dedicou a confeccionar esses tapetes, pois a venda deles lhe dava um dinheirinho a mais. Conseguia doações de retalhos com d. Belinha, na Confecções Simas, e com Emília Bosaipo, na Casa Oriente. E passava os finais de semana inteiros, alinhavando os retalhos coloridos, alternando cores, para que o tapete ficasse o mais bonito possível. 
   Já era final da década de 70, e ela não podia contar mais com Miguel, que havia se entregue ao vício do álcool, e ido embora de casa, deixando a sozinha com o filho.
   Naquele dia quente de agosto, debaixo do jambeiro, Josefa alimentava o pequeno Raimundo Nonato, com mingau de araruta. Com movimentos circulares, pegava pequenas quantidades com o dedo indicador e colocava diretamente na boca do menino, agora já com quase 03 anos.
   Muito fácil de fazer, o mingau de araruta, era muito consumido na Araguacema da minha infância. Barato e nutritivo, era dissolvido uma porção daquele pó branco com leite, depois levado ao fogo. Só não pode deixar de mexer, pra não embolorar. Alguns adicionam um pouco de açúcar, outros, canela.  Depois é só esfriar.  Josefa não tinha dinheiro pra Neston, pra Farinha Láctea ou outros alimentos industrializados, então, a boa e velha araruta, ajudava a criar o filho.
   Dia desses, conversando aleatoriamente com amigos, um soltou a pérola:
-toda araruta tem seu dia de mingau.
   Lembrei-me na hora do mingau de araruta, e o quanto era utilizado. Porque a gente vai hoje ao supermercado e não encontra facilmente o polvilho de araruta, apenas o polvilho de mandioca?
   Lembrei- me logo, de como fui criado, das coisas simples de minha terra, que hoje quase não se usa mais. E me perguntei o porque. O azar da Maranta Arundinacea, a araruta, é o  capitalismo selvagem. O motivo maior é a baixa rentabilidade na produção, pois de cada 100 kgs de araruta, consegue se extrair apenas 20 kgs de fécula. Com a rejeição da indústria alimentícia, os agricultores ficaram desestimulados a planta-la, e a lavouras sumiram. Com isso, o setor de pesquisas também desistiu, inviabilizando o surgimento de novos maquinários que facilitem a produção, pois atualmente o processo é lento já que as raízes devem ser lavadas, raspadas, lavadas novamente, moídas e separadas do bagaço. Depois, o processo continua com a secagem até o produto final, a fécula, que é um pó branco.   Em um texto da Seagri baiana, intitulado Poderosa e Vitaminada, onde colhi informações, o pediatra Antonio Sturaro, de Salvador, declara que a prescreve pra quem tem problemas digestivos. Hoje sabe-se também que ela é indicada pra quem tem restrições alimentares ao glúten. Pois é, além de tudo, ainda é medicinal.    Ah, em tempo, Josefa conseguiu criar seu filho Raimundo Nonato, educou-o através do Colégio Municipal Frei André Quinn, casou se novamente, teve mais filhos e viveu até a velhice na querida Araguacema, onde veio a falecer. De Miguel não se teve mais notícias.   Certas estavam nossas mães. Viva o mingau de araruta.

Juarilson Azevedo

Um comentário:

  1. Ola juarilson eu gostaria de saber mais informação sobre o sr. Elias e Emilia Bosaipo. Sou Neta de Elias Bosaipo.
    Rejane Bosaipo

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