segunda-feira, 7 de novembro de 2011

RUA FREI FRANCISCO

Esta Vai pra caçar intica com os meninos la da rua dos Muricis e da Thomás Vieira...

Zeila Oliveira
Colaboração especial em nomes, fatos e datas:
José Alano - Careca
Roosevelt Barreira

Rua Frei Francisco, rua de minha outrora e longínqua infância. Não foi la que nasci, mas foi lá que vivi parte da minha infância e juventude. Foi Lá que brinquei de pira, cobra-cega, caí-no-poço, queimada, até  quando o motor de luz nos dava sinal que era hora de ir pra casa e mal tínhamos tempo de apanhar nossas sandálias havaianas e sair correndo. Foi la que tomei banho de chuva,  que brinquei de casinha no fundo do quintal, que subi em árvores, foi lá que me apaixonei pela primeira vez, foi numa de suas esquinas que dei o meu primeiro beijo , foi lá que ganhei as mais belas e românticas serenatas de amor, foi lá que brincando descalça na rua de chão empoeirada, me vinham na cabeça  sonhos de um dia morar na europa, foi la que vivi os momentos mais felizes da minha vida, com papai, mamãe e meus seis irmãos. Ela se chama Rua Frei Francisco, em homenagem ao missionário italiano Frei Francisco de Monte são Vítor, que la viveu,  mas se eu tivesse que escolher um nome para ela, seria "Rua da Minha Saudade".

Debaixo das frondosas mangueiras dos quintais de nossas casas, fomos malabaristas, trapezistas, bailarinas, artistas de circo, com bilhetes comprados com papel de balas Nilva, e platéia assistindo sentados em tamboretes de madeira ou mesmo assentados no chão. Enquanto eu, minhas irmãs e amigas, nervosas por detrás das cortinas de chita que pegávamos emprestadas de nossas mães, nos preparávamos para o espetáculo,  alguém servia k-suco de groselha,  pipocas e puxas para entreter a platéia.

A Rua Frei Francisco, bem como todas as outras ruas, tinha pouca iluminação. Mas as noites eram prazerosas e divertidas. Nas noites de lua cheia, as crianças se divertiam com as brincadeiras de roda, amarelinha, salve latinha ou corriam atrás de vagalumes e era uma delícia. Nâo tínhamos televisão, vídeo gaime, Nintendo, ipod, mp3, mas éramos todos felizes.

Os adultos se metiam às portas de suas casas sentados nas velhas cadeiras preguiçosas e ficavam até tarde a contar histórias, que eu dizia: quando eu crescer vou escrever, pra nunca esquecer! Algumas até que nos enchiam de medo, como "alma penada", "homem da capa preta", "lobisomen", "aparelho chupa sangue", "disco voador"...

Em outras noites, éramos contemplados com alegres visitas em casa, sem sermos anunciados,  mas a gente não reparava isso, porque também fazíamos o mesmo,  e era aquela alegria, todos sentados, atentos ao compadre, comadre, filhos... e a certeza do café quentinho, acompanhado de bolinhos de chuva aumentava a nossa atenção.

A Rua da minha saudade é a penúltima rua da cidade no sentido oeste, sendo hoje a maior rua de Araguacema em extensão, embora ja tenha sido a menor em tempos remotos... seu crescimento ocorreu-se devido a grande enchente de 1980, que obrigou muitos de seus moradores a se mudarem para parte alta da cidade. O progresso veio mais tarde, em 1991, no governo Moisés Avelino, ganhando asfalto em toda sua extensão.

Teve como fundador e primeiro morador, seu Raimundo Pereira dos Santos, conhecido como seu Raimundo Gordo. Ele a desmatou com auxílio de foices, machado e enxadas e fez a abertura da rua, onde construiu sua residência no local que hoje reside Juracy "Saltachão". Seu Raimundo Gordo, trabalhou na reforma da igrejinha em ruínas, nos anos 30. Casado com Ana Pereira dos Santos, popular (dona Ciana), pai de Carmosina, Mundica, Maria das Graças, Tim Maia e Iranildes (Pibeca). Seu Raimundo Gordo faleceu em 1978 deixando como legado para seus filhos e netos o seu exemplo de honestidade, responsabilidade e coragem.

É a única rua de Araguacema que possui dois monumentos históricos. As ruínas da Igrejinha  e o muro de pedras. A igrejinha hoje em ruínas, foi a primeira igreja a ser construída em Araguacema, sob a orientação de Frei Francisco, no século XIX, por volta do ano de 1861, com o nome de "Igreja Nossa Senhora da Divina Providência", em homenagem a santa padroeira da cidade.

Rua do pecado, dos prazeres e dos amores...sim, dos amores escondidos, dos prazeres proibidos, dos desejos libidos... A famosa "Rua do Bom que Dói", era assim chamada por abrigar nela o cabaré Acajá e suas meretrizes. Mulheres belas, jovens, esbeltas, vestidas em minissaias, batom vermelho encarnado nos lábios, unhas grandes com esmalte rubí, tamancos de salto alto anabela, cabelos acajú ou louros oxigenados, sinal de beleza perto dos lábios, na maioria das vezes, desenhado com lápis de passar nos olhos e cigarro na boca, para completar o charme.
Eram desprezadas e ultrajadas, pelas senhoras "respeitáveis" que abominavam aquele estabelecimento, pavorosas que seus maridos se deixassem sucumbir à sedução e aos encantos de uma  "mulher da vida", "mulher da zona" ou "raparigas", como eram tratadas.

Rua do Luís Vandevô. A princípio conhecido como Luís do Cabaré, pois este também era proprietário de um "fôia" palavra utilizada para os cabarés naquela época. Algum cliente importante, em visita a tal recinto, sugeriu-o, que  passasse a se chamar Luís "Vandevus", porque era mais chique. Tempos depois uma má língua lhe disse, que "vandevus" significava cabaré em outro idioma.  Quando este veio a descobrir o significado da tal palavra, tomava por inimigo aquele que assim o chamasse. Mas não teve jeito, a onda pegou e todos o chamavam de Luís Vandevô.
Hoje como estudante da língua francesa, penso que eles queriam dizer "vendez-vous" que empregado neste contexto seria, vende-se o corpo, ou vendei-vos.
Luis Vandevô iniciou sua carreira de comerciante com um buteco, onde vendia cigarro Continental, Hollywood, Minister e Arizona e cachaças como Tatuzinho, Caninha da Roça, Velho Barreiro, Pirassununga 51 e cervejas Brahma e Antarctica resfriadas na areia. E só quando passou a vender gêneros alimentícios é que ganhou o pretígio da sociedade e passou a ser chamado de Luís de França. Pintando mais tarde em letras bem grandes na parede de seu estabelecimento "CASA BOA SORTE DE LUÍS ALVES DE FRANÇA". 
Luís de França tornou-se um homem próspero e muito honrado, proprietário de muitas casas de aluguel. Após a enchente,  mudou-se com a família para a Avenida Presidente Vargas, onde ampliou ainda mais o seu comércio.  Anos depois, preocupado com a educação dos filhos, mudou-se para Goiânia onde viveu seus últimos dias. Casado com dona Domingas, pai de Edileuza (Tilica) Euclides (Kid) Edvan (in memoriam), Edneuza, Emival, Helena e Hélio (in memoriam).   

Rua de dona Raimunda Pereira dos Santos (dona Mundica) que também foi uma das primeiras moradoras.

Rua de dona Graça e seu Herculano. Dona Graça é irmã de dona Mundica e filha de seu Raimundo Gordo. Conhecida como a boleira mais famosa de Araguacema. Procurada por todos os turistas pelos seus deliciosos bolos de arroz, de mandioca, roscas e etc.

Rua de dona Feliciana, proprietária do mais famoso Bar daquela época. Freqüentado pelas meretrizes e peões de fazendas. Era de lá que dona Feliciana tirava o sustento da família. Mulher valente, corajosa, de timbre de voz forte. Mãe de Nadir e Maraísa, duas belas moças, de seu tempo. Avó de Márcio, Jânio, Marilângela (Langinha), Margarete, Elisângela , Marlon, Marlos (Negão)  e  Karine.  

Rua de dona Antonia, mãe  de Erlinda e Evelina Noleto, as mocinhas que arrancavam suspiros da rapaziada. 

 Rua de dona Zefa Cantadeira, avó de Tânia e do nosso querido Luizinho.

 Rua que abrigou no seu coração, Francisca Clara Lima, conhecida como Chica Preta,  nascida em 6 de janeiro de 1906, foi uma das pioneiras na rua Frei Francisco. Chica Preta era boleira e trabalhou na função de doméstica por muitos anos na residência do Sr. João Gago (que era comerciante e esposo de dona Neném).
Quando trabalhava para o sr. João Gago, passou por uma grande decepção em sua vida, um certo dia desapareceu um dinheiro na residência de João Gago e logo suspeitaram dela. Para se ter certeza o Sr. João Gago mandou chamar um curandeiro para "Responsar" que seria o ato de provocar a devolução do objeto roubado. E o curandeiro com o nome de Melquíades apontou Chica Preta como responsável pelo roubo.
Chica Preta, mesmo afirmando que era inocente, não teve jeito, foi parar no xilindró. Já atrás das grades, mandou chamar uma grande amiga, alguém de muita influencia na cidade, Dona Amujacy Coelho, e disse para ela que não havia roubado o tal dinheiro, Dona Amujacy conhecendo o caráter de Chica Preta, imediatamente mandou soltá-la.
Chica Preta era benzedora de arca caída, amarelão, dor de dente, quebranto, vento virado, pessoas ofendidas de cobra, engasgada e outros tipos de doença. E assim rezava com fé " Cum a fé no coração, e treis de gaio de pinhão, treis veiz rezano incruzado, panariço e sete côro, firida braba e friêra, murdidura de bisôro, má de izipira e cocêra e tudo inquanto é firida, dô de ispinhela caída, garganta inchada e papêra, cumigo num tem gogó, essa história de agunia, quebranto, oiado, três-só, injôo e manicunia, sarna, bixiga e sarampo, ligêro como relampo, cura da noite pru dia."
Sempre fiel à Igreja Católica, fez amizade com todos os padres que passaram pela paróquia, na sua época.  Devota de Santo Reis, comemorava todo dia 6 de janeiro, com fogos, folia de reis e ofertava bolos para toda a vizinhança.
Chica Preta foi uma pessoa de vulto significante na história cultural e social de Araguacema. Faleceu em 24 de Março de 1997 aos 91 anos de idade.

Rua de dona Maria Sofia da Silva, conhecida como Dona Passarinha, mãe de Dona Maria Auxiliadora, vó do Nonato, Onerzã, Ernane, Silas, Sandra e Suzi.  Companheira de pesca da menina Leida, juntas pescaram muitos mandis, lambaris, patacas, piaus e compartilharam muitos segredos antes não ditos por dona Passarinha e jamais revelados pela menina que soube guardar consigo os segredos de uma verdadeira amizade, apesar da grande diferença de idade. Dona Passarinha tinha a voz trêmula em consequência de uma enfermidade na garganta, que anos depois a levou a morte.

Rua de Lucas Alves de Amorin, o saudoso LUQUINHA. Luquinha foi uma figura muito divertida que morou na Rua Frei Francisco durante muitos anos. Trabalhava de diarista limpando ruas, quintais e por muito tempo zelou do pátio da torre de Televisão para Prefeitura.
De origem desconhecida, Luquinha era solteiro, nunca se casou e não se tem registro de nenhum filho dele, tinha uma aparência física bizarra,  o rosto cheio de glândulas que formavam pequenos lombinhos, que eu chamava de verrugas,  de estatura muito baixa, sua semelhança era de um quase anão, talvez por isso ele se tornou uma atração na cidade, muito engraçado, brincalhão e carismático.
Luquinha faleceu na década de 90 vítima de cirrose, devido o excesso de álcool que ele consumia. Sua partida inesperada e precoce deixou saudades na cidade e principalmente na Rua Frei Francisco.

Rua do Sr. Manoel, popular MANÉ GATO ele era o máximo, sempre andava com um saco nas costa, tanto de dia, quanto de noite, era raro alguém ver ele sem esse saco, vivia pelos lixos da cidade a colecionar latas vazias de embalagem de óleo de soja, na época o óleo de cozinha era vendido em lata. As pessoas na rua, curiosas perguntavam o que ele iria fazer com tantas embalagens vazias e ele explicava que ia construir uma casa. E as pessoas indagavam mais, queriam saber se para tal, ele abriria as embalagens, ele explicava que não, que faria a casa com a embalagem inteira, montando um lata sobre a outra. Seu Mané Gato conseguiu juntar uma quantidade enorme de latas em seu quintal, mas ele morreu antes de realizar seu sonho.
Ele morava na Rua Frei Francisco no local que hoje é a residência da Sra. Lindalva Patureba. Seu Mané Gato só andava a pé, devido um grande susto que passou quando viajando de carona na carroceria de  uma caçamba para a cidade de Colméia, em busca de sua aposentadoria, numa freada brusca foi lançado de um lado para outro da carroceria, fazendo com que ele nunca mais andasse de carro, ele preferia buscar sua aposentadoria a pé.

E quem não se lembra das belas morenas de cabelos encaracolados e sorriso cativante, Zélia, Zelina e  Zelite? Pois bem, elas moravam alí na casinha verde que mais tarde serviu de cabana do amor, para Viturino e Judite quando se casaram. Filhas de seu Tomás de Aquino e dona Jardilina Pereira da Silva (dona Jarda). Irmãs de Rodolfo, Claudionor e Américo.
Américo aos 12 anos de idade, resolveu antes do almoço, tomar um banho nos lajeiros, acima do porto das mulheres, ficando seu corpo preso entre os lajeiros. Minutos depois, os colegas sentindo falta de sua presença, mergulharam imediatamente a sua procura. Américo ainda foi encontrado com vida, mesmo assim veio a óbito para grande tristeza de sua família.
Rodolfo casou-se com Maria José, filha de seu Marquinhos (Marcos Dias de Almeida) e dona Nêga (Filismina Rodrigues da Silva) pais de Wellington, Elaine e Oziel.
Dona Maria José foi uma das melhores costureiras de Araguacema na sua época, ela faleceu de parto, ao dar a luz do seu filho Oziel, sendo ela ainda muito jovem.
Wellington foi criado pelos avós, dona Nêga e seu Marquinhos, que moravam em frente a minha casa e era muito divertido ouvi-la chamá-lo: - Welto mininu, nu pim do mei dia, tu virou relampo?!!!

Rua de Dona Ana Vieira da Costa, mãe do Saltachão. Dois verdadeiros relicários da Rua Frei Francisco.

Rua de seu Adãozinho Pescador. Pai de Zequinha, Euzamar, Juvenal (Juca) Edna, Ivonete, Edite, Eunice, Elizene e Rúbia, esposo de dona Carmosina, até que a morte os separou.
Seu Adãozinho, passou a vida entre redes, linhas, anzóis, remos, canoas... entende a cor, o cheiro e o barulho das águas. A pesca era o seu ganha-pão.

Rua do menino, de sorriso tímido e olhar cativante, que veio lá de Araçatuba-SP, no ano de 1977. Se enamorou pela Frei Francisco, e só a deixou quando se encantou pela doce Rogéria. Estamos falando de Maurício, filho de dona Deise e neto de dona Matilde. Dona Matilde faleceu em 2006, aos 98 anos de idade, sendo considerada a pessoa mais idosa que alí viveu.
 Rua de dona Biluca, mãe de Nenzica e avó de Gilvaní. Sempre viveram alí. 

Rua de seu Majó e Dona Minelvina, pais de uma bela prole: Oscar, Oneide, Osmair, Ocimar, Ocineide... mudaram-se para Brasília, no ano de  1978, deixando um imenso silêncio na Rua Frei Francisco, que só foi preenchido com a chegada de João Oliveira e sua renca barulhenta (Leila, Leida, Zeila, Murilo, Tito, José Alano (Careca) e Jânio), quando comprou a casa que pertencia ao senhor Majó.

Rua de dona Suzana, Tio Bilô, professora Eurídice e Suzete... 

Rua do nosso querido professor Carlos Bronze, professor de Educação Física, que tinha como paixão  ser piloto de avião, abandonando assim sua carreira de professor para realizar seu grande sonho. Fatalmente o destino interrompeu sua trajetória, privando-nos da sua alegria e vontade de viver. Ele passou pela vida como um cometa, mas deixou muitas saudades para família, amigos e ex-alunos.

Rua de seu Geraldo Barcelar, homem humilde, trabalhador, prazenteiro e muito prestativo. Casado com Dona Conceição. Desta união nasceram: Werbena, Dejangru, Arapuanan, Cipriano e Aparecida.
Werbena faleceu aos 6 anos de idade, vitima de uma febre repentina, durante a enchente de 1980.

Rua de dona Geralda Barcelar, mãe de seu Geraldo, uma senhora muito tranquila que passava as tardes sentada à porta de sua casa a tecer tapetes de tiras. Vizinha de dona Anísia, mãe de sua nora Conceição. Esta por sua vez, era lamurienta, estava sempre a resmungar, vivia sozinha e era surda.
Rua de Dona Belcina, mãe de Lourival, hoje casado com Noêmia, que residem no mesmo endereço onde residia dona Belcina. Noêmia é paraplégica e anda de cadeiras de roda. Está sempre sentada a porta de sua casa, a pitar e pedir 1,00(1 real) pelo amor de Deus, a todos que por alí passam.
Dona Belcina sofria de uma ferida no pé, tinha poucos recursos e não recebia nenhuma assistência social. Quando aflita de dor, retirava querosene de suas lamparinas e passava na ferida. Seu pé, enormemente inchado, envolto em tiras de pano sujo, faziam-me lembrar  do Jeca Tatu, personagem das histórias em quadrinho, de Monteiro Lobato. Era a imagem viva do sofrimento, animada por um sopro de esperança: -  A de um dia ser curada. Lembro a última vez que a vi... guardo na minha lembrança remota, a ternura desse adeus.

Rua de Raimunda Ferreira da Silva, popular Dona Santa, a nossa "Madre Tereza de Calcutá". Mulher extremamente sensível, de indubitável bondade e de inteira doação aos outros. Cuidou de Rita (doida), até quando a saúde lhe acompanhou. Adotou como filha, Patrícia, filha de Rita. Estava sempre disposta a ajudar a todos que dela precisassem. Devota de São Lázaro, o santo padroeiro dos leprosos e dos cães de Rua.
Dona Santa  festejava o dia 11 de Fevereiro com um grande almoço para toda a comunidade, mas os seus convidados de honra eram todos os vira-latas da Rua que ansiosos aguardavam esse dia para  saciarem sua fome. Rua de João Araújo dos Santos, popular Bagiga.
Tinha uma de suas pernas amputadas,  e usava muletas, devido uma enfermidade que contraiu, quando trabalhava na caça e pesca. Era um homem humilde e sofredor, porém sempre sorridente e bondoso. Bagiga faleceu em 2004, aos 77 anos de idade.

Há umas boas centenas de dias, a rua Frei Francisco foi abrilhantada com a chegada de mais um ilustre morador, seu Luiz teodoro Coelho,( seu Sindô). Seu Sindô é  hoje o morador mais idoso da rua, sendo muito admirado e respeitado por todos.

 Rua do Zé Mulher!!!! Figura ímpar! Singular!!!! Zé Mulher tinha as pernas atrofiadas e a cabeça atrapalhada. Sofria de desejos sexuais reprimidos e de vez em quando resolvia exprimi-los, fazendo convites obscenos  para as pobres meninas ingênuas que por alí passavam, com suas trouxas de roupa na cabeça, em direção ao Porto das Mulheres.
Quando nervoso, da sua boca sortia um turbilhão de palavrões, seguidos logo após do arrependimento, então exclamava: Ôh divinu spritu santo!!! Rua onde nasceram e cresceram astros e estrelas como: John Lennon (filho da Valdina),  Wanusa, Wanderley Cardoso, Fagner e Rosana (filhos do Pibeca) e sua sobrinha Wanderléia.

 Rua de grandes atrações, mais parecia uma cidade cenográfica das novelas de época da Rede Globo, lá existiam lendas vivas e para completar o elenco de artistas desta graciosa rua, elas: Pau-que-Anda e Maria Borracha!!!!
Quem não se lembra desta divertida dupla? Maria de Jesus Batista Costa (Pau que Anda) Maria José Batista Costa (Maria Borracha). Duas irmãs gêmeas de descendência indígena, que chegaram em Araguacema, ainda adolescentes, e acabaram de ser criadas pelo Sr. Sandoval Simas e sua Esposa Dona Belinha.
Pau-que-Anda, ganhou esse apelido porque não parava em casa, passava o dia medindo rua e bebendo cachaça, o que acabou tornando-a numa alcoólatra. Com a idade avançada e os problemas de saúde devido o excesso de alcool,
Pau-que-Anda ficou cega e teve uma vida muito difícil, não era aposentada e vivia de favores das pessoas, Padre Afonso foi seu braço forte, sempre a ajudava com alimentos e costumava pagar suas tarifas de água e luz.  O corpo de Pau-que-Anda descansa hoje no antigo cemitério de Araguacema. 
Maria Borracha quando jovem, trabalhou como trapezista de circo e fazia ginásticas que impressionavam o público, ganhando assim o apelido de Maria Borracha. Quando saiu de Araguacema, Maria Borracha foi morar em Paraiso do Tocantins, lá viveu ainda vários anos, vindo a óbito em 2010.
Elas partiram e deixaram saudades, sem elas a Frei Francisco perdeu parte da sua graça e as brigas de Rua ja não tem mais tanta audiência. 

Rua do famoso Porto das Mulheres, para se chegar até ele via terrestre, só tem uma forma, ou seja passando pela Rua Frei Francisco.
Atualmente porto de maior movimento de embarque e desembarque de barcos e canoas, banhistas, lavagens de roupas, carros, pescarias e outros.
Porto que um dia alimentou muitas famílias de lavadeiras, que honestamente tiravam de lá o sustento de suas casas.
Porto que ouviu muitas conversas de lavadeiras, que batendo roupas cantavam e tricotavam, e guardou no seu mais discreto silêncio segredos de uma sociedade chamada araguacemense.  
Porto que deu asas as nossas mentes brilhantes de criança, sem nenhuma noção de perigo, saltarmos  dos seus barrancos na época das cheias, ou pularmos dos galhos das árvores, de atravessar nadando para os lajeiros e depois irmos até a prainha.
Meu olfato guarda lembranças do cheiro daquelas águas, que me banhavam  o corpo, e que hoje banham minha alma, nem sei de que: se de alegria, de esperança, de amor ou de saudade.
Porto que com sua beleza natural e seu romântico pôr-de-sol , serviu de cartão postal para os casais de namorados apaixonados,  que em seus velhos troncos tombados pela enchente se assentavam aconchegadamente como se estivessem na praça de São Marcos a contemplar Veneza.

Salão Paroquial, um nome associado para sempre na história cultural da Rua Frei Francisco. Ele serviu de palco de grandes eventos e comemorações, na década de 70 e 80. Foi lá que as belas jovens Perpeta Simas, Gracinha Cunha, Sandra Meneses, Luciley Mesquita e outras receberam os tão cobiçados títulos de "Miss Veraneio Araguacema".
Foi lá que o menino Luiz Otávio se vestiu de príncipe e a menina Flávia de Cinderela.
Foi lá que recebi meu diploma de professora primária, quando concluí o magistério.
Foi lá que tivemos nossas aulas de catequese.
Foi lá que recitamos poesias e cantamos canções de amor para nossas mães em homenagem ao seu dia. Foi lá que assistimos os mais divertidos  esquetes apresentados pelos jovens cômicos da época: Odair, Roxinho, Miguel e outros...
Sem falar nos memoráveis bailes animados por Antistas do Acordeon, que faziam nossos corações saltar de prazer, foi lá que dançamos os melhores bailes de nossas vidas... e foi para um  desses bailes que as jovens Dalvinha e Zeila, no ápice de suas vaidades, construiram uma passarela de tijolos de suas casas até a entrada lateral do salão, para não sujarem de lama suas belas sandálias.
A Rua dos apaixonados como Juracy Saltachão e Zequinha Torradeira que cantam para celebrar a vida, dos artistas como Aluízio pintor, e dona Antonia, esposa de seu Natalino, que através da arte registram um pouco das belezas naturais da nossa terra,
Rua de sonhadores como a Zeila, Leila, Careca,  que sonham com nossas praias limpas e águas transparentes, depois de uma temporada. Rua de pessoas que vêem a vida com olhos de um poeta, ouvidos de um músico e coração de quem ama.

...Rua que vive a melhor mãe do mundo, a minha mãe, guerreira, incrível e linda, que carrega no coração amor incondicional pelos seus filhos, aquela que faz meu coração bater mais forte, e merece as mais lindas canções de amor, a minha rainha!...
O que mais eu posso dizer da Rua da Minha Saudade? Ela não tem nenhum charme, nada de especial para alguém que não viveu alí. Mas para mim, cada esquina, me traz uma recordação.
Ainda me vejo criança, segurando na mão de minha mãe, parada em frente a nossa casa, conversando com uma vizinha. Existe um souvenir mais bonito que este?

Então só posso dizer que ela é mais bela que a Rua Thomás Vieira em toda a sua extensão, comparada pelo Paulo Henrique  à 5a Avenida em Paris, mais importante que a Rua dos Muricis comparada pelo Juarilson como a Via Ápia em Roma... para mim ela é ainda mais bela que a Grande Canal em Veneza, considerada uma das mais belas ruas do mundo, e mais rômantica que a Ponte di Rialto.

 
Zeila Oliveira.








Um comentário:

  1. Zé Modesto, vc é um achado, rs ... escreva mais, muito mais que eu quero ler muito mais os seus textos ... sou irmã da Zeila, a autora desse texto da Rua Frei Francisco, a rua da minha saudade ... fiz parte dessa história e lá ainda vive metade de meu coração ...

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