sexta-feira, 11 de novembro de 2011

EM ALGUM LUGAR NO TEMPO E NO MUNDO...


Aldir Lyra

- ‘Dia!
-Dia, moço...
-Tô vendo o senhor, sentado aí, já há um bom tempo, quieto...
- Hum...
- E fiquei me perguntando no que estaria pensando?
O outro levantou o chapéu, coçou o cangote e olhou pra cima na direção do outro, fechando um dos olhos pra escapulir do sol a vista, e como não adiantou fez sombra com o chapéu erguendo-o contra a luz.
Onde estavam a paisagem era bela, já quase findava o dia e soprava um ventinho morno que fazia encarapitar as águas do lago.
- Acho que mesmo que eu quisesse não conseguiria transmitir pra vc os meus pensamentos.
- Como não? Tente então...
- Pelo seu jeito, percebo que nasceu em cidade grande.
- Sim.
- Se nunca brincou na lama, ou subiu em árvores, ou correu com medo de vaca parida, nem vou tentar...
- Meu avô tinha uma fazenda no interior e sempre que minhas férias chegavam eu corria pra lá com meus pais.
O outro, com um meio sorriso desdenhoso mirou mais uma vez o rapaz:
- Vejo que é vivido. O que vc faz aqui?
- Meu carro quebrou ali na estrada. Tô esperando o socorro.
O outro olhou pra estrada e viu ali perto um lustroso carrão.
- Hum, os carros de hoje tão numa complicação só, num se acha nem lugar pra por a mão no motor. Se fosse no tempo do platinado eu poderia ajudar.
- O Sr. tá só me enrolando pra não contar no que estava pensando.
O outro olhou novamente praquele moço, como se avaliando a sua capacidade para absorver as palavras que viriam.
- Senta aí nessa pedra, se não se importar de sujar de terra essa sua calça...
O rapaz sem nem mesmo retirar a sujeira de terra que havia sobre a pedra, sentou-se, puxou um talo de capim pra por no canto da boca e tirou os sapatos afundando os pés na terra à sua frente, e quando o fez, sorriu ao sentir o frescor do barro escuro e úmido. E pensou ter visto um lampejo de satisfação no rosto do outro.
O outro pegou uma garrafa de água, despejou um pouco em um copo e ofereceu outro ao jovem, que declinou.
- E nasci há dez mil anos atrás...
O garoto fez uma meia careta, talvez pensando que o outro era só um maluco saudoso do Raul, e já começava a se arrepender de ter iniciado a prosa.
O homem deu uma gargalhada:
- Tranqüilize-se. Só estou brincando, não resisti! Na verdade eu nasci faz tempo, mas parece que foi ontem.
E continuou:
-Diferente de vc, nasci numa cidadezinha muito, muito pequena que mais parecia uma aldeia, mas que parecia ser mágica. As brincadeiras nunca acabavam, tudo era aventura. E era sobre Araguacema, minha cidade natal, de antes dos trovões, que eu estava pensando. Lembrando da cidade que era a cidade ...
... Dos banzeiros nas manhãs de verão, com suas brancas cristas açoitadas pelo vento, gaivotas fisgando vísceras de peixes tratados na beira do rio, gaivotas pairando, gritando, mergulhando, voando, peixe caindo, voadeira subindo, canoa descendo, barco do Vavá aportado, toldo preto, criança pulando, o Vavá avisando pra não subir no barco, cheiro de sabão de barra, sabonete, peixe, fumaça de óleo dois tempos, tábuas lisas, lavadeiras, roupas a martelar, coarar...
- Da tabatinga amarela nas barrancas do rio...
-Tabatinga?
- É, tabatinga, um barro amarelo e escorregadio. Os americanos não brincam de guerra com bolotas de neve? Nós fazíamos guerras com bolotas de tabatinga. Ficávamos amarelos, sujos de barro e depois era só cair no rio pra se lavar.
O Jovem sorriu, talvez imaginando a cena.
- Da casa de sal do porto do lajedo, dos cavalos lambendo as paredes da casa de sal...
- Como assim?
- Era um antigo depósito que antigamente, muito antigamente, se guardavam peles de jacarés e piroscas salgados. E era tanto sal que as paredes ficaram impregnadas, e vc sabe que cavalo e vaca gostam de lamber sal, né?
-Sei.
O outro o olhou, com ares de dúvida...
-Tinha também, no porto do lajedo e em todos os outros, malícias espinhentas - fecha a porta que o boi já vem- cinzeirais, ingazeiros, o pé de cajá ao lado da churrascaria Gaivota que me faz lembrar a própria churrascaria Gaivota com seu cheiro peculiar de cerveja e o sabor da Crush gelada (almejada) e do meu pai conversando e bebericando a Antarctica gelada, e me fazendo perguntar “porque não bebe rápido?”
- Fecha a porta que o boi já vem?
-É, a malíçia é uma planta espinhenta que ao ser tocada fecha as folhas parecendo que tá morta. E a gente falava isso ao tocá-las.
- Ah!
-Araguacema que me lembra também os pés de manga em frente à casa do seu Pedro Pinto (pai da Ilma do “P” vc não sabe quem é.), do monte de palha do fundo da Usina; das argolas incrustadas na calçada da Usina que nunca ninguém me explicou pra que serviram (e eu, na minha meninice, sempre imaginei um escravo ali açoitado, coitado).
- Vejo que nasceu mesmo há quase dez mil anos atrás. Escravos?!
- Que nada. Apesar da minha aparência eu não vi nenhum escravo, ou melhor, até vi, mas disfarçado de assalariado. É que na calçada alta da usina tinha umas argolas de ferro enferrujadas fincadas, e me diziam que era pra amarrar barco, mas nunca me convenceram. Sempre achei que ali era uma espécie de tronco de açoite.
O outro tomou um pequeno gole de água antes de continuar.
- Araguacema dos eucaliptos da igreja católica, sempre esvoaçados aos ventos das manhãs de verão, exalando um cheiro peculiar; do murinho dos padres, e do padre mais padre aquele que se chamava Frei Inácio e que tinha a voz mais caricata e imitada da cidade, do Doré de coroinha, das andorinhas (aos milhares) revoando sobre a cidade no final do dia quando badalava o sino e as senhoras, tantas, cobriam o rosto com véus negros e sussurrando, adentravam para a missa...
- Senhoras Santas?
- Nem tanto!
-Dos pés de muricis e cajá-manga do quintal do convento das freiras, os quais davam frutos tão almejados, mas que eram pra poucos (apenas alguns coroinhas ou...). Do portãozinho do convento, baixo, mas que era difícil de pular nas carreiras, após apertar a campainha...
- Fugiam por quê?
Ele deu uma longa risada e respondeu, coçando a ponta da orelha:
- Taí uma coisa que vc não imagina, sendo nascido num mar de campainhas... Só no convento das freiras tinha campainha na porta. Em toda a cidade! Assim, era uma tentação irresistível que nos obrigava a pular o portão para, sorrateiros, apertar e sair em disparada.
O garoto ficou com cara de bobo.
- Araguacema do Vale, do hotel Amazonas, da Praça da Independência, da Praça da Alvorada, da Praça Gentil veras que um dia deixei como apenas um largo e ao voltar outro ano vi espantado UMA PRAÇA! Com bancos, luminárias, gramados... Felicidade, modernidade, progresso (?)
- Araguacema da casa de Zinco com seu murinho de pedras, o aeroporto com o avião dos Americanos, a ladeira dos Americanos, os americanos João Blau... Larí... (Invasores?) Mata burro,  A Missão com suas casas de tijolos a vista e telas nas portas e janelas pra não entrar muriçocas e moscas (povim enjoado);  o Lajeado com sua água morna e uma plantinha com folhas sabor anis incrustada na pedra preta. A estrada do Lajeado que parecia longe...
- Larí? Que nome estranho para um Americano.
- Eu penso que ele talvez se chamasse Larry, um nome mais comum lá pra o norte, mas o povo da cidade deve ter abrasileirado a seu modo, o nome dele. Já João Blau devia ser John alguma coisa mesmo.
- Devia.
O outro também puxou um talo de capim, cortou um teco com o dente e pôs na boca o que restou da ponta, antes de continuar...
-Araguacema de lugares alegres que por vezes fossem tristes, mas eram alegres, como o salão do seu Zacarias e também o do Raimundo Dias com suas – nossas - diletas músicas: Empty Garden , Wigwam, Morena Tropicana, Reluz, Muito Estranho, Fanatismo, Años, e etc e tal.
- Araguacema que tinha o Canoão da D. DJesus que inovou, brindando-nos com um aparelho com k7 e toca discos que trocava sozinho os discos, vejam só! Lá mais atrás ainda, tinha o Salão Paroquial, no tempo do refrigerante Grapete. Os conjuntos com suas guitarras e seus sintetizadores luminosos a tocar O Lobo e Pholhas, e antes ainda o Canoa Chopp do seu Domingos (serrotão), o Tabocão que também era sorveteria. Me lembrei agora do Clube Social -Social Club.
-Araguacema dos cinemas itinerantes dos ciganos, do cinema do Dodô e também tinha o cinema do Pedro Lopes da Paulina que tinha um atalaia...
- Atalaia?
- É... Assim chamávamos qualquer auto-falante, daqueles tipo corneta. Começou a ser chamado assim, ainda antes de eu nascer. É que tinha um serviço de Auto-falante na cidade, comandado pelo J. Wilson e meu pai, dentre outros, que foi batizado de O ATALAIA, daí o nome pegou para o produto.
- E tinha tantos cinemas assim numa cidadela?
- Na verdade não tinha nenhum. Apenas apareciam alguns por algum tempo. Os ciganos iam e vinham de tempos em tempos. E foi num cinema parecido com um circo que eu assisti a meu primeiro filme. Django!
- Antigo hein?
O outro apenas sorriu.
- E naquela noite, ao entrar no cinema, tocava Good By Mi Love Good By, do Demis Roussos.
 
“Hear the wind sing a sad, old song
it knows i'm leaving you today 
please don't cry or my heart will break
when I go on my way.
Goodbye my love goodbye !”
 
Cantarolou.
-O filme, pra mim, foi uma grande emoção. O mocinho, estrelado pelo Franco Nero, andava puxando um caixão. Olha só que dramático.
- Com defunto e tudo?
- Que nada, depois, a grande surpresa: Lá dentro tinha era uma metralhadora gigante! E ele mandava bala pra tudo quanto era lado, depois apanhou que só galinha pra largar o choco. Quando eu saí do cinema, me lembrando do coitado do Django, tocou de novo o Demis e eu fiquei triste...
- E os outros cinemas, eram de ciganos também?
- Nada, o do Dodô ficou algum tempo, depois fechou. O do Pedro Lopes também teve vida curtíssima. Eu me lembro de um documentário sobre tubarões em que o áudio era em inglês e não tinha legendas. “Inteligentemente” o Pedro Lopes narrava pra os espectadores, só que como ele não sabia uma vírgula de inglês, tudo que fazia era narrar o que via, aliás, era o mesmo que todos nós víamos, e era mais ou menos assim: “Agora, o tubarão está nadando no fundo do mar... Agora o mergulhador pulou na água para mergulhar... O mergulhador mergulhou e está vendo os peixes... Está saindo bolhas do escafandro do mergulhador...” Não sei se foi esse o motivo de o cinema não ter sido longevo.
- Hilário!
- Coisas de Araguacema. E tinha também os nossos cinemas feitos com caixas de sapato, recortes de revistas e vela.
-Lá tinha também o Bernardão, um jipe laranja e preto pilotado pelo Kleber Bucar; e tinha também uma rural marrom que era companheira das Aero Willys, uma marrom e outra esverdeada, mas não sei de quem eram, mas sei que os pula-pula (ou paco-paco) eram dos americanos.
- Paco paco?
- É. Um veículo artesanal feito lá em Araguacema mesmo. Servia pra trabalho pesado e ir à igreja nos domingos. Era comum ver os gringos chegando, loirinhos tão arrumadinhos e diferentes dos nativos, sentadinhos, estacionando em frente à Menonita, domingo de manhã. O nome paco-paco era devido ao barulho do motor – um lento e contínuo “paco-paco-paco-paco”. Ainda hoje tem um lá. Do Paulo Brito.
- E Araguacema tinha patrol Hubber Wacco e o Daniel pilotando, C10 verde, caminhão negro das balas Neusa, Caminhão azul dos Irmãos Cecílio, empoeirados dos Irmãos Martins e principalmente os do seu Waldison, aquele que tinha um bolso fundo cheio de maço gordo de dinheiro; caminhonete do Isaias, caminhão do seu Curuçá, Corcel do Pacheco, Divino com seus carros Divinamente limpos, e de vez em quando o Gregório com sua caminhonete a dar cavalo de pau a dar com pau... O Gregório eu vi a um tempo, na praia em Araguacema.
- Que praia?
O outro olhou o garoto, como se fosse dar uma longa explicação, mas desistiu:
- Lá tem praia. Uma bela praia de rio. E por favor, não a chame de “prainha de rio” como a maioria das pessoas que pensam que só há praia no mar. Lá tem é PRAIA!
- Tá, nem pensei nisso.
- Lá não tinha shopping. Pra que shopping, essa mania nacional? Lá em Araguacema tinha era as lojas do seu Dodô, do Seu Elias Bosaipo onde ganhei meu velocípede!  A loja do seu Cesário, a farmácia do seu Laranjeira, a venda da d. Madalena, do seu Aureliano, do seu Né onde coloquei potaça na boca, às escondidas, pensando que era açúcar... quase me arrancaram a língua de tanto que esfregaram... Da venda do seu Doca em frente ao gabinete do tio Hezir, ali no gabinete tinha cheiro de Eugenol.
- Araguacema dos amigos João Cunha, Abraão, Borges, Betinho, Tatá, Davi da Rosa, Jairo e Tão- ambos filhos do Militão- Bídia, Josa, Dominguinhos do Glicério, Rom, Ruzi, Teté,Marcelo do Jauner, O Filho do seu Manoel Mesquita, o qual esqueci o nome, Klenio do Tí Rê, e sem querer cometer injustiças, já cometendo, paro por aqui de falar nomes de amigos... De alguns, nunca mais tive notícias.
- Araguacema de professoras austeras, mas que ensinavam mesmo: Maria Aldy – a primeira- Suzete, Eurídice, Julieta, Dalva, Inês, Inezona... dentre tantas que foram importantes.
- Araguacema do CEA, da Escola Menon Simons, Grupo Escolar Frei André Quinn, das merendas, dos flamboyants vermelhos no pátio, portão azul, do recreio, peteca, gramado, goela furada, da sopa de macarrão; dos desfiles de sete de setembro, carro alegórico, tarol, prato, zabumba, Doriel. E ai se não fosse... Perdia  nota em Ed. moral e Cívica ou OSPB!
- Doriel?
- Ele era quem tocava a Zabumba, ou tambor, como queira chamar.
- Goela furada?
- Já falei disso dia desses. Não vou repetir. Na verdade já falei de quase tudo aqui, mas hoje to querendo relembrar de tudo. Mas da goela não vou falar.
- Dos uniformes... Camisas brancas, bermuda, calça, saia cáqui. Sandália franciscana pra entrar na escola. Fila do menor para o maior – Hino, Pai nosso... Entrada, cimento vermelhão brilhando, crucifixo na parede, Ave Maria! Chamada, chamados, presentes ou “F”aos ausentes. Lixeira atrás da porta, Apontador a manivela, Carteira de madeira com ranhura pra por o lápis e buraco dedicado para a borracha. Chegaram outras mais modernas... Anatômicas, verde claro no tampo e nem tinha onde por o lápis ou a borracha. Progresso (?)
- Franciscanas?
- Você não sabe nada de nada? Sim, franciscanas eram nossos calçados de uniforme. Acho que porque lá é muito quente a sandália nos favorecia. E ai de quem não fosse pra escola com o uniforme completo, possivelmente voltaria pra casa sem assistir a aula.
- Puxa...
- Pois é. Assim que era. Uma vez um colega tinha um machucado no pé e foi de havaianas nos dois pés. O comum era que, pra honrar a farda, se usasse uma havaiana no pé machucado e franciscana no outro. Daí quando estávamos na fila a diretora deu aquele ralho geral e viu o meu colega de havaianas.
“- Fulano, porque não está de uniforme completo?!?!?
- To com o pé esquerdo machucado, psôra...
- Então porque não veio com a franciscana no pé direito e havaiana no machucado, fulano?
Numa argumentação inédita, coerente e inquestionável o aluno respondeu:
- E não estaria, ainda assim, incompleto, psôra?
...
- Hoje passa, mas sara logo esse pé! - Disse resignada.”
- Moleque esperto esse.
- Não sei se foi impressão minha, mas acho que a diretora ficou vermelha.
Ele olhou na direção do ocaso.
- Tá vendo esse por do sol? Comparando-o com o nosso, parece em preto e branco. Lá em Araguacema tem o mais belo de todos. Do mundo todo.
- E o Senhor Já viu o do mundo todo?
- Não, mas não pode haver outro mais belo que o nosso.
E ficou em silêncio por instantes, parecendo arrumar os pensamentos.
- Araguacema, da Igreja Menonita com sua bíblia de reboco na parede na entrada, Pastor Teodoro, pano vermelho atrás do púlpito, encenação de natal; Gaspar, Ireno, José Fernandes, Erismar, José Dirceu, D. Ana tocando harmônio... Escola dominical, Davi derrotando Golias, Sansão sendo derrotado... Dalila! Queixada de jumento.
- Queixada de jumento?
O outro esperou um caminhão barulhento passar na estrada, fitando-o até desaparecer deixando um rastro de fumaça.
- Sim. Quando eu ia à escola dominical, nos davam uns livrinhos bíblicos com ilustrações, e um deles tinha uma imagem de uma batalha onde Sansão – se minha memória não estiver me pregando peça – abatia alguns inimigos com a queixada de um jumento.
- Ah...
- Araguacema, Araguacema de tantas lembranças
Dos sete copas da Gentil,
Do Flamboyant da Independência
Dos flamboyants da Alvorada
Das Palmeiras do murinho dos padres
Dos cinzeiros dos campos de futebol
Das mangubas da porta de casa e da porta do seu Juarez
Dos “pau” de pular no rio, tantos... rio cheio
Do quintal da nossa casa
Do quintal do Abraão
Do quintal do Borges
Do quintal do João cunha
Das ruas da minha infância, Muricis, Couto, Santa Maria e tinha uma Rua da Minha Saudade.
- Bonito nome.
- Também achei, mas o nome de verdade era a Rua Frei Francisco. Foi uma colega que escreveu um conto e a rebatizou com esse nome. Achei mais bonito, sem querer desmerecer o Frei.
- Seria mais bonito mesmo. O que mais tinha lá?
- Ê Araguacema que gostava de falar mal das cidades vizinhas... Santana do Araguaia, Caseara. Dois Irmãos então... Coitados. Hoje, me parecem ser não muito diferentes.
- Araguacema de poeira vermelha, Borges do Piranha, do Piranha sem ponte, Do Lajeado com bueiro que o João do Rosa passou por dentro e saiu todo ralado, mas vivo! Das dificuldades pra se chegar, mais difícil ainda de se deixar... Bebeu da água do Araguaia? Vixe...
- Não seria “ Borges DA piranha”?
- Que sabes tu?
- Sei que piranha é feminino.
O outro pegou o chapéu pela aba e com ele se abanou...
- Essa piranha sua aí pode ser. O MEU piranha é masculino, pois é um rio. E naqueles tempos de setenta, oitenta a ponte era improvisada e só dava passagem no verão, quando o rio baixava. No inverno o rio enchia, a ponte sumia e o jeito era apelar para o seu Borges que morava do lado da cidade. Era uma dificuldade só. Uma vez eu e o Marcelo irmão do Tatá atravessamos a nado para poder avisar o seu Borges que precisávamos atravessar. Daí Ele pegava a canoa e Ia buscar os demais. E tinha uma boa caminhada ainda da margem até o ranchinho dele.
- Bem difícil, né?
- Hum! Se fosse só isso... Aí ele pegava uma bicicleta e ia até a cidade (uns 15 km) avisar o Pacheco ou outro carro pra nos buscar. A viagem toda, de Goianorte a Araguacema, demorava o dia inteiro.
- E o João do Rosa? Que aconteceu?
- Eu não vi, mas todo mundo soube do fato. Na estrada pra Dois Irmãos tem um rio chamado Lajeado e num inverno qualquer o rio transbordou passando por cima da estrada. O João do Rosa chegou junto com outras pessoas e estava tentando atravessar, mesmo sob aconselhamentos dos demais. E ele deu ouvidos? Foi andando já com a correnteza pelo joelho, quando escorregou e a força da água o puxou para o fundo e ele desapareceu. Todo mundo ficou num apavoramento perguntando pelo João do Rosa, Cadê, será que morreu? Sumiu! Depois de um tempo ele apareceu do outro lado da estrada. Passou por dentro da manilha e apareceu todo ralado, parecendo um bife de fígado. Não sei como não ficou entalado, barrigudo do jeito que era.
- Moço, que terrível.
- Pois foi assim. Pelo menos foi assim que ouvi.
- Pelo jeito o Sr. Viveu por muito tempo lá.
- Quisera, mas não. Aos dez anos me levaram de lá. Fui pra Goiânia, mas em coisa de um ano, pra minha felicidade, retornamos. Na verdade eu pensei que seriam tempos felizes, mas ninguém sabia de nada do futuro.
- Do que?
- Viria uma tempestade. Pra mudar tudo...
- O socorro chegou, ó o carro do mecânico!
- Vai lá, resolva seu problema e siga seu caminho.
E ele foi, mas voltou em seguida.
- Deixei o mecânico lá fuçando. Não ia adiantar eu ficar lá e eu não perco essa prosa é nada. Que tempestade? Deu enchente na cidade?
- Enchente até deu, mas não nessa época, ainda era mês de cachorro doido e não chove nesse mês. A enchente foi depois e lavou as minhas ruas e afugentou muita gente. Mas A tempestade foi outra e, para mim, mais devastadora. Na calada da noite os trovões soaram, raios caíram, me despertaram e quando vi, já estava andando pela rua, em desespero. O estrago foi grande lá e também cá. Manchas. Só ficaram os amigos de verdade, poucos, mas valiosos- E eu fui novamente de Araguacema e desta vez, apenas pra voltar de vez em quando.
E ouviram o barulho do motor do carrão funcionando.
-Parece que ficou pronto. Preciso ir.
-Vá, siga seu caminho.
- Obrigado por compartilhar suas memórias.
- Fiquei honrado por me ouvir. Poderemos nos encontrar qualquer dia desses. Tenho mais lembranças.  Agora vou entrar no lago.
- Vai se lavar?
- Não, apenas me refrescar. Já me lavei há muito nas águas do Araguaia. E as manchas não eram minhas...
 
 
 
 
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