quinta-feira, 24 de novembro de 2011

AQUELE QUE NUNCA FEZ 'SALIENÇA' QUE 'LABREGUE” O PRIMEIRO REBOLO”.


Paulo Henrique de Oliveira Mesquita (PHD)

Aquele que nunca fez saliença que atire a primeira pedra)
Há muitos anos atrás em uma pequena cidadela do interior do Estado do Tocantins, antes conhecido como Estado de Goiás havia quatro crianças sapecas para as quais não havia limites de pensar e fazer estripulias. A cidade era Araguacema. A época, décadas de 70 e 80.
Embora uma cidade pacata adaptada aos costumes bucólicos de uma cidade do centro norte do país, comportava figurais folclóricas e enigmáticas como as personagens desta história que ora vos proporciono conhecer.
Para que sejam preservadas as suas identidades passarei a chamá-las aqui de: Janjão e Norberto, os dois garotos e Florinda e Bela as duas garotas.
Janjão sempre foi uma criança incomum. Extrovertido, articulado e não havia buraco que ele não entrasse. Saliente, sempre foi metido em conversa de adulto.
Sua irmã Florinda, por sua vez, era amiga de todo mundo. Cativante e bem liberal, sempre esteve metida nas brincadeiras dos meninos.
Os dois eram filhos de Nicolau e Janice e tinham irmãos e irmãs. Nicolau era um homem rude, porém muito trabalhador. Nunca se viu em rodas de escarnecedores, pois era dono de poucas palavras. Sempre resolvia uma situação de uma só vez e com uma só palavra.
Janice por sua vez, era uma mulher pacata e prendada. Uma boleira e doceira de mão cheia. Nas suas latas do “jogo de completo”, dispostas sobre a prateleira da sua cozinha, nunca faltava uma peta, um biscoito quebrador e tantas delícias que enchia os nossos olhos de desejo e a boca d’água só de imaginar tudo aquilo dentro do nosso “estambo”.
A minha memória olfativa ainda registra na minha consciência o cheiro que exalava pela vizinhança de todas as guloseimas que desprendia daquele velho e surrado fogão a lenha feito de madeira, barro e “barrela”. Dele pudemos experimentar as mais variadas guloseimas como o mangulão.  Saía também o bolo de arroz, o doce de leite feito no tacho, o doce de murici em caroço, o beju da grossura de um dedo, doce de “leite cortado com fatia de mamão”, doce de buriti, grolado, etc. Ainda sinto e cheiro e gosto dos petiscos que experimentei à beira do seu fogão.
Norberto era criança magra, do tipo “esqueleto humano”. Sempre foi uma criança arredia, porém habilidoso nas suas invenções. Desde pequeno era companheiro de seu pai na lida. Sempre que se via o menino, o moleque estava com os “cascos” no chão e com a “titela” de fora num “sol de rachar momona” lá pelos seus 40 graus. Estudar nunca foi o forte dele e na boca palavrões e mais palavrões, porque “filho de peixe, peixinho é”. Amigos, somente os da sua rua e olhe lá! Dentre as maiores qualidades, fazer carrinhos de litro de óleo e passarinhar com “baladeira” e fazer avião de buriti.
Bela, já era toda assanhada, já não tinha papas na língua. Seu pai vigiava de perto e, sua mãe, com um só grito, lhe alcançava onde quer que estivesse. Desde pequena perseguia a vida, pois os momentos em que os olhos do pai lhe escapavam de sobre os lombos, ela os aproveitava intensamente porque “dava nó em goteira”.
Seu Bartolomeu, então, já era um pouco mais extrovertido e continuamente ameaçava arrancar a “minhoca” dos meninos. Sempre andava com um facão “colim” pendurado na cintura e o seu ar de cangaceiro nos fazia “pelá de medo”. Todos tinham medo dele! Sempre descomposto, nunca se ajeitava. Camisa quando usava, sempre estava pendurada sobre os ombros. Não tinha vida social e também não era de muitos amigos. Tinha fama de durão em casa. Levava todos os filhos ali, na “rédea curta”. Os filhos sempre foram criados ali no “cabresto”, mas mesmo assim ainda lhes fugia do controle. Quando resolvia corrigir um dos seus não tinha quem não ficasse sabendo, a rua toda ouvia o “pampeiro”.
A mãe a D. Filó por sua vez franzia a testa pra não se mostrar muito amistosa. Sempre foi senhora de poucas amigas. Os palavrões que saiam da sua boca davam medo e não tinha cara que a intimidasse. Como não era de visitar ninguém, passava a tarde sentada à porta de sua casa. Depois que o sol corria por sobre a casa e projetava a sombra do telhado ali pelo meio da rua ela surgia e alí ficava até por volta das seis da tarde.
Todas as nossas descobertas que produziam certo desconforto nos demais, principalmente aos adultos sempre terminava no cipó. Quando se ouvia um “arioré” levando umas “lapiadas”, é porque certamente tentou arquitetar algum plano que não deu certo.
Dentre todas as fantasias que povoavam a mente infante de nossos personagens existia uma, intrigante, que até hoje, me faz refletir sobre o homem, sobre a existência humana e sobre os valores mais elementares da nossa vida.
Acredito também que peripécias e aventuras como essa todos nós, um dia, já maquinamos ou almejamos praticar. Mesmo que tenha sido mudado o comportamento das pessoas através do tempo, esse tipo de situação ainda se torna comum em nossos dias. É certo que com conceito, leitura e juízo de valor diferenciado.
Os quatro, desde a mais tenra idade, já se mostravam aventureiros e nunca foram “flor que se cheirasse”. Desde pequenos já eram ditos, as “ovelhas negra” da família.
Janjão era irmão de Florinda e Norberto irmão de Bela. Eles se destacavam de todas as crianças ali da vizinhança. Como ninguém, souberam aproveitar a sua infância e imprimir de modo irreverente nos costumes da época, brincadeiras ousadas.
Brincava-se de tudo lá por aquelas redondezas: caí no poço; maça, pêra ou uva; murro doido; cabra cega; turma; peteca; pião; toinhém; biloquê; ordem, seu lugar, cambota de madeira, cambota de latinha de massa de tomate; de casinha; papai mamãe; até fazer “Saliença” as vezes era também fazia parte da brincadeira. Qual de nós, um dia, até mesmo os mais puritanos, não foi tentado a fazer.
Tínhamos um mosaico de brincadeiras que nos valeu por toda a nossa infância e adolescência, mas para essas crianças não havia limites. Daí a idéia de criar um “cabaré”. Nada mais excêntrico para a época do que uma brincadeira como essa. Ainda que se tratasse de brincadeira de criança, não deixa de ser no mínimo curioso.
A idéia, se assim podemos referir a uma coisa como essa, surgiu da serenidade e inocência de quatro crianças incomuns que viviam à frente de seu tempo.
O cabaré era uma pequena faixa de terra no meio do mato onde eles se reuniam pra fazer “saliença”. A sua localização também dava a impressão de que eles entendiam de que se tratava de algo que feria os princípios éticos e morais da época.
Atrás do salão paroquial da Igreja Católica tinha um “munturo” e por detrás dele uma estrada que nos levava para as olarias perto do seu “Sindô”. O local era cheio de arbustos de sarã, goiabinha e o resto era só “maliça”.
Dentre elas havia uma planta cheia de espinhos por todo o seu tronco. Era uma planta arbustiva de folhas bem pequenas, que ao simples toque da nossa mão se encolhia como se tímida se envergonhasse da nossa presença. Ao passar pelo caminho tocávamos nela e dizíamos: tua mãe morreu e automaticamente suas folhas murchavam e encolhiam como se entristecessem com a notícia que acabara de receber.
O ambiente preparado por eles era bem rústico. Não tinha móveis, portas ou janelas, apenas o verde das árvores que serviam como paredes e cobertura. O chão era de terra batida e debaixo dos pequenos arbustos eram abertos alguns espaços que porventura funcionariam como os quartos.  Nesse cabaré tinha de tudo. Litros de óleo com tábua em cima que serviam de tamboretes, como cortina improvisada, um lençol, certamente subtraído de algum baú, onde naquele tempo era comum guardar as nossas roupas e algumas decorações que pudessem caracterizar o ambiente e o que se fazia nele.
Os pagamentos pelos programas eram feitos com dinheiro de cigarro. Tinha Albany, Arizona, Belmont, Charm, Continental, Dallas, Free, Hollywood, Marlboro, Minister, Pall Mall, o “porronca” não entra na lista porque era fumo brabo e era enrolado em “papel abadie” e folha de milho seca, etc.Cada marca de cigarro correspondia a um valor e ao serviço que ele cobriria. Tinha beijo na boca, abraço, aperto de mão, cada um com o seu preço. O serviço mais caro era a “picada”. A picada era a saliença propriamente dita.
Os cafetões Janjão e Norberto eram quem regulavam as entradas e saídas e repartiam os ganhos no final da brincadeira. As raparigas do cabaré Florinda e Bela já em desvantagem, nem se davam conta de que a profissão mais antiga do mundo era mesmo ingrata.
Só pra variar, como sempre toda brincadeira que não dava certo, o “coro” comia. E esse comeu! E pra quem conhecia o Seu Nicolau, sabe muito bem, que resolver uma situação bastava apenas uma paulada, e com ele só um tapa no pé da orelha, era “pá bife”.
Hoje, quase trinta anos depois, conservo em meu coração apenas a nostalgia das brincadeiras que deixaram saudades e a alegria de saber que valeu a pena viver cada um desses momentos.
Os personagens desta história cresceram, e hoje, Janjão e Norberto, Florinda e Bela seguem o curso de suas vidas normalmente, mas num ponto eles diferem de todas as outras crianças que em outros tempos conheci o fôlego de vida latente dentro deles. Formaram as suas famílias e nas suas lembranças apenas “retalhos de memória” costurados ao longo do tempo a partir de cada aventura e brincadeira que lhes ensinaram que vale a pena viver, quando descobrimos que para isso é simples e não custa tão caro.
A vida que vivemos em Araguacema não tem preço. Fomos formados pra viver a vida em qualquer circunstância. Facilmente nos adaptamos a lugares e situações adversas. Em tempo de escassez não nos abatemos se as “vacas são magras”, de outro modo, somos capazes de andar entre príncipes e em momento algum nos esquecer de quem de fato somos.
Aprendemos lições incríveis quando: entendíamos que as primeiras chuvas do mês de agosto traziam as “pés curtos” para a desova; adoçava as mangas temporãs; quando entendíamos que círculo pequeno ao redor da lua é sinal de chuva longe; que circulo grande ao redor da lua é sinal de chuva perto; que nariz escorrendo sangue pra parar só mesmo deixando cair em caco de telha e tantas outras lições que aprendemos, vivendo intensamente.
Tudo isso é parte de um legado irretocável que recebemos e que se tornou patrimônio emocional de nossa existência. Esse é um legado que recebemos e que nos cabe agora transferi-lo aos nossos filhos e aos filhos de nossos filhos.
Nosso objetivo aqui não é descobrirmos quem são Janjão, Norberto, Florinda e Bela, muito menos expor de algum modo as suas intimidades. O que verdadeiramente importa, é saber que viver é muito mais gostoso quando para isso não precisamos lançar mão de coisas e favores. É simplesmente dar asas à nossa imaginação e deixar os acontecimentos fluírem naturalmente.
Escrevendo cada uma dessas histórias, fico a imaginar quantas coisas eu poderia ter feito e quantas delas tornaria a fazer. A maior das minhas alegrias na verdade, foi andar deixando rastros, porque agora, retornando às pegadas que deixei, me reencontro, e vejo a minha história impressa nas ruas, nas coisas, através de cada um dos vestígios que denunciam a minha existência, a minha permanência e a minha vivência entre  “lageiros”,  murinhos,  quadras, praias, pedrais, “impucas”, escolas, ruas e becos.  Simplesmente, não dá para voltar os olhos a tudo isso, escrever e não se contorcer em dores de parto. Pois a cada conto, poesia e histórias gerados aqui, se vai com eles um pouco de nós. Deixamos de ser os seus donos e nos tornamos apenas tutores de rabiscos e manuscritos que se desprendem de nossas mentes em forma de poesia.
Meus sinceros agradecimentos a Simone Araújo Teixeira pela contribuição dada às revisões de meus textos. A sua co-participação nesse projeto contribui de forma engrandecedora na feitura de cada um deles. Sem a sua colaboração faltaria neles a graciosidade das entonações dos verbos cada um a seu tempo e das temidas concordâncias verbais que tanto atribularam a minha alma. A ti irmã amada, a Paz que só Cristo pode dar e o amor do qual somos todos devedores um dos outros.
 
Glossário
Arioré: Menino, garoto, criança. (Uma palavra muito falada pelo seu Joaquim pontaria).
Baladeira: Estilingue.
Cabresto: Rédea curta; não dá folga.
Cascos: Cascão; pé grosso, mal cuidado; pés.
Cipó: Açoite;
Colim:Um tipo de facão muito antigo com rico cabo em madeira de lei, lamina de alta qualidade muito utilizado antigamente na lida.
Coro: Peia, pisa, taca.
Dava nó em goteira: Pessoa muito difícil; esperta; complicada; não inspira confiança; enrolada.
Esqueleto humano: Pessoa muito magra; que tem o corpo esquelético; magrelo; magricelo.
Estambo: O mesmo que estômago.
Filho de peixe, peixinho é: Muito parecido como os pais; semelhante; igual.
Jogo de Completo: O jogo de completo era um conjunto de lata e algumas delas até decorativas que serviam para guardar alimentos. Cada uma delas servia para acondicionar um determinado tipo de alimento como: Arroz, feijão açúcar, café. Costumavam ter entre quatro e cinco latas e cada uma delas trazia em sua lateral o nome do alimento ao qual era destinada.
Labregar: Tacar; lançar; meter; atirar (pedras).
Lapiada: Pisa; bater com cipó; sova; correção; peia.
Leite cortado com fatia de mamão: Para preparar um bom doce de leite, o original, punha-se o leite a ferver e depois de bem fervido eram colocadas fatias de mamão dentro dele em fervura. Quando o mamão cortava o leite, que significa, o leite perdia a sua liquidez e passava a uma nova textura semelhante a uma pasta produzia a massa característica do doce de leite. Tudo isso tinha um ponto certo, não podia errar. Não foram porcas as vezes que fiz esse favor para a D. Janice visto que era um trabalho cansativo e demorado. Como prêmio eu tinha um tacho inteiro pra rapar no final.
Massa de tomate: Extrato de tomate.
Maliça: Macega; bredo; impuca; mato fechado cheio de espinhos; mato espinhento.
Minhoca: Bibiu; bilau; órgão genital masculino (criança).
Munturo: O mesmo que monturo; local onde se colocava o lixo no quintal ou separado da cidade (hoje, utilizados ecologicamente corretos e conhecidos como aterros sanitários – o nosso era ao ar livre e descalços mesmo a gente andava por ele.
Não é flor que se cheire: Pessoa difícil; em quem não se pode confiar.
Pá bife: Bateu e caiu; tiro e queda; de uma só vez; bruco-tuco.
Pelá de Medo: O mesmo que pelar de medo; amedrontar-se; sentir medo; apavorar-se.
Pé curto: Tracajá; tartaruga.
Pampeiro: Escândalo; estardalhaço; gritaria; barulho; bagunça; tumulto; desordem.
Papel Abadie: Era um papel especial, extrafino, feito exclusivamente para enrolar cigarro.
Picada: Relação sexual propriamente dita naquele contexto vivido pela da história e para a cabeça daquelas crianças.
Porronca:Cigarro feito de fumo de rolo, ou mesmo dos empacotados tipo “cavalinho”. Os mesmos eram enrolados com papel abadie, folha de milho seca ou com outro papel qualquer. Tinha um cheiro característico muito forte e produzia bastante fumaça.
Rebolo: Tijolo; pedra; alvenaria.
Saliença: Ato libidinoso; imoralidade.
Sol de rachar momona: O mesmo que sol de rachar mamona. Sol muito quente; sol estralando; sol do meio dia. No processo de extração do azeite de mamona, uns dos procedimentos utilizados é a secagem da semente ao sol, por isso o dizer sol de rachar mamona.
Titela: Costela.
Vacas Magras:Situação difícil; tempo de sequidão;


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