quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A BALADEIRA

Juarilson Azevedo

Domingão, todo mundo de barriga cheia, jogando conversa fora e elogiando o frango caipira com pequi que acabamos de saborear.
Estávamos na Chácara dos Muricis. Uns tinham colocado colchonetes no chão frio de cimento queimado, outros se estatelavam nas “preguiçosas” e mamãe e eu balançávamos as redes pra nos refrescarmos ainda mais.
Maria do Carmo alertava que os pequis colhidos no “pé” perto da cerca eram bons, mas aqueles colhidos na beira da estrada, eram rancentos, ao que todos concordaram.
Minha caçula, a Renata, e minha sogra, assistiam ao programa global Os caras de pau, ao que alguém protestou dizendo que realmente era muita cara de pau tá na televisão com um programa ruim daqueles. Noutro momento, alguém comentou sobre a quantidade de “pés de murici” que tem naquele lugar. Ah, se murici desse dinheiro, suspirei.
De repente, a pessoa encarregada de “ariar as vasilhas” grita de lá: acabou o Bombril? Bombril virou sinônimo de palha de aço já há muito tempo. Procura daqui, procura dali, constata-se que realmente acabou. Então a mamãe sugere lá da rede: _lava com folha de sambaíba. Fiquei intrigado com aquela estranha sugestão, e fui saber da conversa.
Acontecia que na Araguacema da sua mocidade, entre os anos 50 e 60 a pobreza era grande e não existia o tal Bombril. Disse ela:_ quantas vezes pegamos a canoa, eu e a Evinha, e fomos na praia buscar areia fina do Araguaia, pra passar nas panelas e ariar com folhas de sambaíba.
Sei que as folhas da sambaíba são fortes e ásperas, mas não sabia dessa aplicação. Aliás, isso me levou a pensar: será que é daí que vem o termo ariar? Lavar com areia. Êita Araguacema véia, menino...   
Nesse ínterim, tá o Juliano e o Rafael se debatendo pra conseguir fazer uma baladeira. A intenção é abater um piem, que há dias trucida os pintinhos do galinheiro. A tal da estilingue, na velha Araguacema, era conhecida como baladeira, o que deve ser mais uma adaptação simplória, baladeira, ou seja, atirar balas, no caso, pedras. Haviam comprado uma dessas que vende em lojas, com cabo de alumínio e ligas muito moles, que além de não “dar açoite” ainda se rompeu rapidamente.   
Balançando na rede, viajei instantaneamente pra Araguacema de minha infância, me enchendo de questionamentos. Será que os fabricantes de câmaras de ar de hoje, Good Year, Pirelli, Firestone, etc... são os mesmos de antigamente? Porque as borrachas das câmaras de hoje não prestam pra baladeiras? Já há muito se usa ligas de sôro. Será que os meninos de hoje, ainda brincam de passarinhar? Duvido que eles tenham as manhas de conseguir um cabo perfeito, aproveitando a madeira da goiabeira...rapá, pé de goiaba sofria, era só achar uma forquilha que servisse como cabo, já ia embora o galho inteiro.
Lembro dos cabos das baladeiras do Ermilson, meu primo, até enfeite tinha, pois ele deixava uma borrachinhas finas contornando o cabo, tal qual aquele enfeite nas camisas dos cowboys americanos.
E aquele cabo de alumínio que meus filhos estavam usando? Como eles fariam as marcas da quantidade de bichos abatidos?
Sim, era um tal de se gabar, se vangloriar, da quantidade de assassinatos já cometidos, pois cada um era marcado por um risco feito à faca, no cabo da baladeira.
_ vou ter que trocar esse cabo. Não tem mais lugar pra fazer marcas. Dizia um, “mangando” do outro.     
E a capanga? Embornal pros mais desatualizados. Cada um queria ter uma mais bonita que a do outro também. Umas eram de tecidos jeans, aproveitando as “pernas” de calças velhas, outras eram daquele mesmo tecido branco de sacos.
Então era pendura-la pelo ombro e descer no rumo do cemitério novo onde ficavam as melhores pedras, pois isso era parte muito importante da caçada, a munição tinha que ser das melhores.   Precisava escolher as melhores pedras, mais redondinhas, no tamanho certo, no peso certo, do material ideal.
Cada um queria ter uma baladeira melhor e mais bonita que o outro. Uns enfeitavam o couro onde se acomodam as pedras. Outros pintavam o cabo de preto, pra dar um ar mais fatídico. Alguns colocavam duas borrachas a mais, pra aumentar a força de arremesso. Tal qual os melhores atiradores do velho oeste americano, cada qual queria ter uma arma melhor.  
E esses melhores atiradores eram famosos, respeitados e admirados. Eram áses. Pra não cometer injustiças, vou citar apenas três, como forma de homenagear todos os outros: O Trulita, o Pomba e o Ermilson. Eram exímios atiradores. Andar com eles pelo mato era garantia de caça bem sucedida. Andei muito com o Ermilson, os outros lembro de ouvir falar.
Eu mesmo nunca fui bom naquele negócio, matei alguns joões-bôbo, algumas maria-moles, algumas almas-de-gato, anum nunca, porque dava azar, enfim, somente os bichos mais lerdos.
Minha maior façanha foi, depois de ficar um tempão de tocaia escondido no canto da casa, esperando um pica-pau pousar num pé de mamão, acertei o bicho e ele caiu ao chão. Mas não o acertei mortalmente, apenas quebrei uma de suas asas, assim o pássaro nem morria nem conseguia voar. Ah se arrependimento matasse..., passei horas sem saber o que fazer dele, pois não tinha coragem pra terminar o serviço. Nem lembro que fim levou...     
Os mais preparados já levavam enrolada na cintura uma cordinha comum. Mas os mais caprichosos levavam uma cordinha feita da palha do buriti, feita à mão, confeccionada pelo próprio caçador. Essa era a autentica. Essa corda se destinava a amarrar as caças abatidas pelo pé, de forma que ia se formando uma “enfieira” de passarinhos
_ paixãozinhaaa...paixãozinhaaa...
Acordei. Era minha mulher me chamando pra ajudar os meninos a fazer a tal baladeira de cabo de alumínio, pois eles não conseguiam sozinhos.

Abraços

Juarilson Azevedo

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