Há tempos que eu observava aquela linda casa na copa da árvore. Sempre que passava por ali, e isso não demorava acontecer, eu me perguntava: cadê ele?
Naquela região de cerrado baixo, bem antes do Môrro do Augustinho, a gente passarinhava sempre, pois era abundante a passarada. Passávamos também procurando por alguma vaca parida do tio Antônio, e às vezes passava acompanhando a Evinha, em busca de frutas, fosse oiti, ou pequi, ou passando pro brejo, em busca de buritis. Mas ele nunca estava lá. Então concluí que ele havia abandonado a casa.
A árvore era uma sambaíba, de baixa estatura, casca grossa, tronco retorcido e folhas grandes e ásperas. Seus galhos não são muito resistentes, o que me causou certo medo, pois a casa estava situada em uma forquilha já próxima de sua extremidade.
Mas fui até lá e a arranquei, quebrando a ponta do galho. Levei – a pra minha casa. Não sabia eu, que ela não estava abandonada, é que seu dono, por ser excêntrico, não usa a mesma casa por duas temporadas seguidas, promovendo sempre um rodízio entre duas ou três casas. Seu dono era um joão-de-barro, e havia milhares deles nos sertões de Araguacema.
Inteligente e trabalhador, o pedreiro da floresta constrói sua moradia em forma de forno, misturando palha, estêrco seco e barro úmido. Ela é dividida em dois compartimentos, ou seja, em quarto e sala. A porta permite que o pássaro entre sem se abaixar e está sempre virada para o norte, impedindo assim, que o vento atinja seu interior, o que ajuda a proteger seus ovos e posteriormente seus filhotes.
Construída entre 18 a 30 dias, a bela ave, faz entre 500 e 2000 vôos diários carregando o material necessário. Suas paredes tem até 05 cm de espessura. Um espetáculo da natureza.
O joão-de-barro, de nome científico Furnarius rufus (furnarius em referência ao formato de sua casa, forno, e rufus, por causa de cor de seu dorso), famosa em todo o Brasil, é também bem conhecida no exterior, na Argentina, por exemplo, é considerada “ave de la pátria“, e é conhecida por hornero.
A primeira providência de um joão-de-barro adulto, é arranjar uma companheira, a joaninha-de-barro, que o ajuda na construção da casa, mas isso não é constante, e na difícil missão de incubar os ovos e alimentar os filhotes.
Quando assumem compromisso, é pra vida inteira. Cantam juntos todas as manhãs e todos os fins de tarde.
O João de Barro pra ser feliz como eu
Certo dia resolveu
Arranjar uma companheira
Toda manhã o pedreiro da floresta
Cantava fazendo festa
Pra'quela que tanto amava
Sim, vivem sempre em casais que nunca se separam. Alimentam-se juntos, revirando folhas à procura de cupins, formigas, etc... ou debaixo de troncos caídos, em busca de minhocas.
Chegando, acomodei a casinha de barro, em um cômodo que usávamos pra guardar brinquedos. Pensava eu em pintá-la e presenteá-la à minha mãe, pois ficaria muito bonita ornamentando a sala de estar. Quanta ingenuidade.
O lindo e famoso pássaro, ave símbolo de um país, embora seja a Argentina, vai, já teve sua vida cantada em verso e prosa muitas vezes, sendo a mais conhecida, uma canção que foi eternizada nas vozes de Tonico e Tinoco, e é cercado de lendas. Uma delas diz que, se o macho for traído, pode se vingar fechando a porta da casa com a fêmea dentro, condenando-a a morte, por isso que um trecho da música diz:
Mas quando ele ia buscar o raminho
Para construir seu ninho
O seu amor lhe enganava
Mas nesse mundo o mal feito é descoberto
João de Barro viu de perto
Sua esperança perdida
Cego de dor trancou a porta da morada
Deixando lá sua amada
Presa pro resto da vida
Particularmente, prefiro outra lenda, que conta, havia um homem chamado João, muito bondoso, fazia casas de barro e capim, na posição correta, virada sempre para o nascer do sol. Tão bondoso que não cobrava para construí-las. Certo dia, Deus o levou pra perto de si, deixando todos em prantos aqui na Terra. Como o desespero era grande, para consolar-nos, Deus criou o joão-de-barro, e ensinou-o a construir suas casas do mesmo jeito.
Mas o sossego daquela casa eu já havia estragado, pois havia retirado-a de seu endereço original e não tinha feito nada do que tinha planejado.
Passados alguns dias, estávamos eu e o Tom debaixo dos flamboyants da Praça da Independência, brincando de Zorro X Sargento Garcia, (eu, o Zorro...), usando os faveiros negros e secos, como espadas, quando o feri mortamente na barriga (um arranhãozinho de nada), e... o tempo fechou!
Disparei na carrêra na direção da casa de Elias Bosaipo e ele atrás, pega, num pega, mas teve que frear na porta, porque lá “a conversa mudava”. Fiquei por lá, protegido, e ele voltou faiscando...e foi direto para o cômodo dos brinquedos. O que ele fez, pra se vingar? Levantou a casinha do joão-de-barro acima da cabeça e pummm... foi pedaço pra todo lado.
Quando cheguei de volta e vi o estrago, fui atrás dele, e então foi a vez dele correr... disparou em direção a casa da vó Chiquinha, descendo ali pela Couto Magalhães, mas eu achei um caco de telha, então, calculei a velocidade do vento, calculei o “efeito”, e arremessei... rapá, o resultado você pode conferir quando estiver em sua companhia, observe bem no alto da testa, um pouquinho pra direita, a cicatriz... no momento que ele olhou pra trás tentando ver que distância eu tava, o caco chegou... Pobre joão-de-barro...
JUARILSON AZEVEDO
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