segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A RAINHA JOANINHA

Zé Modesto
Julho de 1966. Araguacema se preparava para celebrar mais um aniversário. No início do mês eu recebi um ofício dos diretores de futebol Aldir e Maneco, em papel timbrado da Prefeitura, convidando a Codespar para uma partida contra o time de Araguacema no dia 28.
O sargento Modesto, que havia passado uma semana comigo para conhecer a empresa, voltou impressionado com o time de machadeiros, no qual teve oportunidade de jogar, estando lá, e transmitiu isso aos dirigentes da cidade.
Convite aceito, com muita honra, minha tarefa agora era preparar o time para o jogo e para a longa viagem de barco dos jogadores que não se continham de tanta alegria. Alguns deles, com seus apelidos exóticos, como Mata-Onça, Cochilão e Zanôio não se destacavam pela habilidade, mas pela velocidade com que conduziam a bola em direção ao gol.
O barco aportou na cidade, na véspera da festa, ao cair da tarde, e já estava lá na beira do rio toda a diretoria comandada pelo anfitrião Aldir que era de uma atenção insuperável na ânsia de oferecer o melhor, em refeições e alojamento, àqueles rudes jovens.
Dura tarefa para mim foi mantê-los em regime de concentração, até a hora do jogo, e para isso determinei a eles que não saíssem à noite, nem ingerissem bebidas alcoólicas, sob pena de não jogarem. O desejo de se mostrarem para aquela cidade desconhecida deles era muito maior do que qualquer outro prazer de momento.
Eu conhecia o alto nível dos atletas de Araguacema, com os quais havia jogado algumas vezes, mas eles só conheciam a mim, como jogador. Era natural, então, que houvesse um excesso de confiança deles, em relação ao nosso time e, por isso, eu ouvia, por onde eu passava, de jogadores e torcedores, sempre a mesma provocação: “vai ser uma lavada, hein Zé”!
Chegou a hora do jogo e as quatro linhas do campo estavam completamente tomadas pela população em geral. As traves eram de madeira bruta retirada da floresta e não dispunham de redes. O capim nativo já bem pisoteado fazia um precário papel de gramado.
Do lado de Araguacema havia um jogador, o Zé da Jandira, que inspirava cuidado redobrado porque era um craque habilidoso e decisivo. Neste aspecto o meu time levava a vantagem de ter quatro jogadores de padrão excelente, dos quais apenas a mim eles conheciam.
Intervalo de jogo e a Codespar já vencia por 2x0, com gols de Ribamar e Paulistinha. O time da casa, então, resolveu se reforçar com dois turistas de Belém, apesar de meus protestos, pois não eram filhos da cidade.
No segundo tempo a partida teve uma reviravolta com dois gols de Araguacema, provocando um empate que levou a torcida, já ensandecida, a empurrar seu time com gritos de “vai fulano, vai sicrano”, das mulheres, e de “quebra esse magrelo”, referindo-se a mim, de meus amigos Eduardo Coxeba e Raimundo Chofer.
Mas nada conseguia deter os constantes ataques dos machadeiros que eram parados com seguidas faltas e uma delas aconteceu no bico da grande área. Ajeitei a bola com carinho, enquanto se formava a barreira, tomei distância e meti uma rosca tão eficiente que a pelota fez uma curva rente à barreira e entrou no ângulo superior esquerdo.      
Daí em diante os da casa se descontrolaram e se desentendiam entre si, até que o Chico da Jandira foi expulso pelo juiz da partida, o Berilo, por seguidas reclamações. A torcida já havia se calado de vez, quando o gaúcho Paulo Muller, da Codespar, acertou um tirambaço da intermediária, vencendo o goleiro da casa e atingindo os torcedores atrás do gol, por falta de rede nas traves, selando assim o placar de 4x2 a nosso favor.
À noite os heróis do jogo estavam atônitos com tamanha glória para eles e deslumbrados com a imensa mesa farta de comidas e bebidas, organizada pela dedicação hospitaleira do Aldir.
Constava da festa a eleição da rainha da cidade que tinha como candidatas a Joaninha, garçonete do Hotel Araguacema, e uma das belas filhas do Raimundo (Mucuim) Queiroz, a Irene, cuja irmã Marlene, tempos depois, ainda muito jovem e bonita, cometeu suicídio.  
A Joaninha, que era baixinha, rosto pontilhado de espinhas e sem beleza corporal, não tinha a menor chance de vitória, diante da incontestável beleza da concorrente.
De um lado a Ivone se desdobrava na campanha em prol de sua candidata, pedindo votos aos hóspedes de seu hotel, chegando mesmo a me obrigar a assumir financeiramente a causa. Do outro lado a concorrente, muito bonita e segura de si, esbanjava confiança na vitória e contava ainda com o apoio explícito do prefeito Maninho.
A urna foi aberta e, à medida que a contagem dos votos revelava que a Irene estava à frente, a Ivone corria a mim e me intimava a comprar tantos votos quantos fossem necessários para que a Joaninha ultrapasse a concorrente. E assim seguiu a apuração, até que o Maninho jogou a toalha, permitindo, assim, que a Joaninha se elegesse rainha.
O que me levou a cometer essa afronta à beleza de uma mulher linda como a Irene foram dois motivos: a grande consideração que eu tinha pela Ivone e vingar-me daquela que nunca dirigiu um olhar que me desse alguma esperança. Hoje reconheço que ela tinha razão. Eu era muito feio mesmo.
A festa prosseguiu com o leilão de atraentes prendas, ricamente enfeitadas, como frango e leitoa assados. O leiloeiro era muito criativo na descrição das prendas e hábil em provocar o ego dos que tinham dinheiro, levando-os a se sentirem mais importantes do que eram.
Quem dava um lance era compelido pelo leiloeiro a não permitir que o outro arrematasse a prenda e, nessa disputa de egos diminuídos, uma prenda de pouco valor era arrematada por um preço astronômico. A Paróquia agradecia.
O arrematante tinha seu momento mais prazeroso, nessa disputa de egos, quando o leiloeiro , depois de demoradas ameaças para bater o martelo, gritava: “... e dou-lhe três. Pode entregar a prenda ao fulano”. Ele, então, com ar amistosamente provocativo, mandava que a prenda fosse entregue na mesa do vencido. Para mim isso era um jeito novo de brincar e ajudar.                  

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

JURACY - SALTA-CHÃO


Vag-Lúcia Borges

Pois quem nao sabia
Agora vai saber
Que  esse apelido
De um “acunticido” apareceu!
Nos anos de 1969-1971 – nao me lembro mais a data exatamente.
Foi organizado um baile no “Club Social de Araguacema” e fazia parte da programaçao um concurso de” Dança Ieieiê” categoria “Pares”.
Havia muitos pares – somente me lembro da Amália  Alencar e do Raimundinho Queiroz
Do Juracy com sua parceira de dança Livia Maranhao.
A mesa de jurados era composta entre outros pelo  Sr. Edson Maranhao Duarte , Nonato Santos e Cesário Borges Souza meu pai.
Eu como sempre enganchada no meu pai.
Tudo começou , para cada par havia um número,  sendo para Amália e Raimundinho o  Nr.2 ,  Juracy e sua  parceira Nr.3.
Eles começaram a dançar, e eu observei que as pessoas riam.
Meu pai que era sisudo, cuxixava com o Seu Edson e riam baixo.
Eu torcendo (atrás do meu pai) arrojada para o par número 2!
Lembro-me que o Juracy dava tantos pulos pelo salao e eu sem achar nada de  bonito a forma como ele dançava!
Eram pulos e mais pulos,  os mesmos  arrendondados com  piruetas. 
Terminou tudo e começou a votaçao!
Meu pai  e Seu Edson entrando em acordo secretos ( nao dava para eu ouvir)
Eu jurando que o meu pai votaria no número 2 – continuei firme e  forte agarrada no colarinho da sua camisa e dizia –“Pai escreve logo o número 2”!
Meu pai nem me olhava e pensativo , arrancou a sua “ pena de ouro”- uma caneta Parker -do bolso da camisa, pegou o pedaço de papel, enrolou em círculos pelo ar e escreveu para a minha decepçao o número 3!
-Naaaaoooo - gritei!
Tarde demais!
Ele  entregou o papel dando uma piscada de olho e um sorriso de concordância para  o amigo Sr. Edson,  ignorando ao  meu apelo.
Fiquei com muita raiva e briguei o tempo todo com ele.
Daqui a pouco saiu o resultadoSabe quem ganhou o concurso de dança?
O número 3!
Qual nao foi a minha decepçao….
Nao conseguia entender, como era que alguém que só deu pulos pelo salao podia ganhar um concurso de dança!
Pois é …. Nessa mesma noite premiou-se um dancarino e consagrou-se um apelido  que hoje conhecemos  e amamos.
Juracy amanheceu o dia com apelido de “Salta-Chao”!
Diante de tanto carinho do povo por  ele
Chegou-se mesmo  ao termo reduzido, o que nos é peculiar
E hoje para os íntimos ele é apenas “Salta”- sem altos nem baixos. 
Um salto e um beijo ao meu grande amigo “Salta-Chao”!

Vag-Lúcia Borges

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

PRA QUÊ?


Vag-Lúcia Borges

No seu lugar simples, lá no sertao
A sua roça, seu reinado cor de prata.
Ouro nao tinha.
Tudo simples, transparente como o seu ser.
Dona da sua criaçao, do capinzal
Plantacao de milho, alimento para os seus bichos.
Mulher do campo, sem muitas juras, prosas
Vivia de luas, contava estrelas
Apreciava o nascer do sol
Dormia como anjo e protegia-se da dor
De esperar, sem ter pra quê!
Acordava sem saber onde estava
Desatordoada, levantava-seIa até ao fogao e acendia as lenhas
Na chaleira a água pra coar o café.
Olhando as suas crias,  pensava como tudo muda...
Subia no curralEsperava a lua ir e o sol nascer
Ali sentada
Queria tocar nas suas lembranças
Transportá-las para o presente
Nao, nao podia!
Eram somente lembranças...
As mesmas nao se concretizariam no “agora”
No agora, tudo é  diferente
Além do mais, pra quê?


Wozu?

Vag-Lúcia Borges

Einfach, ihr Ort, dort in der Steppe
Ihr Feld, ihr silbern schimmerndes
Reich Kein Gold.                         
Alles einfach, übersichtlich wie ihr
Dasein Herrin ihrer
Schöpfungen: der Wiese,                                   
Der Maispflanzung,
Nahrung für  ihre
Tiere Frau vom Lande, ohne viel Worte, ohne Geschwätz                    
Sie lebte mit dem wechselnden Mond,  zählte Sterne                                                 
Genoss  die Geburt der Sonne                                                  
Schlief wie ein Engel und hütete
sich vor dem Schmerz,                                                                                    
Zu hoffen ohne ein Worauf!
Sie wachte auf, ohne zu wissen, wo sie war
Verwirrt erhob sie sich                          
Ging zum Herd und 
zündete das Holz an                                              
Im  Kessel das
Wasser für den Kaffee   
Sie sah ihre Geschöpfe, dachte, wie alles sich ändert 
Ging hinab zum Stall                          
Wartete auf das Verschwinden des Mondes und den Aufgang der Sonne
Dort saß sie                                                                      
Wollte ihre Erinnerungen berühren
Und in die Gegenwart ziehen           
Nein, sie schaffte es nicht!                                                             
Es waren nur Erinnerungen.....                            
Dergleichen wurde nicht wirklich im "Jetzt"
Im JETZT ist alles anders
Ohne zu fragen, Wozu?


PATÚ

Vag-Lúcia Borges

Quando soube que tu vinhas
Qual nao foi a minha surpresa
Nao me contive
Nao acreditei.
Meu coracao acelerou
Meu corpo estremeceu
Levantei-me pra respirar
Nao podia ser em mim
Uma revolucao de reacoes físicas foram causadas pela ânsia da tua presenca
Eu me senti, sentindo o que já havia esquecido
Nao me lembrava mais
Corri feito louca, abri a porteira
E me debandei pelos pastos
Pés descalços, descabelada, suada, saí cortando o matoLevando surra de cipó
Corpo riscado, arranhado de dor...
Depois acalmei-me.
Sentei-me e passado muito tempo joguei-me nas águas frias do córrego
Ali refresquei os meus pensamentos
Ali pus “modos” na minha euforia
Busquei acalanto na natureza toleranteEntreguei-me.
Desisti de segurar a minha alegria de querer te rever
E banhei desnuda a minha saudade ...

Vag-Lúcia Borges
 
O nome PATÙ= Prá ti -  é em homenagem ao meu sobrinho Pedro Estevan – que quando tinha três anos de idade e com uma nota de 1R$ na mao, convidou-me : “Tia, vamo tomá sovete, eu pago pá tu”!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

LUIZ RUBIATABA


Juarilson

Sentado estou na sala de espera do cartório da Ionize, enquanto ela dá os acabamentos finais num certo documento. A cidade é Dueré, e espero pelo entrada do Luiz no recinto, pra ver como vai transcorrer a conversa dessa vez. Sim, o cara é uma surpresa ambulante. Logo ele chega, mas com o braço direito segurando o esquerdo, que está meio dobrado, encostado ao peito, como sempre, vai logo disparando mais uma. Olha pra esposa, Ionize, e avisa: muié, num diz que esse negócio de dor no braço, é sinal de infarto? Tô com uma dor nesse braço que nunca vi...tá dando aguiada, choque, tá virado no cão...

_e tá formigando? Pergunta a Ionize._tá tudo...

Nisso entra na conversa a simpática profissional que trabalha junto a Ionize:

_né nada não, mínimo, infarto tu num dá, tu num tem coração, tu tem é moela...

Eu já pra mijar de tanto sorrir, não consigo falar nada. Só a cara que o cara fazia já era demais.

_vai pro hospital criatura... vai logo. Diz novamente a Ionize.

_tá bom... eu vou (pausa) mas vou logo avisando: seu eu morrer, quero que no meu velório vocês cantem aquela música que eu gosto.E a secretária pergunta:

-qual?

Ele responde bem alto, já se encaminhando pra porta:

_AGRUDAAA NA MÃO DE DEUS, AGRUDAA NA MÃO DE DEUS...

Não aguentei, sorri até chorar.
Gente isso foi agora há pouco, e o Luiz e a Ionize estão recebendo cópia deste email, que vos envio.

Abraços

Juarilson

AGUENTA CORAÇÃO!


Leila

Araguacema, a cidade mágica, de gente que como os magianos do portal do Magia de Lembrar Intermináveis amam cada segundo vivido ali, até os maus momentos se tornam ternos quão grande esse AMOR. No meu dia a dia me relaciono com pessoas de várias cidades, também de outros  estados  e nunca ouvi alguém citar algo semelhante como o que acontece aqui no Portal ... e atrás das cortinas estão muitos ,não participando do Portal Magia de Lembrar Intermináveis na escrita, mas absorvendo,  com muito amor o que vocês repassam ...  Magianos vocês estão de parabéns, o que posso sentir, imaginem aí,  é que apesar das diferenças de gerações vocês formam um enorme coração sob o céu de Araguacema, foram juntando pedacinhos que cicatrizou, apesar das emendas ele bate o "tum tum" em um só compasso, cobre e esparrama chuvas de carinho sobre toda a cidade de Araguacema. Muito obrigada a todos vocês!  Leila (irmã da Zeila)

domingo, 9 de outubro de 2011

NOSSA TERRA, NOSSO RIO ARAGUAIA


Vag-Lúcia Borges

Nosso céu, nossas matasRaios de sol refletem sobre as águas dos nossos riosAr puro que exala e perfuma A natureza divina que encantaUm lugar escondido “entre serras de um azul tao lindo”...Solo pisado por bichos só nossos conhecidosRios nadados por peixes que só nós conhecemos os seus saboresAres voados por pássaros diversos, só nossos tambémE que só voam para nós... Nesse lugar se chega, mesmo sem se saber comoMesmo sem antes  se ter conhecido o rumoPerante a beleza pura dessa face e da fortaleza desse corpo sadioA divina mistura da fórmula mágica e inspiradora do Rio AraguaiaQuando apreciada e bebida, embriaga os sentidos Sublimes sao os desejosO inexplicável acontece, Nascem paixoes e segredos  que sao aqui perpetuadosO” tudo” acontece “do nada”.Aqui chegamos “no nada”, puro engano, “o tudo” é aquiIntriseco na natureza linda desse lugar!


Vag-Lúcia Borges

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

BAR COPACABANA


Zeila Oliveira

Parada  na esquina dos meus pensamentos, entrei nas ruínas do Bar Copacabana e fiz uma grande viagem pelo túnel do tempo que como numa nave espacial, me transportou aos  anos 80.

Embalada pelo som de Cindy Lauper " Grils just Want to have fun" a mais tocada nas paradas de sucesso naquela altura.  No meu relógio Champion de pulseira rosa choque, marcavam 22 horas. A pista de dança ainda estava vazia, mas a Aristéia e a Maria Mosquitinho ja estavam lá, dançando freneticamente.

As mesas enfileiradas aguardavam pacientemente a chegada dos jovens que ora sozinho, ora acompanhados, vinham alegremente compor aquele lugar.

Não demorou muito tempo e eu ja estava rodeada deles, Joselena, Neyre, Vag-Lan, Cesário Borges, Chiquinho, Zênio e outros que pouco a pouco vinham se juntar a nós formando uma grande mesa.

Do lado de dentro do balcão, estavam seu Zacarias, sempre com um grande sorriso, fazendo reluzir seu dente de ouro. Lúcia e Lígia no atendimento,  Luís Alberto como DJ e Luiz Neto correndo de um lado para outro atendendo gentilmente às mesas. Luciley como sempre não estava lá, estava na mesa do cantinho, com o Pedrão do Alcebíades. Lucy não sei onde estava, mas sei que estava com o soldado Morais.

A noite prometia!!!! O Bar Copacabana era a sensação do momento!!! Lugar de alegria, descontração, bate-papo, de encontros e também desencontros.

Como todas as grandes discotecas, o Bar Copacabana também tinha sua variedade de drinks, preparados por Ligia e Lúcia, que estavam sempre em busca de novidades para agradar a sua clientela,  mas o Chiquinho  pediu logo uma branquinha para esquentar. Cesário também foi fiel ao seu velho costume e pediu uma cerveja geladinha, e ainda fez questão de dizer: - vestida de noiva! Vag-Lan e eu batemos de cuba-libre, pois gostávamos de ser os moderninhos do grupo. As meninas comportadas, Arlene, Leida, Leila, Nelma, Neyla, Neyre e Joselena pediram água tônica.

Vag-Lan ja naquela época, apaixonado por economia e ciências políticas, explicava sobre as eleições indiretas disputadas por Tancredo Neves do PMDB contra o candidato do regime militar Paulo Maluf do PDS, e de rumores do plano cruzado. Cesário Borges falava de Bossa Nova, MPB, sobre o cometa Halley e de uma música de sua autoria "Halley" em homenagem ao tal cometa, Dalat falava sobre as Olimpíadas de Los Angeles, Zênio só falava em azarar as gatinhas, e as "patricinhas" falavam de melissas de tirinha, meias soquetes com sandálias dancin' days, all-star cano longo e suas variedades de cores, ombreiras, calças de cintura alta, calças baggy, legging, batom 24 horas e coisa e tal e tal e coisa...

E nesse clima gostoso, nem vimos o tempo passar...

Ja eram duas da manhã, e agora era a vez dos apaixonados que inspirados por Empty Gardem, do Elton John, faziam juras de amor eterno e sussuravam palavras de amor ao pé do ouvido, outros se beijavam voluptuosamente, aproveitando a luz negra que também era uma novidade naquele tempo. Faziam parte deste cenário apaixonado: Isidória e Dalat, Lauro e Raquel, Pedrinho e Aurievan, Suzete e Gomes, Paulinho e Sheila, Toninho e Ivaneis, Tuíca e Carmem-Lucia, Lígia e Ney e outros casais que se amaram loucamente, mas que por razões particulares não estão juntos hoje.

No intervalo da música ouço a voz do seu Zacarias no microfone dizendo assim: - Atenção Lígia! Atenção Lígia! Sua presença está sendo reclamada aqui no balcão....

Inebriada por meus pensamentos, revivo cada momento como se fosse agora... quanta alegria existiu naquele lugar, quanta emoção vivemos alí, quantas paixões, quantas vezes nosso coração bateu forte por alguém, quantos flertes, quantos olhares 43, quantos amores vividos, quantos amores começados e outros terminados. Quantas vezes dançamos com a alma, quantos bailes de carnaval, e as gargalhadas... ainda posso ouvir os seus ecos... quanta coisa boa! Quanta! 

O aroma dos perfumes de patchouli, absyntho, sweet honesty, ópium, maçã verde, musk, se misturavam no ar, formando um só cheiro que continua gravado na minha memória.... e os beijos com halls de uva verde, menta, cereja!!!!.... ah, minha juventude de tantos perfumes, de tantos amores, de tantos sabores, sonhos, sons, carinhos e flores... a juventude passou, o Bar Copacabana tombou, mas o perfume, as lembranças e a saudade essas ficarão para sempre nos nossos corações.
 Com os olhos marejados de lágrimas ouço uma voz  suave me chamar: - Zeila, vamos!!!! É hora de almoçar. Era mamãe me trazendo de volta da minha viagem.

O QUE UM DIA FOI FESTA HOJE SÃO RUÍNAS!!!!!


Zeila Oliveira

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

REFLEXÃO SOBRE O MINGAU DE ARARUTA



Vag-Lúcia Borges

QueridoLiberato,

muito obrigada por tuas palavras.

As mesmas despertaram-me um novo sentimento  com relaçao ao texto do Juarilson : MINGAU DE ARARUTA
Pra comer só havia:
"...Farinha com óleo e cebola, peixe, pequi e carne de preá ou periquito"- nada engraçado .

Fiz um comentário brincalhao abaixo, mas depois de ler as tuas palavras , analisei o texto de forma diferente à anterior.

Através dos escritos de muitos aqui, posso saber de fatos que aconteceram e sobre os quais eu nao tinha  conciencia.

Na verdade este texto sobre o " Mingau de Araruta "nao foi escrito para se rir e se ter belas lembrancas
Juarilson retrata  e elucida aqui de uma maneira bem informal uma situacao sócio-política.
O texto mostra a estrutura da nossa política e economia  da época como também a hierarquia da nossa sociedade
Constata o índice de desemprego local , a situacao de pobreza que viviam muitas famílias de Araguacema e o fato de nao terem o que comer
como também o fato de viverem sem receber uma ajuda governamental - o que chamamos  hoje  de "cesta-básica".

Vendo dessa forma, o autor mostra de forma brilhante nas entre-linhas uma situacao de emergencia e desespero.

Quando vejo a situacao de alguns países da Africa e India, sempre falo que nunca vi pobreza ou fome em Araguacema.
È verdade , eu nunca vi lá uma porbreza de me cortar o coracao  como criancas pedindo esmola, com corpos esqueléticos
De certa forma temos o Araguaia que alimentou e alimenta muita gente, uma grande dádiva pra nós - mas havia pobreza e isso mesmo agora me dói.

Juarilson,  preparou bem o "Mingau de Araruta" - espero ter chegado para todos nós. 
Depois deste texto  e se cada um fizer uma reflexao aguçado sobre o mesmo
vamos precisar do Mingau para  nos fortalecermos.

Grande escritor, pesquisa com entusiasmo e escreve com sensibilidade.

Muito obrigada e continua assim!


Vag-Lúcia Borges

P.S - Nao esquece de melhorar a cada dia!! kkkkkkk

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A BALA DOS HOMENS


Tom Lyra

A arma, um revólver calibre 38, bem pesada, é empunhada e seu detentor efetua dois disparos. O primeiro atinge a professora, a quem devia todo respeito, é a mestra. A vítima estava de costas quando alvejada, felizmente está viva. Depois de evadir-se do local do crime, o “criminoso” (digo-o com máximo pesar) atenta contra a própria vida, efetuando o segundo disparo, acertando a própria cabeça. O revólver fora tirado de casa, sem a permissão do verdadeiro proprietário. O personagem principal deste fatídico enredo? Não foi um adulto, o que já era de se lamentar. O ato foi perpetrado por uma criança, um menino de 10 anos, o que me faz questionar muita coisa.  O que leva uma criatura de 10 anos a atirar em alguém e depois dar cabo à própria vida? Por mais se tente explicar, a perplexidade me impossibilita, como pai, cristão, cidadão, de fazer juízo de imediato. Delito cometido por quem ainda, em tese, não tem maldade no coração. Teria sido a criação dos pais, visto que o pai é policial? Certo é que o Brasil está violento, bem sentimos na pele. Teria sido esse ato influenciado por eventos do gênero lá fora? Até em nações desenvolvidas como a Noruega episódios aterradores estampam as manchetes dos noticiários, como é o caso do atirador que abriu fogo contra jovens e matou 92 pessoas. Presentemente, na Líbia, na Síria e no Iêmen, além do Paquistão, matam a três por quatro. Mas, como um menino 10 anos matar desta maneira?   Creio, acima de tudo, estar faltando Deus no coração da Humanidade. Esse Deus único que tenho descobrindo aos poucos e que tem feito tanta diferença na minha vida, bom, justo e poderoso, está conosco, mas nós nos distanciamos dele e eu me incluo ai neste afastamento  algumas vezes no meu passado. E a falta dele nas nossas vidas, no nosso cotidiano, tem criado esse tipo de caos. Sim, creio esteja faltando Deus no fazer diário da Terra. Falta mais fraternidade, solidariedade entre todos. Falta mais amor. Se mais amor houvesse entre as pessoas, os motivos de brigas, ódios e desavenças desapareceriam. É o que penso, humildemente. Quando Cristo disse: “Amemo-nos uns aos outros como eu vos amo”, fizemos do mandamento uma letra algo morto. Se nos amarmos verdadeiramente, como o Cristo nos ama, menino como eu e o Juarilson fomos  em Araguacema é só pra dar vida e alegria à Humanidade.


Tom Lyra

MINGAU DE ARARUTA


Juarilson Azevedo
  
Sentada em frente a casa que morava, Josefa alimentava seu filho. Depois de colocar o mingau no prato esmaltado, ela pegou um tamborete de couro, e sentou debaixo do jambeiro. Habitualmente usava a sombra daquela bela árvore para passar as horas, cochichando com a vizinha, a fofoca do momento. Araguacema é uma cidade bem pequena, e como em todas as outras, as notícias se espalham rápido, de boca a boca.
   Josefa era uma simples dona-de-casa, que, grávida de 04 meses, tinha vindo com o marido trabalhar em uma fazenda no estado do Pará. Aliciado pelo “gato”, seu marido Miguel, havia acreditado em promessas não cumpridas pelo patrão, e quando deu por si, já havia se tornado um escravo, não recebendo por aquilo que fazia, então, desgostoso, conseguiu fugir e veio parar em Araguacema, na intenção de conseguir dinheiro e voltar para sua cidade natal, Carolina, no Maranhão.
   Mas, só tinham as roupas do corpo, já que os poucos apetrechos que tinham tiveram que ser deixados pra trás. Em Araguacema, não tinham trabalho, não tinham onde morar, não tinham o que comer... estavam mais perdidos que filho de puta no dia dos pais.
    Um benfeitor, condoído com a situação difícil daquele casal, emprestou a casa de pau-a-pique, coberta com palmeiras de buriti, na Rua dos Muricis. Miguel passou a fazer pequenos bicos, como capinar quintais, roçar pastos, consertar cercas, pra arrumar algum dinheiro, já que não conseguia emprego em Araguacema. Mas até os pequenos bicos estavam cada vez mais difíceis, e ele então, se voltou pro Araguaia, recorrendo à pesca, pra conseguir a mistura pra farinha de puba, e quando tinha, para o arroz. No início não conseguia muito, pois no rio Tocantins de sua infância, a pesca tinha aspectos diferentes do Araguaia, mas logo pegou o jeito e rapidamente ele começou a percorrer as ruas da cidade, com as infieiras de pacus, piaus, corrós e outros mais, gritando:
-óóó u peeixe...
Tornou-se concorrente do Evandro, de “seo” Inácio, do Inadizinho e de outros tradicionais pescadores locais.
Logo desenvolveu uma artimanha: separava os mais graúdos, e ficava gritando sua propaganda sem se afastar muito da casa do cliente, ia e voltava na mesma rua, até vencer o escolhido pelo cansaço. Sua clientela era grande, tinha o Abílio do cartório, d. Ivone, o Laranjeira da farmácia, o Onildo Cunha, o Elias Bosaipo, o Aldir Lyra, o Sandoval Simas, o Antenor Barreiras, o Juarez Dentista, o Pedro Mota, entre outros. Com esta clientela tão ilustre, conseguiu até sua própria canôa, que mandou fazer de um grosso landi, retirado nas matas do Pará. E Miguel ainda separava as patacas, ladinas, caris, e outros peixes menos nobres, pra comer com sua Josefa.
   Mas, infelizmente depois de algum tempo, a pesca não estava bôa. Os cardumes estavam sumindo, já dando sinais de que a natureza não estava conseguindo se recuperar da ação predadora do homem. Além disso, Miguel começou a beber e muitas vezes, ia pescar mas adormecia dentro da canôa, embriagado. Em consequência, o alimento começou a faltar em casa, pois ele começou a sentir se fracassado e o pouco que conseguia, começou a gastar com cachaça. A última infieira que vendeu, pro Marcos da Amujaci, só deu pra uma garrafa de Tatuzinho, que comprou na venda da Madalena.
   Logo Josefa percebeu que não podia contar mais com o marido, e se pôs a trabalhar fora. Virou lavadeira de roupas na casa dos mais abastados. E foi se virando, aplicando no dia a dia, as artimanhas que o nordestino tem, pra sobreviver no semiárido. A lenha pra cozinhar coletava no cerrado ali perto. Do pé de abóbora, nascido sozinho no munturo, colhia os brotos e fazia a cambuquira. Depois, a abóbora cozida virava lanche, misturada ao leite. As folhas da vinagreira, nascida no pé da parede, era consumida como salada do almoço. O pequi colhido lá pras bandas do morro do Agustinho, era a carne da janta, que dava a sustância necessária ao vigor.
   Na casa de d. Anália, Josefa aprendeu a fazer tapetes de retalhos. Logo se dedicou a confeccionar esses tapetes, pois a venda deles lhe dava um dinheirinho a mais. Conseguia doações de retalhos com d. Belinha, na Confecções Simas, e com Emília Bosaipo, na Casa Oriente. E passava os finais de semana inteiros, alinhavando os retalhos coloridos, alternando cores, para que o tapete ficasse o mais bonito possível. 
   Já era final da década de 70, e ela não podia contar mais com Miguel, que havia se entregue ao vício do álcool, e ido embora de casa, deixando a sozinha com o filho.
   Naquele dia quente de agosto, debaixo do jambeiro, Josefa alimentava o pequeno Raimundo Nonato, com mingau de araruta. Com movimentos circulares, pegava pequenas quantidades com o dedo indicador e colocava diretamente na boca do menino, agora já com quase 03 anos.
   Muito fácil de fazer, o mingau de araruta, era muito consumido na Araguacema da minha infância. Barato e nutritivo, era dissolvido uma porção daquele pó branco com leite, depois levado ao fogo. Só não pode deixar de mexer, pra não embolorar. Alguns adicionam um pouco de açúcar, outros, canela.  Depois é só esfriar.  Josefa não tinha dinheiro pra Neston, pra Farinha Láctea ou outros alimentos industrializados, então, a boa e velha araruta, ajudava a criar o filho.
   Dia desses, conversando aleatoriamente com amigos, um soltou a pérola:
-toda araruta tem seu dia de mingau.
   Lembrei-me na hora do mingau de araruta, e o quanto era utilizado. Porque a gente vai hoje ao supermercado e não encontra facilmente o polvilho de araruta, apenas o polvilho de mandioca?
   Lembrei- me logo, de como fui criado, das coisas simples de minha terra, que hoje quase não se usa mais. E me perguntei o porque. O azar da Maranta Arundinacea, a araruta, é o  capitalismo selvagem. O motivo maior é a baixa rentabilidade na produção, pois de cada 100 kgs de araruta, consegue se extrair apenas 20 kgs de fécula. Com a rejeição da indústria alimentícia, os agricultores ficaram desestimulados a planta-la, e a lavouras sumiram. Com isso, o setor de pesquisas também desistiu, inviabilizando o surgimento de novos maquinários que facilitem a produção, pois atualmente o processo é lento já que as raízes devem ser lavadas, raspadas, lavadas novamente, moídas e separadas do bagaço. Depois, o processo continua com a secagem até o produto final, a fécula, que é um pó branco.   Em um texto da Seagri baiana, intitulado Poderosa e Vitaminada, onde colhi informações, o pediatra Antonio Sturaro, de Salvador, declara que a prescreve pra quem tem problemas digestivos. Hoje sabe-se também que ela é indicada pra quem tem restrições alimentares ao glúten. Pois é, além de tudo, ainda é medicinal.    Ah, em tempo, Josefa conseguiu criar seu filho Raimundo Nonato, educou-o através do Colégio Municipal Frei André Quinn, casou se novamente, teve mais filhos e viveu até a velhice na querida Araguacema, onde veio a falecer. De Miguel não se teve mais notícias.   Certas estavam nossas mães. Viva o mingau de araruta.

Juarilson Azevedo

QUANDO O PRANTO SE FEZ CORDEL


ZEILA, VAG E MARLY

Zé da Codespar
Chegou para nos alegrar
Trazendo na bagagem tanta coisa boa pra contar
Com Araguacema como Paixão e o Araguaia como sepultura
 "Il m'a bouleversée" 
Como a gente diz em francês
E durante três dias
Minha emoção eu não conseguia conter
Eu chorava pra esquecer
Esquecer a dor da tragédia
Que ele e sua família  vivera
Esquecer o acidente com o monomotor
Que nos causou imensa dor
Eu queria pensar só na beleza
De tudo o que ele escrevera
Pensar em Araguacema nos anos 60
Na sua mais pura essência e singeleza
Digo e não me precipito
Zé é um verdadeiro erudito
Um homem de profundos e vastos conhecimentos
Que chegou para acrescentar
Zé da Codespar era tudo que faltava
 para completar o MAGIA DE LEMBRAR.


Zé, as poetisas do Magia de Lembrar são Vag e Marly, mas receba minha modesta homenagem como forma de agradecimento por tua rica contribuição aqui neste espaço que se chama Magia de Lembrar e que agora também é seu.

Um abraço carinhoso

Zeila