sábado, 19 de novembro de 2016



O SUPREMO PROÓSITO DE DEUS
Para conhecermos este propósito, é necessário, antes de qualquer comentário, sabermos de que deus estamos falando, uma vez que a humanidade cultua uma infinidade deles e cada segmento religioso tem sua escritura, da qual retira as normas e leis, ditadas, suspostamente, pelas respectivas divindades, a serem observadas por seus seguidores.
Mas, como ter certeza de que essas divindades existem, se jamais alguma delas foi vista, bem como nenhum de seus seguidores ressuscitou para nos contar?  Ou, caso existam, mesmo não podendo serem vistas, como saber se elas são dignas da fé de multidões, para atender seus pedidos de milagres, como também crer em suas promessas de vida eterna?
Para uma resposta cabal e convincente, aos que creem na Bíblia, temos que partir do ponto em que o Espírito Supremo, criador de todos os espíritos celestes e humanos, teve que exercer sua autoridade de Pai para castigar a obra prima de toda sua criação, o homem, por desobediência, exigindo que ele passasse a trabalhar para sustentar sua descendência com o fruto de seu suor, fora do paraíso onde habitava.
Naturalmente, o homem nunca se conformou em estar longe do Pai, sofrendo todo tipo de doenças, provações e o cansaço decorrente das labutas pela sobrevivência, que passaram a fazer parte de sua vida, agora finita, já que era eterna. A saída dos hebreus do Egito, rumo à sua Terra natal, de onde foram expulsos pela seca, como um instrumento de Deus, é uma figura da jornada que enfrenta a humanidade, muitos em busca de um lugar metafisico de descanso e outros sem destino nenhum, porque escolheram crer no nada. Nessa peregrinação, que durou 40 anos, rumo à Terra prometida, a mão sobrenatural de Deus agindo através de Moisés e as providências milagrosas diárias, nas provisões de água e comida, não foram suficientes para impedir as murmurações e a recorrência aos deuses egípcios, numa demonstração clara de que a punição divina, além de justa, ainda foi pouca.
Mas, mesmo desobediente e ingrato, a começar por Adão e Eva, o homem nunca deixou de ser o alvo do propósito supremo de Deus para tê-lo de volta, morando com Ele e com Jesus, no lar eterno. E o executor desse propósito é Cristo, conforme se vê em Efésios 1-11: “Nele (Jesus) fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade”.
Muitos entendem, erroneamente, que somente alguns foram predestinados para serem filhos, quando, na verdade, essa predestinação se refere à salvação, que é oferecida a todos, sem exceção, mas nem todos a querem e, muitos, até a desdenham. Este, e nenhum outro, é o supremo propósito de Deus. Ou seja: ter de volta seus filhos, por meio de Jesus, para os quais criou todas as maravilhas contidas no céu e na terra, que será recriada conforme era, no início da criação, somente para agradar o novo homem, o filho transformado que nela viverá. Quem crer verá.
Nos primórdios dessa peregrinação do homem, sem um destino certo, a possibilidade de um guia para a jornada da vida era apenas uma promessa, mas digna de fé, porque foi feita em voz audível pelo Espírito supremo, conforme rotina usual, embora invisível, ainda que nos pareçam fantasiosos os relatos bíblicos sobre isso. No início Deus falava diretamente com os homens; depois passou a falar por meio de porta vozes, chamados de profetas e, nos últimos dias, fala por meio de seu Filho.   
Os judeus, porém, apesar de todas as evidências da vinda do Filho de Deus se cumprindo, conforme suas escrituras anunciavam, quando ele veio em forma de um humilde carpinteiro, não acreditaram e persistem em esperar pelo Messias prometido, em forma de rei para liberta-los do jugo romano da época. Então prosseguiram tentando aplacar o furor de seu Deus oferecendo sacrifícios cruentos de animais por seus pecados.  
Porém, mais grave do que essa rejeição, é saber que ele veio e, mesmo assim, continuar a repetir esses sacrifícios vicários sobre o altar, dia após dia, como os católicos, através do chamado Sacrifício da Santa Missa, onde o animal sacrificado, simbolicamente, é o próprio Cristo, cuja carne e o sangue são representados pelo pão e pelo vinho. É como se a vida de um animal sacrificado valesse mais do que a do Filho de Deus que, mesmo depois de ressuscitado, continua pregado em uma cruz em seus altares.
Diferentemente dos sacrifícios de animais, que eram comprados pelo pecador, Jesus não fez acepção de nenhum ser humano e derramou seu sangue por todos que aceitarem seu sacrifício, que não é mais vicário; representativo. É real.
A boa nova é que, pelo inexplicável amor de Jesus, nossos pecados, embora lhe causem tristeza e nos afaste dele, não são mais causa de morte eterna ou perda da salvação, como acontecia antes de sua vinda, porque a consequência do pecado, até a sua ressurreição, era a morte física. Quem descumprisse uma só, das mais de seiscentas leis, tinha que morrer, conforme mandava a lei: “a alma que pecar, essa morrerá” (Ezequiel 18:4). Os muçulmanos que descumprem uma das leis do Corão, inspiradas pela Torá, ou Velho Testamento, são punidos com chibatadas ou, conforme a gravidade, com apedrejamento, até a morte.
Então os que morreram em pecado, antes de Jesus, estão todos eternamente perdidos? Não. Deus, na sua infinita misericórdia, fez com que Jesus, estando morto, descesse ao lugar dos mortos e oferecesse esta extraordinária graça, bastando, apenas, que eles, os mortos, a aceitassem, como acontece aos viventes, desde o calvário de Jesus. Depois que morre, ninguém mais terá essa oportunidade de aceitar a Cristo, se não aceitou em vida. De nada valem rezas e penitências oferecidas a Deus, pelos que morreram, a fim de que sejam tirados desse lugar fictício, chamado purgatório. Muito menos existe a oportunidade de voltarem à Terra para se aperfeiçoarem, por meio da pratica de boas obras. Se fosse, pelo menos, para se redimirem de sua fé equivocada! Mas nem por isso haverá outra chance.
Se, ao morrermos, estivermos em pecado, que é o mais provável, pois na maioria das vezes, não há tempo para pedir perdão, vale o que Jesus disse várias vezes aos pecadores que dele se valiam: “a tua fé (em mim) te salvou”. Quem, afinal, pode se vangloriar de não ter pecado? A fé, tal qual uma semente, depois de semeada, jamais deixará de germinar, mesmo que a maior seca a castigue. Basta uma chuva para que ela rompa a terra seca e se transforme em vida e alimento para a alma sedenta.
A redenção vem pela graça de Cristo em nós. Não há nada que o homem possa fazer para conquistar a salvação. Somente Cristo pode nos conceder o perdão, pois foi ele o ofendido, e somente a ele devemos confessar nossos pecados.
O templo judaico se compunha de: átrio, lugar santo e o santo dos santos. No átrio ficavam os estrangeiros e pecadores que não tinham condição de comprar sua oferta de sacrifício, que podia ser pombo, cordeiro ou bode. O lugar santo se destinava aos purificados, graças ao poder de compra de suas ofertas, e o santo dos santos era separado desses dois por uma cortina indevassável e nele apenas o sumo sacerdote podia entrar, uma vez por ano, com guizos na orla do vestido e uma corda longa amarrada no tornozelo. Caso ele fosse morto, por ter entrado ali em pecado, teria que ser puxado de lá pela corda, pois ninguém, a não ser ele, podia entrar no lugar santíssimo.
Esse relato, sobre as funcionalidades dos ambientes do templo, mostra a visão segregacionista que o homem tinha de Deus, ao fazer distinção de classes e pessoas, no ambiente sagrado, onde, supostamente, Ele habita.
O que se tem visto, desde a expulsão de Adão e Eva do paraíso, até hoje, são ofensas e afrontas praticadas por seus descendentes, ao preferirem se submeter a criaturas de Deus, as quais são entronizadas como deuses em seu lugar. Isso é insuportável para um pai. Mas Ele tem suportado e até relevado certos procedimentos, porque sabe que a grande maioria tenta encontra-lo por caminhos equivocados e seu supremo propósito é traze-los de volta ao lar eterno.
  Mas não é só: a carta aos efésios chama a atenção dos novos cristãos para que não se envolvam com cultos de magia, feitiçarias e libertem-se do legalismo judaico. E o que se vê hoje? Igrejas apelando para os supostos poderes do fetichismo, através do copo d’água consagrada sobre a TV, do vidrinho de água do Rio Jordão, do templo de Salomão, do Monte Sinai, da fogueira santa de Israel, do fragmento da cruz de Jesus, com pastores vestidos de branco, como se fossem sacerdotes da Umbanda, ou vestidos de panos de saco, como símbolo de penitência, e por aí vai.  
Entretanto, a humanidade carrega em si a incredulidade de Tomé, quando se trata de crer no que Jesus deixou dito, mas crê facilmente nas doutrinas falsas pregadas por seus adversários. Os contemporâneos de Jesus viram, através dele, maravilhas que prenunciavam a existência de um paraíso, mas, ao invés de crerem, o mataram. Poucos, assim como é hoje, creram no Salvador, mas, entre esses, existiu um, ao qual foi dado contemplar os lugares celestiais reservados aos que crerem, e este era o próprio Paulo, quando foi derrubado do cavalo e, por causa dessa visão, renunciou ao status que tinha para que, não somente ele, mas as gerações futuras pudessem alcançar esse lugar, pela fé exclusiva em Jesus, convencidas por suas pregações.
Na época em que Paulo escreveu a Epistola aos Efésios, a deusa Diana era fervorosamente cultuada pelos efésios. Ela era um mito, fruto da imaginação humana, que foi entronizada e adorada no panteão dos deuses. Hoje não seria “Nossa Senhora” a deusa adorada no lugar de Jesus e até motivo de orgulho dos fiéis, como Diana era para os gentios?
O relato, a seguir, extraído de um site católico, sobre uma decisão tomada pelo Concílio de Éfeso, em 431 d.C., confirma essa idolatria a uma criatura de Deus entronizada em uma posição acima Dele. Sim, porque a mãe é sempre superior ao filho. “Certo dia, Nestório foi interrogado pelos fiéis que ouviram Anastácio, um de seus presbíteros de confiança, dizer que Maria Santíssima não era Mãe de Deus, mas somente Mãe do homem Jesus Cristo. Escandalizado, o povo cristão exigia uma explicação do Patriarca de Constantinopla. Todavia, também o infeliz bispo negou a Maternidade Divina de Maria, atribuindo-lhe somente o título de Mãe de Cristo pois, segundo Nestório, "uma criatura não pode dar à luz o Criador, mas deu à luz um homem, instrumento da Divindade". (Arautos do Evangelho).
No entanto, apesar de ter sido a mãe de Jesus e ter tido uma vida exemplar, Maria dorme o sono da morte, juntamente com todos que morreram e ainda não ressuscitaram. Sem dúvida nenhuma, ela jamais aprovaria seu endeusamento.
Não que os desvios do evangelho e heresias doutrinárias sejam uma característica de nosso tempo, pois Éfeso, uma cidade importante da Capadócia, na Turquia, chegou a ser uma importante referência da fé cristã e hoje o islamismo é a religião dominante lá.
E séculos antes desta epístola, o povo judeu, escolhido por Deus para servir de elemento de sua didática, instituiu ritos, exigiu sacrifícios vicários de animais e criou leis, por meio de seus sacerdotes, com o intuito de aplacar a ira divina. Assim, a quem infringia uma só, das suas mais de seiscentas leis, ao invés de morrer, conforme a exigência legal, bastava entregar um cordeiro sem mancha para ser sacrificado no altar em seu lugar. Deus tolerou esse cinismo por séculos, até que seu próprio Filho se ofereceu para ser sacrificado, em lugar desses animais, de uma vez por todas. O Filho sabia que seu Pai tinha o propósito de trazer de volta para Si, como filhos, todas as criaturas humanas, por seu intermédio, conforme Paulo nos informa na carta aos efésios, cap. 1, versículo 5, que diz: “Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade”.
No judaísmo, a concepção que eles tinham de seu Deus, como sendo uma entidade vingativa, iracunda, implacável e carrancuda, como eram seus pais, fazia com que a relação com esse Deus fosse de medo. Assim, quando a vontade de descobrir a verdade sobre esse Deus era maior do que o medo, resultava em um relacionamento amoroso e franco, como se deu com Abraão, Moisés, Davi, Elias, Eliseu, Jonas e outros, mas que não foram capazes de transmitir essa visão paternal sobre Deus a seus compatriotas. Daí, então, o propósito de Deus de mandar seu Filho feito homem ao mundo para revelar sua verdadeira imagem e semelhança com o homem, pelo nascimento, vida, morte e ressurreição, que são as etapas de vida terrena previstas a qualquer humano.
Deus sabe perfeitamente quem são os Tomés e quem são os Paulos e não desperdiça visões do céu com incrédulos, deliberadamente resistentes e, por outro lado, ele sabe que os de boa vontade não precisam de visões para crer no invisível. A estes bastam as promessas de Jesus porque creem nos relatos transmitidos, de geração a geração, pelos que andaram com Ele.
Todos nós, que somos pais e mães, carregamos as marcas que, pelo menos um, de nossos filhos, nos deixaram, quando chegaram à adolescência. O Antigo Testamento simboliza essa fase, na história do homem, em que Deus tem um trabalho danado com ele. Adverte, ameaça, castiga, perdoa, torna a castigar e assim vai suportando ofensas e indisciplinas, até que, cansado de tanto trabalho, pede a seu Filho que vá até seus irmãos para convence-los do grande amor do Pai.
Mas, ao invés de escutá-lo, o mataram, sem saber que a morte não tinha poder para mantê-lo morto, porque ela está subordinada a seu Pai. Enquanto esteve por aqui, Jesus conquistou a confiança de alguns de seus irmãos, a quem os chamou de discípulos e apóstolos e, através deles, conseguiu se fazer compreendido, ao transmitir a eles o desejo supremo de seu Pai, que é o de se tornar conhecido e amado por seus filhos.
Os cristãos têm uma vantagem incalculável, sobre qualquer outro segmento religioso, que é a certeza histórica de que Jesus existiu em carne e, pelos prodígios que realizou na Terra, historicamente comprovados, até seus perseguidores reconheceram que Ele só poderia ser o Filho unigênito do Deus eterno, o Espírito supremo. Mas, por ser uma mensagem simples e nada exigir do crente, a não ser a fé exclusiva em Jesus, não convence aos que preferem buscar emoções ilusórias, ao invés de certeza. Então surgem muitas crenças e doutrinas, como essas, a seguir, em busca dos insatisfeitos com essa verdade muito lógica de Jesus que, por ser assim tão simples, não parece a eles ser verdadeira.
O budismo tem como estrutura a ideia de que o ser humano está condenado a se reencarnar infinitamente após a morte e passar sempre pelos sofrimentos do mundo material para se aperfeiçoar, até merecer o descanso eterno. O que a pessoa fez durante a vida será considerado na próxima vida e assim sucessivamente. Esta ideia, do aperfeiçoamento pelo sofrimento, é conhecida como carma. Ao enfrentar os sofrimentos da vida, o espírito pode atingir o estado de nirvana (pureza espiritual) e chegar ao fim das reencarnações.
Apesar de que ninguém jamais viu alguém reencarnado, mesmo assim o budismo tem milhões de seguidores, sem contar outros milhões de adeptos do espiritismo de Allan Kardec, que é o nome de um espírito e não de um homem, assim como Buda também não é. Seu nome é Sidarta Gautama e o de Allan Kardec é Hippolyte Léon Denizard Rivail.
O Islamismo é um sistema religioso fundado no início do século 7 por um homem chamado Maomé. Os muçulmanos seguem os ensinamentos do Corão e tentam seguir os Cinco Pilares.
No sétimo século, Maomé disse ter recebido várias visitas do anjo Gabriel durante as quais, por cerca de 23 anos, até sua morte, o anjo aparentemente revelou-lhe as palavras de Alá (Deus em árabe). Essas revelações ditadas formam o que hoje conhecemos por Corão ou Alcorão, o livro sagrado do Islamismo. Islã significa "submissão", derivando de uma raiz que significa "paz". A palavra muçulmano significa "aquele que se submete a Alá". Os muçulmanos resumem a sua doutrina em seis artigos de fé:
Eles creem em um único Deus criador, eterno e soberano chamado Alá; creem nos anjos; nos profetas bíblicos, entre eles Maomé, como o último profeta de Alá; Os muçulmanos aceitam certas partes da Bíblia, como a Torá e os Evangelhos. Eles acreditam que o Alcorão seja a perfeita, a preexistente palavra escrita de Deus. Creem também que todos serão ressuscitados, julgados e enviados ao paraíso ou ao inferno.
Estes cinco princípios compõem o quadro de obediência para os muçulmanos:  Não há outra divindade senão Alá. Maomé é o mensageiro de Alá. Uma pessoa pode se converter ao Islamismo apenas por afirmar este credo. O muçulmano acredita apenas em Alá como divindade, o qual é revelado por Maomé. Cinco orações precisam ser feitas todos os dias. Pagar dádivas rituais uma vez por ano. Os muçulmanos jejuam durante o Ramadã no nono mês do calendário islâmico. Eles não devem comer ou beber desde o amanhecer até o entardecer. Se fisicamente e financeiramente possível, um muçulmano deve fazer a peregrinação a Meca, na Arábia Saudita, pelo menos uma vez na vida.  A entrada de um muçulmano no paraíso depende da obediência a esses Cinco Pilares. Ainda assim, Deus pode rejeitá-los. Nem mesmo Maomé sabia ao certo se Alá iria admiti-lo no paraíso (Surata 46:9; Hadith 5,266).
Em relação ao Cristianismo, o Islamismo tem algumas semelhanças, mas também diferenças significantes. Assim como o Cristianismo, o Islamismo é monoteísta. No entanto, os muçulmanos rejeitam o conceito da Trindade, que é a crença cristã segundo a qual Deus se revelou como um em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo.
O Islamismo acha que Jesus era apenas um profeta – não o filho de Deus. Os muçulmanos acreditam que Jesus, embora nascido de uma virgem, foi criado; como Adão. Não acreditam que Jesus morreu na cruz. Eles não entendem por que Alá permitiria que o Seu profeta Isa (a palavra islâmica para "Jesus") sofresse uma morte torturante. O Corão, segundo o Islã, é a autoridade final e a última revelação de Alá. Finalmente, o Islamismo ensina que se pode ganhar o paraíso através de boas obras e obediência aos Cinco Pilares.
Devido a estas diferenças e contradições essenciais, o Islamismo e o Cristianismo não podem ser ambos verdadeiros. A Bíblia e o Alcorão não podem ambos ser a Palavra de Deus. A verdade tem consequências eternas.
Se o Deus cristão, o Espírito supremo, exige tão somente a fé exclusiva em seu Filho, para que se conquiste a vida eterna, porque então as multidões se submetem a tantas observâncias e restrições, tais como: jejuns, penitências, peregrinações a lugares supostamente santos e dobram seus joelhos diante de criaturas mortas, mas endeusadas como intercessoras e até protagonistas de milagres?
No cristianismo, o catolicismo, o protestantismo e o evangelicalismo são fragmentados em diversas denominações carismáticas, históricas, pentecostais e neopentecostais que, embora creiam no mesmo Deus, Jesus, pregam uma diversidade de doutrinas conflitantes entre si e, muitas delas, sem suporte bíblico, a ponto de parecer que pregam deuses diferentes. Basta que um líder divirja, teologicamente, de outro para que nasça uma nova denominação.
Há também alguns segmentos apegados a doutrinas e costumes do Velho Testamento, entre os quais se destacam o próprio Judaísmo, os Adventistas, os Testemunhas de Jeová, os Islamitas, ou Muçulmanos, e, de novo, os Católicos. O Islamismo se destaca pela rigidez dos costumes, muitos deles trazidos do Antigo Testamento por Maomé, seu fundador, e outros introduzidos por seus sucessores, alguns seus primos, cujas divergências deram origem aos xiitas e sunitas, tal como aconteceu no cristianismo. O fato de Maomé ter morado muito tempo entre judeus e cristãos católicos, influenciou grande parte das doutrinas deixadas por ele no Corão ou Al Corão e o restante foi acrescentado por seus sucessores. Isso explica a aversão que seus seguidores têm pela idolatria, tal como os judeus, bem como o respeito com que são tratados Jesus e sua mãe, sem, contudo, serem divinizados, nenhum dos dois. Para Maomé, Jesus é apenas um profeta que foi elevado ao céu e voltará, assim como ele.
Da mesma forma que o nome cristianismo serve para identificar muitas correntes religiosas e, em nome dele, até perseguições, como as sanguinárias Cruzadas para matar muçulmanos, inquisições e torturas e mortes nas fogueiras, contra quem se recusasse aceitar a fé católica, foram praticadas. Também em nome do islamismo ainda acontece o mesmo e até ações terroristas e suicidas são empreendidas contra inocentes, como é o caso do Estado Islâmico. Os muçulmanos que não compactuam com essas ações são tidos como apóstatas e são perseguidos, como se fossem infiéis, que é como são denominados os que não professam a fé islâmica, principalmente os cristãos.
Buda, Maomé, Allan Kardec, Joseph Smith Jr, Russel, Krishna, e muitos outros são fundadores de seitas e religiões. Todos eles alegam autenticidade de sua religião porque, supostamente, receberam do alto, de algum espírito, ou anjo, revelações que os tornam dignos de confiança no que dizem e escrevem aos seguidores, cabendo aos fiéis somente crer, porque não há provas da veracidade dessas revelações.
Mas o fundador do cristianismo, e somente Ele, provou que veio de Deus e, não somente suas revelações, pelos relatos da História e pela realização de prodígios que somente Deus pode fazer, como ressuscitar mortos, e pela própria ressurreição e assunção ao lugar de onde veio. Todos os outros fundadores estão mortos, não foram ressuscitados e, por isso, não podem mostrar a seus seguidores o poder do seu deus para ressuscita-los e dar-lhes a certeza da verdade que pregaram. Somente em Jesus se pode ter esta certeza, por sua trajetória de vida e pelos registros da História. Então não se iluda: quando ouvires falar de Jesus, procura conhece-lo. Você vai adora-lo.
A reação de quem busca conhecer e conhece esse Deus feito homem é a de louva-lo, abraça-lo e reconhece-lo como seu único Deus, em lugar dos santos e orixás que, até então, cultuava com sinceridade de alma. Esse encontro resulta na vontade de torna-lo conhecido de todos que buscam conhecer Deus, sem saber como, e é dessa ignorância que se aproveitam os profissionais da fé para oferecer milagres e vidas prósperas aos que sofrem, mediante entrega de sacrifícios e dinheiro.  
Mas esse relacionamento paterno/filial, entre um ser humano um espiritual invisível, seria impossível, se o Filho desse Ser celestial não tivesse vindo ao mundo, em forma humana, para revelar o oculto e transformar em vida o que era, até então, apenas a Palavra ou o Verbo do Santo Espirito supremo.
Esse Filho do Altíssimo veio mostrar ao mundo, de uma vez por todas, que nenhum pecado é capaz de condenar à perdição um filho que, apesar de seus erros, se mantém firme em sua fé Nele. Portanto, não será por sacrifícios de remissão ou por confissão de pecados que o pecador será acolhido no Reino de Jesus, mas tão somente pela fé, exclusivamente, Nele.
Ele veio também mostrar ao mundo que o supremo propósito de Deus é atrair para a família celeste, composta pelo Pai e pelo Filho, o maior número de criaturas humanas para se integrarem a ela como filhos e que, para isso, basta atender seu chamado para segui-lo, independentemente da prática da caridade ou boas obras, porque elas são uma decorrência do amor, traduzido em fé, que se tem por Jesus.
Uma vez que Deus deu liberdade ao homem e, por causa dessa liberdade, veio a rebeldia, a desobediência, o pecado, seu supremo propósito é trazer de volta à sua casa celeste, espontaneamente, esse filho rebelde, já que ele tem o direito de amar a quem quiser. A Deus interessa apenas que ele venha por amor, e não por medo ou interesse, mas para isso é necessário ser conhecido, não como Espírito invisível, mas como um semelhante e foi para isso que Jesus se fez homem.
A maioria das denominações evangélicas e católicas vão na contramão do que Jesus viveu e pregou, quando ministram a comunhão, no catolicismo, e a ceia, no protestantismo. Jesus, ao distribuir a última ceia, não advertiu seus apóstolos para que se abstivessem de toma-la, caso se julgassem em pecado. Ele ofereceu aos discípulos, inclusive a Judas, incondicionalmente, sem perguntar se estavam em pecado e, certamente, estavam, diferentemente da maioria das igrejas; algumas até exigem que os participantes sejam da mesma denominação ou que tenham se confessado a um padre. Não basta serem cristãos ou desejosos de pertencer a Cristo.
No evangelho de João há um capítulo inteiro, o 17, dedicado à oração de despedida e agradecimento ao Pai, feita por Jesus, onde ele reforça sua submissão filial, antes, durante e depois de sua encarnação, ao mesmo tempo em que agradece por ter sido o executor do supremo propósito do Pai para, através dele, trazer de volta os filhos que se encantaram com os prazeres imediatos, mas efêmeros, que Satanás, seu inimigo, oferece. Nem o Filho de Deus, aqui na Terra, foi poupado dessa tentação insultuosa, quando lhe foram oferecidas todas as riquezas do mundo em troca de sua adoração a ele.
Brasília 25 de outubro de 2016

José Modesto


A FE EM OPOSIÇÃO AOS MANDAMENTOS DA LEI
                A fé é um sentimento de confiança que se tem em alguém capaz de atender nossa expectativa, de tal maneira inabalável que nos faz crer que já recebemos a coisa desejada. E quando o depositário dessa fé é alguém invisível, seu valor é muito maior, perante esse ente, conforme diz o versículo 6 da Carta aos Hebreus: “Sem fé ninguém pode agradar a Deus, porque quem vai a ele precisa crer que ele existe e que recompensa os que procuram conhecê-lo melhor”.
                A demonstração de fé de Abraão é o mais impressionante exemplo de confiança em alguém invisível. Vale a pena o relato, para os que o desconhecem, mas também aos que conhecem:
                Passado algum tempo, Deus pôs Abraão à prova, dizendo-lhe: “Abraão! ”  Ele respondeu: “Eis-me aqui”. Então disse Deus: “Tome seu filho, seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei”. Na manhã seguinte, Abraão levantou-se e preparou o seu jumento. Levou consigo dois de seus servos e Isaque, seu filho. Depois de cortar lenha para o holocausto, partiu em direção ao lugar que Deus lhe havia indicado.
No terceiro dia de viagem, Abraão olhou e viu o lugar ao longe. Disse ele a seus servos: “Fiquem aqui com o jumento enquanto eu e o rapaz vamos até lá. Depois de adorarmos, voltaremos”. Abraão pegou a lenha para o holocausto e a colocou nos ombros de seu filho Isaque, e ele mesmo levou as brasas para o fogo, e a faca. E caminhando os dois juntos, Isaque disse a seu pai Abraão: “Meu pai! ” “Sim, meu filho”, respondeu Abraão. Isaque perguntou: “As brasas e a lenha estão aqui, mas onde está o cordeiro para o holocausto? ” Respondeu Abraão: “Deus mesmo há de prover o cordeiro para o holocausto, meu filho”.
E os dois continuaram a caminhar juntos. Quando chegaram ao lugar que Deus lhe havia indicado, Abraão construiu um altar e sobre ele arrumou a lenha. Amarrou seu filho Isaque e o colocou sobre o altar, em cima da lenha. Então estendeu a mão e pegou a faca para sacrificar seu filho. Mas o Anjo do Senhor o chamou do céu: “Abraão! Abraão! ” “Eis-me aqui”, respondeu ele. “Não toque no rapaz”, disse o Anjo. “Não lhe faça nada. Agora sei que você teme a Deus, porque não me negou seu filho, o seu único filho. ” Abraão ergueu os olhos e viu um carneiro preso pelos chifres num arbusto. Foi lá pegá-lo, e o sacrificou como holocausto em lugar de seu filho”. (Gênesis 22:1-13).
O gesto de Abraão é a suprema demonstração de fé de alguém para com seu Deus, mas é também uma simbologia do incomparável amor de Deus para com a humanidade, ao entregar seu único Filho em sacrifício. E foi por esse amor que o apóstolo Paulo se encheu de paixão, a ponto de expor sua própria vida, em várias ocasiões, pelos gentios sedentos de Deus.   
                Tendo sido informado de que as igrejas fundadas por ele, na Galácia, estavam aderindo a um evangelho diferente do de Cristo, o apóstolo Paulo relembra aos gálatas a sua trajetória de perseguidor da igreja cristã, antes de se converter. Ele reforça sua autoridade para pregar o verdadeiro evangelho de Jesus, relembrando que não foi autorizado por nenhum apóstolo e sim pelo próprio Cristo. Vale a pena transcrever seu apelo lamentoso àqueles que ele tinha como filhos na fé e que estavam sendo desviados por falsos pregadores travestidos de cristãos.
                “Vocês ouviram falar de como eu costumava agir quando praticava a religião dos judeus. Sabem como eu perseguia sem dó nem piedade a Igreja de Deus (o cristianismo) e fazia tudo para destruí-la. Quando praticava essa religião (o judaísmo), eu estava mais adiantado do que a maioria dos meus patrícios da minha idade e seguia com mais zelo do que eles as tradições dos meus antepassados (o Velho Testamento). Porém Deus, na sua graça, me escolheu antes mesmo de eu nascer e me chamou para servi-lo. E, quando ele resolveu revelar para mim o seu Filho a fim de que eu anunciasse aos não-judeus a boa notícia a respeito dele, eu não fui pedir conselhos a ninguém. E também não fui até Jerusalém para falar com aqueles que eram apóstolos antes de mim. Pelo contrário, fui para a região da Arábia e depois voltei para Damasco.
                Três anos depois, fui até Jerusalém para pedir informações a Pedro e fiquei duas semanas com ele. E não falei com nenhum outro apóstolo, a não ser com Tiago, irmão do Senhor (Jesus). O que estou escrevendo a vocês é verdade. Deus sabe que não estou mentindo. (Os parêntesis são meus).
 Depois fui para as regiões da Síria e da Cilícia. Durante esse tempo as pessoas das igrejas da Judéia não me conheciam pessoalmente. Elas somente tinham ouvido o que outros diziam: "Aquele que antes nos perseguia está anunciando agora a fé que no passado tentava destruir!" E louvavam a Deus por minha causa.
Catorze anos depois, eu voltei para Jerusalém com Barnabé e levei Tito comigo. Voltei para lá porque Deus me revelou que eu devia fazer isso. Ali, numa reunião particular com os líderes da igreja, eu expliquei a eles a mensagem do evangelho que anuncio aos não-judeus. Eu não queria que o trabalho que tinha feito e estava fazendo fosse um trabalho perdido.
Tito estava comigo, mas ele não foi obrigado a circuncidar-se, embora ele não seja judeu. Porém alguns tinham se juntado ao nosso grupo, fazendo de conta que eram irmãos na fé, e queriam circuncidá-lo. Eram homens que tinham entrado para o grupo como espiões a fim de espiar a liberdade que temos por estarmos unidos com Cristo Jesus e para nos tornar escravos de novo. Mas em nenhum momento nós cedemos, pois queríamos que vocês tivessem o verdadeiro evangelho. E aqueles que pareciam ser os líderes da igreja - digo isso porque para mim não importa o que eles eram, pois Deus não julga pela aparência - aqueles líderes, repito, não me deram nenhuma ideia nova.
Pelo contrário, eles viram que Deus me tinha dado a responsabilidade de anunciar o evangelho aos não-judeus, assim como tinha dado a Pedro a responsabilidade de anunciá-lo aos judeus. Pois pelo poder de Deus fui feito apóstolo para anunciar o evangelho aos não-judeus, assim como Pedro foi feito apóstolo para anunciar o evangelho aos judeus. Por isso Tiago, Pedro e João, que eram considerados os líderes da igreja, reconheceram que Deus me tinha dado essa tarefa especial. E, como sinal de que éramos todos companheiros, eles deram a mim e a Barnabé um aperto de mãos. E todos nós combinamos que eu e Barnabé iríamos trabalhar entre os não-judeus e eles, entre os judeus”.  (Gálatas 1:13-24 e 2:1-9).
É importante notar o que Paulo diz sobre Pedro, para se desfazer essa falsa crença de que Pedro foi o fundador e chefe da Igreja de Roma dos gentios: ...Pedro foi feito apóstolo para anunciar o evangelho aos judeus (da Judeia, obviamente), cujo chefe era Tiago e não ele. Se Pedro fosse o chefe da Igreja, não teria permitido que Paulo o repreendesse, conforme segue:
“Porém, quando Pedro veio para Antioquia da Síria, eu fiquei contra ele em público porque ele estava completamente errado. De fato, antes de chegarem ali alguns homens mandados por Tiago, Pedro tomava refeições com os irmãos não-judeus. Mas, depois que aqueles homens chegaram, ele não queria mais tomar refeições com os não-judeus porque tinha medo dos que eram a favor de circuncidar os não-judeus. E também os outros irmãos judeus começaram a agir como hipócritas, do mesmo modo que Pedro. E até Barnabé se deixou levar pela hipocrisia deles. Quando vi que eles não estavam agindo direito, de acordo com a verdade do evangelho, eu disse a Pedro na presença de todos: "Você é judeu, mas não está vivendo como judeu e sim como não-judeu. Então, como é que você quer obrigar os não-judeus a viverem como judeus?" (Gálatas 2:11-14)
Mas, voltando aos gálatas, eles, que tinham sido resgatados do paganismo por Paulo, estavam sendo envolvidos pela força da tradição religiosa dos judeus que chegavam à região, fugidos da perseguição romana. Abraçaram o cristianismo, mas não procuraram conhecer com profundidade os fundamentos de suas doutrinas e, por isso, ficaram vulneráveis ao assédio de outros falsos pregadores. Tal como ocorre em qualquer tempo com quem não se aprofunda em busca da verdade, se, na época, já existisse o islamismo, a este seguiriam, como sucedeu aos seus descendentes, tempos mais tarde.
Depois de enfrentar perigos, dificuldades e provações para levar o evangelho de Cristo aos gálatas, é justa a decepção do apóstolo Paulo expressada de modo veemente, a seguir:              “Ó gálatas sem juízo! Quem foi que enfeitiçou vocês? Na minha pregação a vocês eu fiz uma descrição perfeita da morte de Jesus Cristo na cruz; por assim dizer, vocês viram Jesus na cruz. Respondam somente isto: vocês receberam o Espírito de Deus por terem feito o que a lei manda ou por terem ouvido a mensagem do evangelho e terem crido nela? Como é que vocês podem ter tão pouco juízo? Vocês começaram a sua vida cristã pelo poder do Espírito de Deus e agora querem ir até o fim pelas suas próprias forças? Será que as coisas pelas quais vocês passaram não serviram para nada? Não é possível! Será que, quando Deus dá o seu Espírito e faz milagres entre vocês, é porque vocês fazem o que a lei manda? Não será que é porque vocês ouvem a mensagem e creem nela”?
                No passado vocês não conheciam a Deus e por isso eram escravos de deuses que, de fato, não são deuses. Mas, agora que vocês conhecem a Deus, ou melhor, agora que Deus os conhece, como é que vocês querem voltar para aqueles poderes espirituais fracos e sem valor? Por que querem se tornar escravos deles outra vez? Por que dão tanta importância a certos dias, meses, estações e anos? ” (Gálatas 3:1-5 e 4:8­-10).
A falta de conhecimento das verdades de Cristo pregadas pelos apóstolos impede as pessoas de saberem que a lei condena, sem complacência, todos aqueles que a transgridem e a fé os absolve, mediante o arrependimento.
Tal qual um pai desconsolado, ao ver seu filho descambar para o caminho errado, Paulo continua a lamentar o rumo doutrinário que os gálatas estão tomando, por influência dos cristãos judaizantes; aqueles que continuam apegados aos mandamentos da lei judaica, apesar de incompatíveis com nova crença.
                “Esses homens mostram grande interesse por vocês, mas a intenção deles não é boa. O que eles querem é separar vocês de mim para que vocês sintam por eles o mesmo interesse que eles sentem por vocês. É bom vocês terem um interesse sincero sempre e não somente quando estou com vocês. Meus queridos filhos, eu estou sofrendo por vocês, como uma mulher que tem dores de parto. E continuarei sofrendo até que Cristo esteja vivendo em vocês. Como eu gostaria de estar aí agora para poder falar com vocês de modo diferente! Estou muito preocupado com vocês. Vocês estavam indo tão bem! Quem convenceu vocês a deixarem de seguir a verdade? É claro que quem os convenceu não foi Deus, que os chamou”.  (Gálatas 4:17-20 e 5:7-8).

Brasília 19 de novembro de 16
José Modesto          

             



OS GÁLATAS SOMOS NÓS.
Esta carta foi escrita pelo apóstolo Paulo aos cristãos das igrejas da Galácia, entre as quais, as mais conhecidas eram as de Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe, que foram todas criadas por ele. Esse apóstolo nasceu de pais judeus na importante cidade de Tarso, capital da província romana da Cilícia e, em razão disso, era cidadão romano, condição essa que lhe garantia muitos privilégios.
Ao se mudar para Jerusalém, tornou-se membro destacado do Sinédrio judeu, que era equivalente a um Tribunal composto por sacerdotes e escribas. Era um praticante fervoroso da fé judaica, como membro dedicado do farisaísmo e foi nessa condição que pediu e obteve autorização do Sumo Sacerdote para perseguir e prender cristãos escondidos em toda a Ásia Menor. Em uma dessas investidas, quando se aproximava de Damasco, foi violentamente derrubado do cavalo por uma luz que o deixou cego, seguida de uma voz poderosa a lhe perguntar: “Saulo, Saulo! Por que me persegues”? Ele pergunta: “Quem é tu, senhor”? “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”, respondeu-lhe a voz.
Seu nome judaico era Saul, mas se tornou Saulo, no linguajar romano. Porém, depois dessa poderosa experiência, que o deixou completamente cego e, após curado, com sequelas, ele mesmo mudou seu nome para Paulus, cujo significado, em latim, é pequeno. Sua conversão foi tão verdadeira que o fez abandonar fama, prestígio e o conforto que sua posição social lhe dava, como cidadão romano, para se dedicar à pregação da nova doutrina, arriscando a própria vida e suportando sofrimentos e privações por amor a esses povos dominados pelas crenças pagãs.
Quando os Romanos decidiram sufocar a revolta judaica contra seu domínio, no ano 70 d.C., os judeus foram obrigados a fugir e se dispersaram por todas as regiões da Ásia e esse movimento ficou conhecido como a segunda diáspora judaica. Muitos deles abraçaram o cristianismo sem, contudo, abdicar da lei mosaica, com suas crenças e ritos incompatíveis com as doutrinas e costumes cristãos. Como se não bastasse isso, procuravam infundir nos gálatas recém convertidos a obrigatoriedade de observar os mandamentos da lei, além das doutrinas cristãs, provocando, com isso, a reação de desagrado de Paulo.
Esses judeus, chamados de cristãos judaizantes, estavam presentes em quase todas igrejas que Paulo fundava e ensinavam suas doutrinas e costumes, nas ausências do apóstolo que, por sinal, eram longas. Devido à precariedade dos meios de transportes, das comunicações e das grandes distâncias, as cartas eram o único meio de correspondência e Paulo fez uso delas, algumas das quais, como esta ao gálatas, foram preservadas.
Tal como hoje, era muito difícil combater os judaizantes que mostravam aos novos cristãos, no Velho Testamento, a obrigatoriedade de se circuncidar, de cumprir todas as leis deixadas por Moisés. Quando Paulo passava de volta em cada igreja encontrava um clima de confusão entre os que ele havia evangelizado segundo os mandamentos de Cristo e uma confrontação velada por parte dos que não admitiam abandonar as ordenanças judaicas.
Os ensinamentos de Paulo era o de que nada mais era necessário cumprir, além da fé em Jesus, para se conquistar a salvação. Segundo Paulo, todas as boas obras que o cristão pratica deve ser decorrência dessa fé e não produzem nenhum merecimento perante Deus. A salvação é um gesto do amor de Jesus e, sendo assim, é de graça e nenhuma boa obra pode compra-la.
Isso não entrava na cabeça da maioria dos judeus que se convertiam ao cristianismo. Não era possível que fosse tão simples o caminho de acesso a Deus. Não conseguiam entender que amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo são os dois únicos mandamentos que restaram, dos dez, e neles estão incluídos os outros oito. Quem ama a Deus, ama seus filhos, que são nosso próximo, e, por isso, não mata, não rouba, não trai etc.
Este novo mandamento para amar o próximo e perdoar a quem nos ofende, deixado por Jesus e pregado por Paulo, era algo estranho e inaceitável aos judeus, que aprenderam de seus antepassados a se vingarem de seus inimigos. Eles seguiam a lei de Talião: olho por olho, dente por dente. Ama-los? Nem pensar. Essa era a grande batalha espiritual que Paulo enfrentava, porque, além de não aceitarem o cristianismo sem o cumprimento da lei, ainda contestavam os ensinos de Paulo aos gentios, em sua ausência.
As notícias que lhe chegavam da Galácia davam a dimensão dos estragos que os judaizantes estavam fazendo em sua obra de evangelização entre os gentios e, não lhe sendo possível ir lá, era urgente sua manifestação de desagrado e reafirmação do que ele havia ensinado, por meio de uma carta da qual, uma grande parte, ele utiliza para defender a autenticidade do evangelho que ele pregava.
Era de suma importância que os novos convertidos tivessem certeza da veracidade dos ensinos de Paulo e, por isso, sua insistência em reafirmar que o que ele pregava não aprendeu de homem nenhum, nem mesmo dos apóstolos, mas diretamente do Filho de Deus, ao contrário de outras doutrinas criadas por homens. Era tão grande a convicção que Paulo tinha, sobre o que pregava, que não hesitou em repreender publicamente o apóstolo Pedro, quando ele se portou dissimuladamente perante os judaizantes, para que não percebessem que, como cristão, não mais cumpria os costumes e mandamentos da lei.
Paulo conta na carta que, quando Pedro veio à Antioquia visita-lo, se misturou aos gentios novos convertidos, sem nenhuma restrição de costumes e alimentos, como carne de porco, por exemplo, até que chegaram alguns judeus de Jerusalém e ele passou a se portar como judeu, separando-se dos novos cristãos e não mais comendo com eles. E o gesto de Pedro, dada sua importância, influenciou Barnabé, o companheiro de Paulo, a fazer o mesmo. Não suportando a hipocrisia do apóstolo, Paulo o repreendeu duramente diante de todos.
O que Paulo percebia era que os judeus estavam querendo agradar a Deus pela aparência que a lei produzia, visível aos homens em forma de boas obras, ao passo que a nova doutrina deixada por Jesus subvertia essa ideia, ao estabelecer que a retribuição de Deus pelo amor que o homem lhe dedica é Seu próprio amor que se chama graça imerecida.
De lá para cá tem sido incontáveis as tentativas de “melhorar” o evangelho que Jesus deixou e, em razão disso, as denominações cristãs tem se multiplicado tanto, ao ponto de já faltarem adjetivos para identifica-las. São católicas, protestantes, evangélicas, carismáticas, históricas, pentecostais, neopentecostais, judaizantes, messiânicas etc.   
Tal como acontece com os católicos, adventistas e testemunhas de Jeová, os judeus cristãos não queriam se libertar das tradições herdadas dos seus antepassados, através do Velho Testamento, e tentavam convencer os gentios convertidos de que suas crenças e costumes eram indispensáveis, como complemento à fé cristã. Esse apego às tradições, que hoje bem caracteriza os católicos, com suas crenças e crendices estranhas ao cristianismo, era o motivo da luta de Paulo contra os judaizantes para evitar que seu esforço de evangelização dos gentios pagãos fosse perdido.
Os próprios apóstolos foram vítimas dessa força poderosa da tradição, como acabamos de ver no comportamento de Pedro, ao se apartar da “imundície” dos gentios, bem como as atitudes de Tiago, João e Pedro que restringiram suas pregações aos judeus de Jerusalém, contrariando, inconscientemente, a orientação de Jesus a eles, que dizia: “ide por todo o mundo e pregai este evangelho a todas as criaturas”. O sentimento judaico de que uma raça pura, como eles, não poderia se misturar com gentios impuros, ainda era persistente em suas mentes de modo a influir em seus relacionamentos, apesar da nova orientação cristã.
Esse comodismo dos apóstolos, conveniente à tradição desse puritanismo religioso, foi sacudido por Deus, por meio da violenta intervenção romana na Judeia, de tal forma que os fez levar a sério a ordem de Jesus, até então negligenciada. Expulsos de sua pátria, e duramente perseguidos, espalharam-se pelo mundo e, por onde passavam, iam deixando a marca da nova fé nas igrejas que fundavam nas Terras dos “impuros” que os acolhiam com amor.
Finalmente o contato com outros povos os fez entender o significado do amor aos não judeus pregado por Jesus e, mais do que isso, os apóstolos passaram a pensar como Paulo e entenderam que o Velho Testamento era apenas uma figura do evangelho que viria e de fato chegou, por meio de Jesus, a todos os povos e não somente para eles, como pensavam que seria.
Mas, pelo que Paulo diz na carta, os cristãos judaizantes continuavam presos às leis e tradições e exigiam que o cristão, além de batizado, fosse também circuncidado e que o sábado e as datas festivas judaicas fossem guardados, bem como a abstinência de certos alimentos fosse observada pelos cristãos, do mesmo modo que os judeus.
Até parece que Paulo está escrevendo hoje, porque essas observâncias fazem parte dos mandamentos dos adventistas e das testemunhas de Jeová, como a guarda do sábado e abstinência de carne de porco, além dos muçulmanos que guardam a sexta e não comem carne suína. Já os católicos celebram a mesma festa judaica de Pentecostes, além de usarem as mesmas vestimentas sacerdotais e altares em suas celebrações. A única diferença aqui é que nos altares judeus não havia imagens e estátuas de divindades, até porque eles só tinham uma, que era Jeová.
Em outra carta, aos cristãos colossenses, 2:16-17, Paulo escreve: “Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo”. Esta passagem é muito clara em afirmar que ninguém é obrigado a guardar um dia predeterminado pela religião, mas sim um dia que você o escolher para dedica-lo a Deus.
Assim é com o muçulmano que guarda a sexta, o judeu e judaizantes que observam o sábado, o cristão católico, protestante e evangélico que elegeram o domingo ou um vigilante que oferece a Deus o seu dia de folga, na quinta, por exemplo. Paulo não diz textualmente isso, mas é logico que está implícita aqui a liberdade que temos em Cristo de escolhermos, semanalmente, o dia de nosso louvor e gratidão a Ele e de comermos de tudo que Deus criou, sem nenhuma restrição. O argumento usado para defender a guarda do sábado é o de que Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou. Isso é verdade, mas a Bíblia não nos informa em que dia da semana Deus começou a trabalhar, para sabermos em que dia Ele descansou.
Com a chegada cada dia mais intensa de judeus às cidades da Ásia, as divergências doutrinárias no seio das igrejas cristãs iam se tornando mais intensas, ao ponto de Paulo propor o primeiro concilio em Jerusalém para a unificação do pensamento cristão, a fim de que as doutrinas fossem pregadas por todos os apóstolos e presbíteros em comum acordo com o que Jesus havia deixado.
A proposta de Paulo deu excelente resultado, pelo que se observa da decisão tomada pelo Concílio de Jerusalém:
“Soubemos que alguns saíram de nosso meio, sem nossa autorização, e os perturbaram, transtornando a mente de vocês com o que disseram. Assim, concordamos todos em escolher alguns homens e enviá-los a vocês com nossos amados irmãos Paulo e Barnabé, homens que têm arriscado a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, estamos enviando Judas e Silas para confirmarem verbalmente o que estamos escrevendo. Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nada além das seguintes exigências necessárias: Que se abstenham de comida sacrificada aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual. Vocês farão bem em evitar essas coisas. Que tudo lhes vá bem”. Atos 15:24-29.
Então, doravante, todos os pregadores teriam que padronizar suas pregações com base nos elementos que vieram substituir a lei cerimonial, que são: a Fé, a Graça e o Espírito. O resumo disso é: creia no Senhor Jesus e serás salvo. Somente isso e nada mais. Nada de jejuns, boas obras, penitências, circuncisão, dízimos, dias santos etc. Boas obras, em socorro de quem precisa, por amor a Jesus, e o batismo, significando que você confessa publicamente que não se envergonha Dele, são decorrência de sua fé Nele. Deixar de beber, de fumar, de se drogar é muito bom para a saúde. Mas não são essas atitudes, desacompanhadas de amor a Deus, na figura do próximo, que agradarão a Ele.
Os gálatas estavam aprendendo com os judeus a lei da reciprocidade, pela qual teriam que realizar uma boa obra para que Deus os retribuísse. Então Paulo torna a lembra-lhes a fé de Abraão como um modelo de fé agradável a Deus, pela sua confiança inquestionável Nele, mesmo tendo falhado, em dado momento de sua vida, quando deu ouvidos a sua esposa, Sara, levando-o a desacreditar na promessa de nascimento de um filho, apesar da esterilidade de sua mulher. Esse filho simbolizava a graça, cujo recebimento não dependia da participação de Abraão. De fato, seu filho com Sara nasceu vinte e cinco anos depois dele ter se relacionado com uma escrava, por sugestão da esposa, quando já estava impotente, sexualmente.
Deus quis provar a Abraão e Sara que ele era fiel em suas promessas, mesmo que, para cumpri-las, ele demore uma vida e tenha que contrariar as leis naturais, pois, neste caso, o casal não tinha mais a mínima possibilidade física de gerar um filho. Da relação com a escrava nasceu Ismael, que simboliza a lei do homem, pela qual a humanidade se rege e a ela fica presa.
Paulo está dizendo aos gálatas que a nossa salvação é semelhante ao que se deu com Abraão que, mesmo ele tendo vacilando por um momento em sua fé, a promessa que Deus lhe tinha feito não foi anulada, apesar de seu ato ter gerado consequências indesejáveis aqui na Terra. De Ismael, o filho nascido de uma tentativa de ajudar a Deus, descendem os impetuosos árabes com seus conflitos e de onde surgiu o controverso islamismo que rejeita a fé em Jesus e defende a salvação por merecimento próprio, por meio de obras, conforme sua lei estabelece.
Mas esse voluntarismo que caracterizava o modo precipitado de agir dos hebreus era a marca de um povo que, embora confiasse cegamente em seu Deus, muitas vezes se antecipava a Ele na tentativa de se fazerem cumprir suas promessas. E Deus quase sempre relevava essas traquinagens porque sabia que estava lidando com um povo ainda criança, cuja plenitude da razão só viria com o entendimento de seu supremo propósito a ser revelado por seu Filho que haveria de vir a eles. E esse supremo propósito era o de que esse povo preso à disciplina da lei, e representando todos os povos, fosse liberto desse jugo pelo Filho, a fim de que se tornassem seus irmãos apenas pela fé Nele, porque, até então, todos eram somente criaturas de Deus.
É por este entendimento que Paulo questiona os gálatas, perguntando a eles: “Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo. Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir”?
Ele está se referindo às ordenanças e mandamentos de seitas e religiões que eram e são requeridos de quem a elas se socorre, em contradição com o que Jesus oferece de graça. De graça mesmo. Apenas pela fé Nele e somente Nele. Mas essa fé não é tão simples de ser praticada, porque ela é verdadeira quando exercida em favor de quem você detesta, na forma de perdão. Talvez você nunca tenha reparado que perdão significa uma grande perda. Não é perdinha. É uma perdona do que de melhor a gente tem: amor próprio. Em favor de alguém. E não é qualquer alguém. É um inimigo.
Para quem tem posses, muito dinheiro, seria melhor que esse amor se traduzisse pela ajuda aos pobres. Mas, no caso do cristão, a ajuda aos pobres é uma decorrência de seu amor a Jesus. É um entendimento inverso ao de quem faz boas obras para garantir um lugarzinho no céu. Afinal, dizem os espíritas, fora da caridade não há salvação. Mas nós, cristãos, dizemos: fora de Jesus não há salvação.
Observando a caminhada de Abraão com seu Deus, podemos notar que nenhuma promessa feita ao patriarca foi condicionada a qualquer obra ou pagamento. Disso se conclui que a relação de Deus com o homem sempre foi de amor, não envolvendo nenhuma oferta de sacrifício ou promessa de penitência, dessas exigidas de sofridos penitentes pelas religiões e seitas. Deus não deixa de cumprir suas promessas só porque você se portou mal para com Ele; até mentiu, algumas vezes; e é por isso que Ele é conhecido como Deus fiel. Ele sabe o quanto somos fracos e falhos, mas conhece muito bem a grandeza de nossos corações. Por isso é que as leis que disciplinavam as ações no Venho Testamento são transitórias, até que viesse o tempo da graça, em Jesus, enquanto que as promessas são eternas e imutáveis.
Tudo isso, até aqui e muito mais, estava sendo escrito aos insensatos gálatas, com os quais nós hoje nos assemelhamos, com tantas crenças, crendices e doutrinas contrárias ao evangelho de Cristo que Paulo procurava reavivar neles e, por tabela, em nós, para que nos libertemos desse desejo maquiavélico de se submeter à escravidão e ao medo, ao invés de nos guiarmos pela lei do amor.
O dilema dos gálatas estava sendo escolher entre permanecer firmes nos rudimentos que Paulo lhes ensinara, segundo os quais o cristão é justificado unicamente pela fé em Jesus, ou aceitar o novo ensino dos judaizantes, pelo qual a crença em Jesus é importante, mas a observância da lei mosaica era ainda indispensável para que o crente fosse justificado por Deus.
Esses fariseus convertidos ao cristianismo eram semelhantes aos cristãos de hoje, que não creem que apenas a fé em Jesus seja suficiente para justifica-los e acrescentam a seus cultos e liturgias: jejuns, penitências, promessas, peregrinações, abstinência de alimentos e sexo, rezas e ladainhas repetitivas e outros intercessores, como se um pai ou uma mãe exigissem tanto para serem encontrados por seus filhos, quanto mais Deus. Esse era o motivo das duras palavras de Paulo nesta carta aos gálatas.
E hoje ele teria que escrever ao mundo cristão outras cartas mais duras ainda, porque muitos se livraram do jugo da lei mosaica, mas, ao invés de se submeterem aos mandamentos de Jesus, criaram suas próprias leis, cujos efeitos são a proliferação de denominações que confundem os de boa-fé, como os gálatas, e se aproveitam do sofrimento e das dificuldades dos desesperados e incautos.
O Novo Testamento é o tratado estabelecido por Jesus, significando uma nova aliança, onde estão contidas orientações aos seguidores de Cristo, em substituição aos mandamentos e leis do Velho Testamento. São apenas orientações pelas quais o crente saberá muito bem discernir o que ele pode ou não praticar, sem imposição de líderes religiosos, porque o próprio Paulo é quem diz: “Tudo me é permitido”, mas nem tudo convém. “Tudo me é permitido”, mas eu não deixarei que nada me domine. (1 Cor 6:12). É o reinado do Espírito, onde os crentes são dirigidos pelo entendimento que Ele dá e não por lei ou mandamentos. Ninguém, a não ser a própria pessoa, em seu íntimo, deve questionar o comportamento de alguém, porque quem anda sob a direção do Espírito sabe quando está pecando.
O universo cristão, em geral, vive uma realidade contraditória porque prega um evangelho cujas doutrinas se baseiam na providência do Espirito, mas professa uma fé fundada em obras da lei, ao admitir que Deus condiciona suas bênçãos, e até a salvação, ao cumprimento de certas exigências e comportamentos, além da fé em Jesus, e isso era exatamente o que Paulo combatia em suas cartas.
Brasília 19 de novembro de 2016

José Modesto 

sábado, 3 de março de 2012

ERNANE E OS BICHOS


   Comedido, meu primo Ernane sempre foi dessas pessoas que pensam muito sobre suas atitudes. Sensato, sempre pesou bens os prós e os contras de cada ato. Temeroso, sempre pensava na alternativa negativa que poderia acontecer. Pra comer um peixe, por exemplo, antes pensava na possibilidade de se engasgar com as espinhas, então recusava, apesar de querer comer. Dava um trabalhão convencer o Ernane a “embarcar” em nossas aventuras. Eram tantos, “e se...” que a gente muitas vezes esmorecia e deixava ele pra trás. Algumas vezes, a gente entendia, como sendo resultado da criação dura, que o tio Antônio lhe impunha, não podendo isso, não podendo aquilo. Mas passado tantos anos, percebemos que o Ernane tinha razão em estar sempre com “um pé na frente, outro atrás”, pois algumas coisas estranhas, diferentes, aconteciam com ele, então ele já era escabreado.
   Pois assim aconteceu que, numa bela tarde de setembro, chegam na Praia do Chicão, ele, o Ermilson, a Evinha e o Jonas, com intenção de caçar tracajás e seus ovos, muito tempo atrás. Fizeram a travessia do Araguaia na grande canoa a remo do tio Antonio. Chegando, cada um tomou uma direção à procura de rastros das tracajás, mas os rastros que atraíram mesmo o Ernane foram rastros dos maçaricos (sassaricos). Essas pequenas aves de pernas compridas e finas, tem o hábito de judiar de quem se mete a persegui-las, pois elas deixam o incauto chegar bem perto delas pra então levantar pequenos vôos e pousar logo adiante, deixando o sujeito naquela ilusão de que da próxima vez, vai conseguir pegá-la. E assim foi, com o Nane chegando bem pertinho, o maçarico voando e pousando logo adiante, até que chegaram numa pequena lagoa, no meio da praia, onde o esperto maçarico, vôou e pousou do outro lado dela. Seu perseguidor, ao chegar à lagoa, viu então, que haviam alguns tucunarés presos ali. Deixou o maçarico pra lá e se pôs a tentar matar os peixes usando um cacête que encontrara por perto. Muitas infrutíferas cacetadas depois, já cansado de tanto bater na água em vão, pois os tucunarés eram muito mais rápidos que ele, o Nane desistiu. Mas ainda não havia terminado, pois quando faltavam alguns passos pra ele sair da lagoa, a arraia de fogo o pegou no pé direito..., assustado, pulou pra frente, e quando colocou o pé esquerdo no chão, a arraia o pegou naquele pé também. Aos prantos, rolando na areia com os pés pra cima e gritando muito, se pôs a chamar pela Evinha que avisou os outros. Logo se reuniram, o colocaram nas costas e se puseram a percorrer a longa distância que os separava do local onde haviam deixado a canoa. Agasalharam o acidentado, que foi logo se apegando com o primeiro santo que se lembrou, e fazendo promessas, todas requerendo o imediato alívio daquela dor, em troca de nunca mais matar um passarinho, de nunca mais comer tracajá, etc... e se puseram a remar, coisa que não pararam nem por um minuto, até chegar em Araguacema, onde puderam medicá-lo adequadamente.
   Vítima da conspiração dos bichos, pois os maçaricos o atrairam, os tucunarés o distraíram e as arraias o executaram, o Ernane se tornou assim um dos poucos ribeirinhos a serem esporados pelas arraias, nos dois pés e na mesma hora. Restou porém uma dúvida: foi a mesma arraia, ou foram arraias diferentes, que lhe impuseram aquele castigo?
   Em uma outra ocasião, ele atendia a ordem do tio Antonio, de procurar pelas vacas, acompanhado de dois amigos, o Cláudio e o Caôlho. Como sempre faziam, iam passarinhando pelo caminho, colhendo frutas e jogando conversa fora. A enfieira de passarinhos mortos já tava grande, amarrada na cintura, quando chegaram ao Ponte Grossa, e já sedentos, resolveram contornar a grande ponte de madeira e atravessá-lo  por baixo. Desceram, lavaram os rostos e beberam água fresca, e se puseram a transpassa-lo por cima de um grande tronco caído. Passou o primeiro, passou o segundo, quando foi a vez do Ernane, um dos que já estavam do lado de lá, gritou:
_ óia a cobra!
   Amedrontado ele foi olhar e escorregou, colocando a perna bem ao lado da jaracuçu. Não deu outra, ela o picou bem acima do joelho, na parte posterior da perna. Como que pra vingar a morte daqueles passarinhos, a cobra não perdoou. Desesperado, gritou pros companheiros voltarem e se pôs a correr de volta pra Araguacema, não sem antes, arrebentar a baladeira liga-de-sôro e amarrá-la acima da picada, pra diminuir a circulação sanguínea. E, apesar de ter corrido e “agitado” o sangue, conseguiu chegar em sua casa, onde encontrou toda a família reunida na cozinha. Foi entrando e pensando em dar aquela notícia “com jeito” pra não preocupar muito a tia Maria, disse:
_ gente, eu tenho uma notícia ruim pra dá.
Alguém perguntou:
_ que foi? A Malhada morreu?
_ não.  A Malhada tá bem...é que...
_ah, então so pode ter acontecido alguma coisa com o Barrabás...(o marruco) que foi?
_ não gente, o Barrabás também tá bem. É que... é que fui picado de cobra bem aqui ó.
_ah... onde foi?
E levaram o Nane pro hospital, onde iniciou se um tratamento a base de anti-ofídico. E terminou tudo bem.
   Bom companheiro, o primo amigo Ernane sempre tentou minimizar nossas traquinagens de garotos. Sem a sua opinião equilibrada, talvez em alguns casos, teríamos ultrapassado os níveis de peraltices ingênuas, pra pequenos delitos mais graves.
Êita Araguacema véia...
JUARILSON AZEVEDO

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

UMA LEI CONTRA O MAU ELEITOR


Ontem, 16/02/2012, o STF julgou a constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa e sua validade para as eleições vindouras, cujo resultado da votação traduziu a vontade dos milhares de eleitores que, como eu, subscreveram um abaixo-assinado para pressionar os parlamentares a aprová-la, mesmo a contra gosto, uma vez que ela feria de morte os interesses espúrios da maioria.
É bem verdade que essa Lei seria plenamente dispensável, caso a consciência cidadã fosse predominante entre os eleitores deste país, ao ponto de jamais termos de engolir nossa indignação, ao vermos bandidos de colarinho branco nos representando como se fossem pessoas de bem. Afinal, ao se juntarem, legitimamente aos bons, pois foram eleitos, passam a ostentar uma aura de santidade, publicamente, embora nos bastidores ajam de acordo com o caráter que os (des) qualifica.
Mas seria mesmo uma utopia acreditar que uma geração de maus eleitores responsáveis pela recondução ao Parlamento de políticos corruptos contumazes se regenerasse da noite para o dia e passasse a votar pensando no quanto faz falta às criancinhas deste país o dinheiro surrupiado por esses malfeitores travestidos de parlamentares ou governantes.
Se, ao menos, os descendentes dessa geração, politicamente inconsciente, fossem orientados a exercer com responsabilidade o direito de voto, ao ponto de serem, eventualmente, uma vez só enganados, mas não duas, restaria esperança de melhores políticos, sem que precisássemos de uma Lei tutora.
Mas, como a nossa realidade presente não aponta para esse ideal, saúdo o surgimento de tão benfazeja iniciativa popular que deu origem a essa tão bem-vinda Lei cidadã, há muito esperada pelas pessoas de bem.
Finalmente foi-nos possível barrar as pretensões de milhares de oportunistas que pleiteavam um mandato para se tornarem imunes às ações da Justiça contra seus crimes e malversações do patrimônio publico. Doravante, o que parecia incorrigível terá, aos poucos, mas bastante perceptível, uma nova cara de confiabilidade, ao termos certeza absoluta de que os que nos representam passaram pelo crivo moralizador desta auspiciosa Lei.
Zé Modesto.
Brasília, 17 de fevereiro de 2012.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A CASA DO JOÃO-DE-BARRO

Há tempos que eu observava aquela linda casa na copa da árvore. Sempre que passava por ali, e isso não demorava acontecer, eu me perguntava: cadê ele?
Naquela região de cerrado baixo, bem antes do Môrro do Augustinho, a gente passarinhava sempre, pois era abundante a passarada. Passávamos também procurando por alguma vaca parida do tio Antônio, e às vezes passava acompanhando a Evinha, em busca de frutas, fosse oiti, ou pequi, ou passando pro brejo, em busca de buritis. Mas ele nunca estava lá. Então concluí que ele havia abandonado a casa.   
A árvore era uma sambaíba, de baixa estatura, casca grossa, tronco retorcido e folhas grandes e ásperas. Seus galhos não são muito resistentes, o que me causou certo medo, pois a casa estava situada em uma forquilha já próxima de sua extremidade.
Mas fui até lá e a arranquei, quebrando a ponta do galho. Levei – a pra minha casa.   Não sabia eu, que ela não estava abandonada, é que seu dono, por ser excêntrico, não usa a mesma casa por duas temporadas seguidas, promovendo sempre um rodízio entre duas ou três casas. Seu dono era um joão-de-barro, e havia milhares deles nos sertões de Araguacema.  
Inteligente e trabalhador, o pedreiro da floresta constrói sua moradia em forma de forno, misturando palha, estêrco seco e barro úmido. Ela é dividida em dois compartimentos, ou seja, em quarto e sala. A porta permite que o pássaro entre sem se abaixar e está sempre virada para o norte, impedindo assim, que o vento atinja seu interior, o que ajuda a proteger seus ovos e posteriormente seus filhotes.
Construída entre 18 a 30 dias, a bela ave, faz entre 500 e 2000 vôos diários carregando o material necessário. Suas paredes tem até 05 cm de espessura. Um espetáculo da natureza.  
O joão-de-barro, de nome científico Furnarius rufus (furnarius em referência ao formato de sua casa, forno, e rufus, por causa de cor de seu dorso), famosa em todo o Brasil, é também bem conhecida no exterior, na Argentina, por exemplo, é considerada “ave de la pátria“, e é conhecida por hornero.  
A primeira providência de um joão-de-barro adulto, é arranjar uma companheira, a joaninha-de-barro, que o ajuda na construção da casa, mas isso não é constante, e na difícil missão de incubar os ovos e alimentar os filhotes.
Quando assumem compromisso, é pra vida inteira. Cantam juntos todas as manhãs e todos os fins de tarde.

O João de Barro pra ser feliz como eu
Certo dia resolveu
Arranjar uma companheira
Toda manhã o pedreiro da floresta
Cantava fazendo festa
Pra'quela que tanto amava

 Sim, vivem sempre em casais que nunca se separam. Alimentam-se juntos, revirando folhas à procura de cupins, formigas, etc... ou debaixo de troncos caídos, em busca de minhocas.  
Chegando, acomodei a casinha de barro, em um cômodo que usávamos pra guardar brinquedos. Pensava eu em pintá-la e presenteá-la à minha mãe, pois ficaria muito bonita ornamentando a sala de estar. Quanta ingenuidade.   
O lindo e famoso pássaro, ave símbolo de um país, embora seja a Argentina, vai, já teve sua vida cantada em verso e prosa muitas vezes, sendo a mais conhecida, uma canção que foi eternizada nas vozes de Tonico e Tinoco, e é cercado de lendas. Uma delas diz que, se o macho for traído, pode se vingar fechando a porta da casa com a fêmea dentro, condenando-a a morte, por isso que um trecho da música diz:

Mas quando ele ia buscar o raminho
Para construir seu ninho
O seu amor lhe enganava
Mas nesse mundo o mal feito é descoberto
João de Barro viu de perto
Sua esperança perdida
Cego de dor trancou a porta da morada
Deixando lá sua amada
Presa pro resto da vida

Particularmente, prefiro outra lenda, que conta, havia um homem chamado João, muito bondoso, fazia casas de barro e capim, na posição correta, virada sempre para o nascer do sol.  Tão bondoso que não cobrava para construí-las. Certo dia, Deus o levou pra perto de si, deixando todos em prantos aqui na Terra. Como o desespero era grande, para consolar-nos, Deus criou o joão-de-barro, e ensinou-o a construir suas casas do mesmo jeito.  
Mas o sossego daquela casa eu já havia estragado, pois havia retirado-a de seu endereço original e não tinha feito nada do que tinha planejado.   
Passados alguns dias, estávamos eu e o Tom debaixo dos flamboyants da Praça da Independência, brincando de Zorro X Sargento Garcia, (eu, o Zorro...), usando os faveiros negros e secos, como espadas, quando o feri mortamente na barriga (um arranhãozinho de nada), e... o tempo fechou!
Disparei na carrêra na direção da casa de Elias Bosaipo e ele atrás, pega, num pega, mas teve que frear na porta, porque lá “a conversa mudava”. Fiquei por lá, protegido, e ele voltou faiscando...e foi direto para o cômodo dos brinquedos. O que ele fez, pra se vingar? Levantou a casinha do joão-de-barro acima da cabeça e pummm... foi pedaço pra todo lado.
Quando cheguei de volta e vi o estrago, fui atrás dele, e então foi a vez dele correr... disparou em direção a casa da vó Chiquinha, descendo ali pela Couto Magalhães, mas eu achei um caco de telha, então, calculei a velocidade do vento, calculei o “efeito”, e arremessei... rapá, o resultado você pode conferir quando estiver em sua companhia, observe bem no alto da testa, um pouquinho pra direita, a cicatriz... no momento que ele olhou pra trás tentando ver que distância eu tava, o caco chegou...   Pobre joão-de-barro...


JUARILSON AZEVEDO

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A BALADEIRA

Juarilson Azevedo

Domingão, todo mundo de barriga cheia, jogando conversa fora e elogiando o frango caipira com pequi que acabamos de saborear.
Estávamos na Chácara dos Muricis. Uns tinham colocado colchonetes no chão frio de cimento queimado, outros se estatelavam nas “preguiçosas” e mamãe e eu balançávamos as redes pra nos refrescarmos ainda mais.
Maria do Carmo alertava que os pequis colhidos no “pé” perto da cerca eram bons, mas aqueles colhidos na beira da estrada, eram rancentos, ao que todos concordaram.
Minha caçula, a Renata, e minha sogra, assistiam ao programa global Os caras de pau, ao que alguém protestou dizendo que realmente era muita cara de pau tá na televisão com um programa ruim daqueles. Noutro momento, alguém comentou sobre a quantidade de “pés de murici” que tem naquele lugar. Ah, se murici desse dinheiro, suspirei.
De repente, a pessoa encarregada de “ariar as vasilhas” grita de lá: acabou o Bombril? Bombril virou sinônimo de palha de aço já há muito tempo. Procura daqui, procura dali, constata-se que realmente acabou. Então a mamãe sugere lá da rede: _lava com folha de sambaíba. Fiquei intrigado com aquela estranha sugestão, e fui saber da conversa.
Acontecia que na Araguacema da sua mocidade, entre os anos 50 e 60 a pobreza era grande e não existia o tal Bombril. Disse ela:_ quantas vezes pegamos a canoa, eu e a Evinha, e fomos na praia buscar areia fina do Araguaia, pra passar nas panelas e ariar com folhas de sambaíba.
Sei que as folhas da sambaíba são fortes e ásperas, mas não sabia dessa aplicação. Aliás, isso me levou a pensar: será que é daí que vem o termo ariar? Lavar com areia. Êita Araguacema véia, menino...   
Nesse ínterim, tá o Juliano e o Rafael se debatendo pra conseguir fazer uma baladeira. A intenção é abater um piem, que há dias trucida os pintinhos do galinheiro. A tal da estilingue, na velha Araguacema, era conhecida como baladeira, o que deve ser mais uma adaptação simplória, baladeira, ou seja, atirar balas, no caso, pedras. Haviam comprado uma dessas que vende em lojas, com cabo de alumínio e ligas muito moles, que além de não “dar açoite” ainda se rompeu rapidamente.   
Balançando na rede, viajei instantaneamente pra Araguacema de minha infância, me enchendo de questionamentos. Será que os fabricantes de câmaras de ar de hoje, Good Year, Pirelli, Firestone, etc... são os mesmos de antigamente? Porque as borrachas das câmaras de hoje não prestam pra baladeiras? Já há muito se usa ligas de sôro. Será que os meninos de hoje, ainda brincam de passarinhar? Duvido que eles tenham as manhas de conseguir um cabo perfeito, aproveitando a madeira da goiabeira...rapá, pé de goiaba sofria, era só achar uma forquilha que servisse como cabo, já ia embora o galho inteiro.
Lembro dos cabos das baladeiras do Ermilson, meu primo, até enfeite tinha, pois ele deixava uma borrachinhas finas contornando o cabo, tal qual aquele enfeite nas camisas dos cowboys americanos.
E aquele cabo de alumínio que meus filhos estavam usando? Como eles fariam as marcas da quantidade de bichos abatidos?
Sim, era um tal de se gabar, se vangloriar, da quantidade de assassinatos já cometidos, pois cada um era marcado por um risco feito à faca, no cabo da baladeira.
_ vou ter que trocar esse cabo. Não tem mais lugar pra fazer marcas. Dizia um, “mangando” do outro.     
E a capanga? Embornal pros mais desatualizados. Cada um queria ter uma mais bonita que a do outro também. Umas eram de tecidos jeans, aproveitando as “pernas” de calças velhas, outras eram daquele mesmo tecido branco de sacos.
Então era pendura-la pelo ombro e descer no rumo do cemitério novo onde ficavam as melhores pedras, pois isso era parte muito importante da caçada, a munição tinha que ser das melhores.   Precisava escolher as melhores pedras, mais redondinhas, no tamanho certo, no peso certo, do material ideal.
Cada um queria ter uma baladeira melhor e mais bonita que o outro. Uns enfeitavam o couro onde se acomodam as pedras. Outros pintavam o cabo de preto, pra dar um ar mais fatídico. Alguns colocavam duas borrachas a mais, pra aumentar a força de arremesso. Tal qual os melhores atiradores do velho oeste americano, cada qual queria ter uma arma melhor.  
E esses melhores atiradores eram famosos, respeitados e admirados. Eram áses. Pra não cometer injustiças, vou citar apenas três, como forma de homenagear todos os outros: O Trulita, o Pomba e o Ermilson. Eram exímios atiradores. Andar com eles pelo mato era garantia de caça bem sucedida. Andei muito com o Ermilson, os outros lembro de ouvir falar.
Eu mesmo nunca fui bom naquele negócio, matei alguns joões-bôbo, algumas maria-moles, algumas almas-de-gato, anum nunca, porque dava azar, enfim, somente os bichos mais lerdos.
Minha maior façanha foi, depois de ficar um tempão de tocaia escondido no canto da casa, esperando um pica-pau pousar num pé de mamão, acertei o bicho e ele caiu ao chão. Mas não o acertei mortalmente, apenas quebrei uma de suas asas, assim o pássaro nem morria nem conseguia voar. Ah se arrependimento matasse..., passei horas sem saber o que fazer dele, pois não tinha coragem pra terminar o serviço. Nem lembro que fim levou...     
Os mais preparados já levavam enrolada na cintura uma cordinha comum. Mas os mais caprichosos levavam uma cordinha feita da palha do buriti, feita à mão, confeccionada pelo próprio caçador. Essa era a autentica. Essa corda se destinava a amarrar as caças abatidas pelo pé, de forma que ia se formando uma “enfieira” de passarinhos
_ paixãozinhaaa...paixãozinhaaa...
Acordei. Era minha mulher me chamando pra ajudar os meninos a fazer a tal baladeira de cabo de alumínio, pois eles não conseguiam sozinhos.

Abraços

Juarilson Azevedo