OS GÁLATAS SOMOS NÓS.
Esta carta foi escrita pelo
apóstolo Paulo aos cristãos das igrejas da Galácia, entre as quais, as mais
conhecidas eram as de Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe, que foram
todas criadas por ele. Esse apóstolo nasceu de pais judeus na importante cidade
de Tarso, capital da província romana da Cilícia e, em razão disso, era cidadão
romano, condição essa que lhe garantia muitos privilégios.
Ao se mudar para Jerusalém,
tornou-se membro destacado do Sinédrio judeu, que era equivalente a um Tribunal
composto por sacerdotes e escribas. Era um praticante fervoroso da fé judaica,
como membro dedicado do farisaísmo e foi nessa condição que pediu e obteve
autorização do Sumo Sacerdote para perseguir e prender cristãos escondidos em
toda a Ásia Menor. Em uma dessas investidas, quando se aproximava de Damasco, foi
violentamente derrubado do cavalo por uma luz que o deixou cego, seguida de uma
voz poderosa a lhe perguntar: “Saulo, Saulo! Por que me persegues”? Ele
pergunta: “Quem é tu, senhor”? “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”,
respondeu-lhe a voz.
Seu nome judaico era Saul, mas se
tornou Saulo, no linguajar romano. Porém, depois dessa poderosa experiência,
que o deixou completamente cego e, após curado, com sequelas, ele mesmo mudou
seu nome para Paulus, cujo significado, em latim, é pequeno. Sua conversão foi
tão verdadeira que o fez abandonar fama, prestígio e o conforto que sua posição
social lhe dava, como cidadão romano, para se dedicar à pregação da nova
doutrina, arriscando a própria vida e suportando sofrimentos e privações por
amor a esses povos dominados pelas crenças pagãs.
Quando os Romanos decidiram
sufocar a revolta judaica contra seu domínio, no ano 70 d.C., os judeus foram
obrigados a fugir e se dispersaram por todas as regiões da Ásia e esse
movimento ficou conhecido como a segunda diáspora judaica. Muitos deles
abraçaram o cristianismo sem, contudo, abdicar da lei mosaica, com suas crenças
e ritos incompatíveis com as doutrinas e costumes cristãos. Como se não
bastasse isso, procuravam infundir nos gálatas recém convertidos a
obrigatoriedade de observar os mandamentos da lei, além das doutrinas cristãs,
provocando, com isso, a reação de desagrado de Paulo.
Esses judeus, chamados de
cristãos judaizantes, estavam presentes em quase todas igrejas que Paulo
fundava e ensinavam suas doutrinas e costumes, nas ausências do apóstolo que,
por sinal, eram longas. Devido à precariedade dos meios de transportes, das
comunicações e das grandes distâncias, as cartas eram o único meio de
correspondência e Paulo fez uso delas, algumas das quais, como esta ao gálatas,
foram preservadas.
Tal como hoje, era muito difícil
combater os judaizantes que mostravam aos novos cristãos, no Velho Testamento,
a obrigatoriedade de se circuncidar, de cumprir todas as leis deixadas por
Moisés. Quando Paulo passava de volta em cada igreja encontrava um clima de
confusão entre os que ele havia evangelizado segundo os mandamentos de Cristo e
uma confrontação velada por parte dos que não admitiam abandonar as ordenanças
judaicas.
Os ensinamentos de Paulo era o de
que nada mais era necessário cumprir, além da fé em Jesus, para se conquistar a
salvação. Segundo Paulo, todas as boas obras que o cristão pratica deve ser
decorrência dessa fé e não produzem nenhum merecimento perante Deus. A salvação
é um gesto do amor de Jesus e, sendo assim, é de graça e nenhuma boa obra pode
compra-la.
Isso não entrava na cabeça da
maioria dos judeus que se convertiam ao cristianismo. Não era possível que
fosse tão simples o caminho de acesso a Deus. Não conseguiam entender que amar
a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo são os dois únicos
mandamentos que restaram, dos dez, e neles estão incluídos os outros oito. Quem
ama a Deus, ama seus filhos, que são nosso próximo, e, por isso, não mata, não
rouba, não trai etc.
Este novo mandamento para amar o
próximo e perdoar a quem nos ofende, deixado por Jesus e pregado por Paulo, era
algo estranho e inaceitável aos judeus, que aprenderam de seus antepassados a
se vingarem de seus inimigos. Eles seguiam a lei de Talião: olho por olho,
dente por dente. Ama-los? Nem pensar. Essa era a grande batalha espiritual que
Paulo enfrentava, porque, além de não aceitarem o cristianismo sem o
cumprimento da lei, ainda contestavam os ensinos de Paulo aos gentios, em sua
ausência.
As notícias que lhe chegavam da
Galácia davam a dimensão dos estragos que os judaizantes estavam fazendo em sua
obra de evangelização entre os gentios e, não lhe sendo possível ir lá, era
urgente sua manifestação de desagrado e reafirmação do que ele havia ensinado,
por meio de uma carta da qual, uma grande parte, ele utiliza para defender a
autenticidade do evangelho que ele pregava.
Era de suma importância que os
novos convertidos tivessem certeza da veracidade dos ensinos de Paulo e, por
isso, sua insistência em reafirmar que o que ele pregava não aprendeu de homem
nenhum, nem mesmo dos apóstolos, mas diretamente do Filho de Deus, ao contrário
de outras doutrinas criadas por homens. Era tão grande a convicção que Paulo
tinha, sobre o que pregava, que não hesitou em repreender publicamente o
apóstolo Pedro, quando ele se portou dissimuladamente perante os judaizantes,
para que não percebessem que, como cristão, não mais cumpria os costumes e
mandamentos da lei.
Paulo conta na carta que, quando
Pedro veio à Antioquia visita-lo, se misturou aos gentios novos convertidos,
sem nenhuma restrição de costumes e alimentos, como carne de porco, por
exemplo, até que chegaram alguns judeus de Jerusalém e ele passou a se portar
como judeu, separando-se dos novos cristãos e não mais comendo com eles. E o
gesto de Pedro, dada sua importância, influenciou Barnabé, o companheiro de
Paulo, a fazer o mesmo. Não suportando a hipocrisia do apóstolo, Paulo o
repreendeu duramente diante de todos.
O que Paulo percebia era que os
judeus estavam querendo agradar a Deus pela aparência que a lei produzia,
visível aos homens em forma de boas obras, ao passo que a nova doutrina deixada
por Jesus subvertia essa ideia, ao estabelecer que a retribuição de Deus pelo
amor que o homem lhe dedica é Seu próprio amor que se chama graça imerecida.
De lá para cá tem sido
incontáveis as tentativas de “melhorar” o evangelho que Jesus deixou e, em razão
disso, as denominações cristãs tem se multiplicado tanto, ao ponto de já
faltarem adjetivos para identifica-las. São católicas, protestantes,
evangélicas, carismáticas, históricas, pentecostais, neopentecostais,
judaizantes, messiânicas etc.
Tal como acontece com os
católicos, adventistas e testemunhas de Jeová, os judeus cristãos não queriam
se libertar das tradições herdadas dos seus antepassados, através do Velho
Testamento, e tentavam convencer os gentios convertidos de que suas crenças e
costumes eram indispensáveis, como complemento à fé cristã. Esse apego às
tradições, que hoje bem caracteriza os católicos, com suas crenças e crendices
estranhas ao cristianismo, era o motivo da luta de Paulo contra os judaizantes
para evitar que seu esforço de evangelização dos gentios pagãos fosse perdido.
Os próprios apóstolos foram
vítimas dessa força poderosa da tradição, como acabamos de ver no comportamento
de Pedro, ao se apartar da “imundície” dos gentios, bem como as atitudes de
Tiago, João e Pedro que restringiram suas pregações aos judeus de Jerusalém,
contrariando, inconscientemente, a orientação de Jesus a eles, que dizia: “ide
por todo o mundo e pregai este evangelho a todas as criaturas”. O sentimento
judaico de que uma raça pura, como eles, não poderia se misturar com gentios
impuros, ainda era persistente em suas mentes de modo a influir em seus
relacionamentos, apesar da nova orientação cristã.
Esse comodismo dos apóstolos,
conveniente à tradição desse puritanismo religioso, foi sacudido por Deus, por
meio da violenta intervenção romana na Judeia, de tal forma que os fez levar a
sério a ordem de Jesus, até então negligenciada. Expulsos de sua pátria, e duramente
perseguidos, espalharam-se pelo mundo e, por onde passavam, iam deixando a
marca da nova fé nas igrejas que fundavam nas Terras dos “impuros” que os
acolhiam com amor.
Finalmente o contato com outros
povos os fez entender o significado do amor aos não judeus pregado por Jesus e,
mais do que isso, os apóstolos passaram a pensar como Paulo e entenderam que o
Velho Testamento era apenas uma figura do evangelho que viria e de fato chegou,
por meio de Jesus, a todos os povos e não somente para eles, como pensavam que
seria.
Mas, pelo que Paulo diz na carta,
os cristãos judaizantes continuavam presos às leis e tradições e exigiam que o
cristão, além de batizado, fosse também circuncidado e que o sábado e as datas
festivas judaicas fossem guardados, bem como a abstinência de certos alimentos
fosse observada pelos cristãos, do mesmo modo que os judeus.
Até parece que Paulo está
escrevendo hoje, porque essas observâncias fazem parte dos mandamentos dos
adventistas e das testemunhas de Jeová, como a guarda do sábado e abstinência
de carne de porco, além dos muçulmanos que guardam a sexta e não comem carne
suína. Já os católicos celebram a mesma festa judaica de Pentecostes, além de
usarem as mesmas vestimentas sacerdotais e altares em suas celebrações. A única
diferença aqui é que nos altares judeus não havia imagens e estátuas de
divindades, até porque eles só tinham uma, que era Jeová.
Em outra carta, aos cristãos
colossenses, 2:16-17, Paulo escreve: “Portanto, não permitam que ninguém os
julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade
religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas
são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo”.
Esta passagem é muito clara em afirmar que ninguém é obrigado a guardar um dia
predeterminado pela religião, mas sim um dia que você o escolher para dedica-lo
a Deus.
Assim é com o muçulmano que
guarda a sexta, o judeu e judaizantes que observam o sábado, o cristão
católico, protestante e evangélico que elegeram o domingo ou um vigilante que
oferece a Deus o seu dia de folga, na quinta, por exemplo. Paulo não diz
textualmente isso, mas é logico que está implícita aqui a liberdade que temos
em Cristo de escolhermos, semanalmente, o dia de nosso louvor e gratidão a Ele
e de comermos de tudo que Deus criou, sem nenhuma restrição. O argumento usado
para defender a guarda do sábado é o de que Deus criou o mundo em seis dias e
no sétimo descansou. Isso é verdade, mas a Bíblia não nos informa em que dia da
semana Deus começou a trabalhar, para sabermos em que dia Ele descansou.
Com a chegada cada dia mais
intensa de judeus às cidades da Ásia, as divergências doutrinárias no seio das
igrejas cristãs iam se tornando mais intensas, ao ponto de Paulo propor o
primeiro concilio em Jerusalém para a unificação do pensamento cristão, a fim
de que as doutrinas fossem pregadas por todos os apóstolos e presbíteros em
comum acordo com o que Jesus havia deixado.
A proposta de Paulo deu excelente
resultado, pelo que se observa da decisão tomada pelo Concílio de Jerusalém:
“Soubemos que alguns saíram de
nosso meio, sem nossa autorização, e os perturbaram, transtornando a mente de
vocês com o que disseram. Assim, concordamos todos em escolher alguns homens e
enviá-los a vocês com nossos amados irmãos Paulo e Barnabé, homens que têm
arriscado a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, estamos
enviando Judas e Silas para confirmarem verbalmente o que estamos escrevendo.
Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nada além das seguintes
exigências necessárias: Que se abstenham de comida sacrificada aos ídolos, do
sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual. Vocês farão
bem em evitar essas coisas. Que tudo lhes vá bem”. Atos 15:24-29.
Então, doravante, todos os
pregadores teriam que padronizar suas pregações com base nos elementos que
vieram substituir a lei cerimonial, que são: a Fé, a Graça e o Espírito. O
resumo disso é: creia no Senhor Jesus e serás salvo. Somente isso e nada mais.
Nada de jejuns, boas obras, penitências, circuncisão, dízimos, dias santos etc.
Boas obras, em socorro de quem precisa, por amor a Jesus, e o batismo,
significando que você confessa publicamente que não se envergonha Dele, são
decorrência de sua fé Nele. Deixar de beber, de fumar, de se drogar é muito bom
para a saúde. Mas não são essas atitudes, desacompanhadas de amor a Deus, na
figura do próximo, que agradarão a Ele.
Os gálatas estavam aprendendo com
os judeus a lei da reciprocidade, pela qual teriam que realizar uma boa obra
para que Deus os retribuísse. Então Paulo torna a lembra-lhes a fé de Abraão
como um modelo de fé agradável a Deus, pela sua confiança inquestionável Nele,
mesmo tendo falhado, em dado momento de sua vida, quando deu ouvidos a sua esposa,
Sara, levando-o a desacreditar na promessa de nascimento de um filho, apesar da
esterilidade de sua mulher. Esse filho simbolizava a graça, cujo recebimento
não dependia da participação de Abraão. De fato, seu filho com Sara nasceu
vinte e cinco anos depois dele ter se relacionado com uma escrava, por sugestão
da esposa, quando já estava impotente, sexualmente.
Deus quis provar a Abraão e Sara
que ele era fiel em suas promessas, mesmo que, para cumpri-las, ele demore uma
vida e tenha que contrariar as leis naturais, pois, neste caso, o casal não
tinha mais a mínima possibilidade física de gerar um filho. Da relação com a
escrava nasceu Ismael, que simboliza a lei do homem, pela qual a humanidade se
rege e a ela fica presa.
Paulo está dizendo aos gálatas
que a nossa salvação é semelhante ao que se deu com Abraão que, mesmo ele tendo
vacilando por um momento em sua fé, a promessa que Deus lhe tinha feito não foi
anulada, apesar de seu ato ter gerado consequências indesejáveis aqui na Terra.
De Ismael, o filho nascido de uma tentativa de ajudar a Deus, descendem os impetuosos
árabes com seus conflitos e de onde surgiu o controverso islamismo que rejeita
a fé em Jesus e defende a salvação por merecimento próprio, por meio de obras,
conforme sua lei estabelece.
Mas esse voluntarismo que
caracterizava o modo precipitado de agir dos hebreus era a marca de um povo
que, embora confiasse cegamente em seu Deus, muitas vezes se antecipava a Ele
na tentativa de se fazerem cumprir suas promessas. E Deus quase sempre relevava
essas traquinagens porque sabia que estava lidando com um povo ainda criança,
cuja plenitude da razão só viria com o entendimento de seu supremo propósito a
ser revelado por seu Filho que haveria de vir a eles. E esse supremo propósito
era o de que esse povo preso à disciplina da lei, e representando todos os
povos, fosse liberto desse jugo pelo Filho, a fim de que se tornassem seus
irmãos apenas pela fé Nele, porque, até então, todos eram somente criaturas de
Deus.
É por este entendimento que Paulo questiona os gálatas,
perguntando a eles: “Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos
reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo. Mas agora,
conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez
a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir”?
Ele está se referindo às
ordenanças e mandamentos de seitas e religiões que eram e são requeridos de
quem a elas se socorre, em contradição com o que Jesus oferece de graça. De
graça mesmo. Apenas pela fé Nele e somente Nele. Mas essa fé não é tão simples
de ser praticada, porque ela é verdadeira quando exercida em favor de quem você
detesta, na forma de perdão. Talvez você nunca tenha reparado que perdão significa
uma grande perda. Não é perdinha. É uma perdona do que de melhor a gente tem:
amor próprio. Em favor de alguém. E não é qualquer alguém. É um inimigo.
Para quem tem posses, muito
dinheiro, seria melhor que esse amor se traduzisse pela ajuda aos pobres. Mas,
no caso do cristão, a ajuda aos pobres é uma decorrência de seu amor a Jesus. É
um entendimento inverso ao de quem faz boas obras para garantir um lugarzinho
no céu. Afinal, dizem os espíritas, fora da caridade não há salvação. Mas nós,
cristãos, dizemos: fora de Jesus não há salvação.
Observando a caminhada de Abraão
com seu Deus, podemos notar que nenhuma promessa feita ao patriarca foi
condicionada a qualquer obra ou pagamento. Disso se conclui que a relação de
Deus com o homem sempre foi de amor, não envolvendo nenhuma oferta de
sacrifício ou promessa de penitência, dessas exigidas de sofridos penitentes
pelas religiões e seitas. Deus não deixa de cumprir suas promessas só porque
você se portou mal para com Ele; até mentiu, algumas vezes; e é por isso que
Ele é conhecido como Deus fiel. Ele sabe o quanto somos fracos e falhos, mas
conhece muito bem a grandeza de nossos corações. Por isso é que as leis que disciplinavam
as ações no Venho Testamento são transitórias, até que viesse o tempo da graça,
em Jesus, enquanto que as promessas são eternas e imutáveis.
Tudo isso, até aqui e muito mais,
estava sendo escrito aos insensatos gálatas, com os quais nós hoje nos
assemelhamos, com tantas crenças, crendices e doutrinas contrárias ao evangelho
de Cristo que Paulo procurava reavivar neles e, por tabela, em nós, para que
nos libertemos desse desejo maquiavélico de se submeter à escravidão e ao medo,
ao invés de nos guiarmos pela lei do amor.
O dilema dos gálatas estava sendo
escolher entre permanecer firmes nos rudimentos que Paulo lhes ensinara,
segundo os quais o cristão é justificado unicamente pela fé em Jesus, ou
aceitar o novo ensino dos judaizantes, pelo qual a crença em Jesus é importante,
mas a observância da lei mosaica era ainda indispensável para que o crente
fosse justificado por Deus.
Esses fariseus convertidos ao
cristianismo eram semelhantes aos cristãos de hoje, que não creem que apenas a
fé em Jesus seja suficiente para justifica-los e acrescentam a seus cultos e
liturgias: jejuns, penitências, promessas, peregrinações, abstinência de
alimentos e sexo, rezas e ladainhas repetitivas e outros intercessores, como se
um pai ou uma mãe exigissem tanto para serem encontrados por seus filhos,
quanto mais Deus. Esse era o motivo das duras palavras de Paulo nesta carta aos
gálatas.
E hoje ele teria que escrever ao
mundo cristão outras cartas mais duras ainda, porque muitos se livraram do jugo
da lei mosaica, mas, ao invés de se submeterem aos mandamentos de Jesus,
criaram suas próprias leis, cujos efeitos são a proliferação de denominações
que confundem os de boa-fé, como os gálatas, e se aproveitam do sofrimento e
das dificuldades dos desesperados e incautos.
O Novo Testamento é o tratado
estabelecido por Jesus, significando uma nova aliança, onde estão contidas
orientações aos seguidores de Cristo, em substituição aos mandamentos e leis do
Velho Testamento. São apenas orientações pelas quais o crente saberá muito bem
discernir o que ele pode ou não praticar, sem imposição de líderes religiosos,
porque o próprio Paulo é quem diz: “Tudo me é permitido”, mas nem tudo convém.
“Tudo me é permitido”, mas eu não deixarei que nada me domine. (1 Cor 6:12). É
o reinado do Espírito, onde os crentes são dirigidos pelo entendimento que Ele
dá e não por lei ou mandamentos. Ninguém, a não ser a própria pessoa, em seu
íntimo, deve questionar o comportamento de alguém, porque quem anda sob a
direção do Espírito sabe quando está pecando.
O universo cristão, em geral,
vive uma realidade contraditória porque prega um evangelho cujas doutrinas se
baseiam na providência do Espirito, mas professa uma fé fundada em obras da lei,
ao admitir que Deus condiciona suas bênçãos, e até a salvação, ao cumprimento
de certas exigências e comportamentos, além da fé em Jesus, e isso era exatamente
o que Paulo combatia em suas cartas.
Brasília 19 de novembro de 2016
José Modesto
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