quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A BALADEIRA

Juarilson Azevedo

Domingão, todo mundo de barriga cheia, jogando conversa fora e elogiando o frango caipira com pequi que acabamos de saborear.
Estávamos na Chácara dos Muricis. Uns tinham colocado colchonetes no chão frio de cimento queimado, outros se estatelavam nas “preguiçosas” e mamãe e eu balançávamos as redes pra nos refrescarmos ainda mais.
Maria do Carmo alertava que os pequis colhidos no “pé” perto da cerca eram bons, mas aqueles colhidos na beira da estrada, eram rancentos, ao que todos concordaram.
Minha caçula, a Renata, e minha sogra, assistiam ao programa global Os caras de pau, ao que alguém protestou dizendo que realmente era muita cara de pau tá na televisão com um programa ruim daqueles. Noutro momento, alguém comentou sobre a quantidade de “pés de murici” que tem naquele lugar. Ah, se murici desse dinheiro, suspirei.
De repente, a pessoa encarregada de “ariar as vasilhas” grita de lá: acabou o Bombril? Bombril virou sinônimo de palha de aço já há muito tempo. Procura daqui, procura dali, constata-se que realmente acabou. Então a mamãe sugere lá da rede: _lava com folha de sambaíba. Fiquei intrigado com aquela estranha sugestão, e fui saber da conversa.
Acontecia que na Araguacema da sua mocidade, entre os anos 50 e 60 a pobreza era grande e não existia o tal Bombril. Disse ela:_ quantas vezes pegamos a canoa, eu e a Evinha, e fomos na praia buscar areia fina do Araguaia, pra passar nas panelas e ariar com folhas de sambaíba.
Sei que as folhas da sambaíba são fortes e ásperas, mas não sabia dessa aplicação. Aliás, isso me levou a pensar: será que é daí que vem o termo ariar? Lavar com areia. Êita Araguacema véia, menino...   
Nesse ínterim, tá o Juliano e o Rafael se debatendo pra conseguir fazer uma baladeira. A intenção é abater um piem, que há dias trucida os pintinhos do galinheiro. A tal da estilingue, na velha Araguacema, era conhecida como baladeira, o que deve ser mais uma adaptação simplória, baladeira, ou seja, atirar balas, no caso, pedras. Haviam comprado uma dessas que vende em lojas, com cabo de alumínio e ligas muito moles, que além de não “dar açoite” ainda se rompeu rapidamente.   
Balançando na rede, viajei instantaneamente pra Araguacema de minha infância, me enchendo de questionamentos. Será que os fabricantes de câmaras de ar de hoje, Good Year, Pirelli, Firestone, etc... são os mesmos de antigamente? Porque as borrachas das câmaras de hoje não prestam pra baladeiras? Já há muito se usa ligas de sôro. Será que os meninos de hoje, ainda brincam de passarinhar? Duvido que eles tenham as manhas de conseguir um cabo perfeito, aproveitando a madeira da goiabeira...rapá, pé de goiaba sofria, era só achar uma forquilha que servisse como cabo, já ia embora o galho inteiro.
Lembro dos cabos das baladeiras do Ermilson, meu primo, até enfeite tinha, pois ele deixava uma borrachinhas finas contornando o cabo, tal qual aquele enfeite nas camisas dos cowboys americanos.
E aquele cabo de alumínio que meus filhos estavam usando? Como eles fariam as marcas da quantidade de bichos abatidos?
Sim, era um tal de se gabar, se vangloriar, da quantidade de assassinatos já cometidos, pois cada um era marcado por um risco feito à faca, no cabo da baladeira.
_ vou ter que trocar esse cabo. Não tem mais lugar pra fazer marcas. Dizia um, “mangando” do outro.     
E a capanga? Embornal pros mais desatualizados. Cada um queria ter uma mais bonita que a do outro também. Umas eram de tecidos jeans, aproveitando as “pernas” de calças velhas, outras eram daquele mesmo tecido branco de sacos.
Então era pendura-la pelo ombro e descer no rumo do cemitério novo onde ficavam as melhores pedras, pois isso era parte muito importante da caçada, a munição tinha que ser das melhores.   Precisava escolher as melhores pedras, mais redondinhas, no tamanho certo, no peso certo, do material ideal.
Cada um queria ter uma baladeira melhor e mais bonita que o outro. Uns enfeitavam o couro onde se acomodam as pedras. Outros pintavam o cabo de preto, pra dar um ar mais fatídico. Alguns colocavam duas borrachas a mais, pra aumentar a força de arremesso. Tal qual os melhores atiradores do velho oeste americano, cada qual queria ter uma arma melhor.  
E esses melhores atiradores eram famosos, respeitados e admirados. Eram áses. Pra não cometer injustiças, vou citar apenas três, como forma de homenagear todos os outros: O Trulita, o Pomba e o Ermilson. Eram exímios atiradores. Andar com eles pelo mato era garantia de caça bem sucedida. Andei muito com o Ermilson, os outros lembro de ouvir falar.
Eu mesmo nunca fui bom naquele negócio, matei alguns joões-bôbo, algumas maria-moles, algumas almas-de-gato, anum nunca, porque dava azar, enfim, somente os bichos mais lerdos.
Minha maior façanha foi, depois de ficar um tempão de tocaia escondido no canto da casa, esperando um pica-pau pousar num pé de mamão, acertei o bicho e ele caiu ao chão. Mas não o acertei mortalmente, apenas quebrei uma de suas asas, assim o pássaro nem morria nem conseguia voar. Ah se arrependimento matasse..., passei horas sem saber o que fazer dele, pois não tinha coragem pra terminar o serviço. Nem lembro que fim levou...     
Os mais preparados já levavam enrolada na cintura uma cordinha comum. Mas os mais caprichosos levavam uma cordinha feita da palha do buriti, feita à mão, confeccionada pelo próprio caçador. Essa era a autentica. Essa corda se destinava a amarrar as caças abatidas pelo pé, de forma que ia se formando uma “enfieira” de passarinhos
_ paixãozinhaaa...paixãozinhaaa...
Acordei. Era minha mulher me chamando pra ajudar os meninos a fazer a tal baladeira de cabo de alumínio, pois eles não conseguiam sozinhos.

Abraços

Juarilson Azevedo

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

AQUELE QUE NUNCA FEZ 'SALIENÇA' QUE 'LABREGUE” O PRIMEIRO REBOLO”.


Paulo Henrique de Oliveira Mesquita (PHD)

Aquele que nunca fez saliença que atire a primeira pedra)
Há muitos anos atrás em uma pequena cidadela do interior do Estado do Tocantins, antes conhecido como Estado de Goiás havia quatro crianças sapecas para as quais não havia limites de pensar e fazer estripulias. A cidade era Araguacema. A época, décadas de 70 e 80.
Embora uma cidade pacata adaptada aos costumes bucólicos de uma cidade do centro norte do país, comportava figurais folclóricas e enigmáticas como as personagens desta história que ora vos proporciono conhecer.
Para que sejam preservadas as suas identidades passarei a chamá-las aqui de: Janjão e Norberto, os dois garotos e Florinda e Bela as duas garotas.
Janjão sempre foi uma criança incomum. Extrovertido, articulado e não havia buraco que ele não entrasse. Saliente, sempre foi metido em conversa de adulto.
Sua irmã Florinda, por sua vez, era amiga de todo mundo. Cativante e bem liberal, sempre esteve metida nas brincadeiras dos meninos.
Os dois eram filhos de Nicolau e Janice e tinham irmãos e irmãs. Nicolau era um homem rude, porém muito trabalhador. Nunca se viu em rodas de escarnecedores, pois era dono de poucas palavras. Sempre resolvia uma situação de uma só vez e com uma só palavra.
Janice por sua vez, era uma mulher pacata e prendada. Uma boleira e doceira de mão cheia. Nas suas latas do “jogo de completo”, dispostas sobre a prateleira da sua cozinha, nunca faltava uma peta, um biscoito quebrador e tantas delícias que enchia os nossos olhos de desejo e a boca d’água só de imaginar tudo aquilo dentro do nosso “estambo”.
A minha memória olfativa ainda registra na minha consciência o cheiro que exalava pela vizinhança de todas as guloseimas que desprendia daquele velho e surrado fogão a lenha feito de madeira, barro e “barrela”. Dele pudemos experimentar as mais variadas guloseimas como o mangulão.  Saía também o bolo de arroz, o doce de leite feito no tacho, o doce de murici em caroço, o beju da grossura de um dedo, doce de “leite cortado com fatia de mamão”, doce de buriti, grolado, etc. Ainda sinto e cheiro e gosto dos petiscos que experimentei à beira do seu fogão.
Norberto era criança magra, do tipo “esqueleto humano”. Sempre foi uma criança arredia, porém habilidoso nas suas invenções. Desde pequeno era companheiro de seu pai na lida. Sempre que se via o menino, o moleque estava com os “cascos” no chão e com a “titela” de fora num “sol de rachar momona” lá pelos seus 40 graus. Estudar nunca foi o forte dele e na boca palavrões e mais palavrões, porque “filho de peixe, peixinho é”. Amigos, somente os da sua rua e olhe lá! Dentre as maiores qualidades, fazer carrinhos de litro de óleo e passarinhar com “baladeira” e fazer avião de buriti.
Bela, já era toda assanhada, já não tinha papas na língua. Seu pai vigiava de perto e, sua mãe, com um só grito, lhe alcançava onde quer que estivesse. Desde pequena perseguia a vida, pois os momentos em que os olhos do pai lhe escapavam de sobre os lombos, ela os aproveitava intensamente porque “dava nó em goteira”.
Seu Bartolomeu, então, já era um pouco mais extrovertido e continuamente ameaçava arrancar a “minhoca” dos meninos. Sempre andava com um facão “colim” pendurado na cintura e o seu ar de cangaceiro nos fazia “pelá de medo”. Todos tinham medo dele! Sempre descomposto, nunca se ajeitava. Camisa quando usava, sempre estava pendurada sobre os ombros. Não tinha vida social e também não era de muitos amigos. Tinha fama de durão em casa. Levava todos os filhos ali, na “rédea curta”. Os filhos sempre foram criados ali no “cabresto”, mas mesmo assim ainda lhes fugia do controle. Quando resolvia corrigir um dos seus não tinha quem não ficasse sabendo, a rua toda ouvia o “pampeiro”.
A mãe a D. Filó por sua vez franzia a testa pra não se mostrar muito amistosa. Sempre foi senhora de poucas amigas. Os palavrões que saiam da sua boca davam medo e não tinha cara que a intimidasse. Como não era de visitar ninguém, passava a tarde sentada à porta de sua casa. Depois que o sol corria por sobre a casa e projetava a sombra do telhado ali pelo meio da rua ela surgia e alí ficava até por volta das seis da tarde.
Todas as nossas descobertas que produziam certo desconforto nos demais, principalmente aos adultos sempre terminava no cipó. Quando se ouvia um “arioré” levando umas “lapiadas”, é porque certamente tentou arquitetar algum plano que não deu certo.
Dentre todas as fantasias que povoavam a mente infante de nossos personagens existia uma, intrigante, que até hoje, me faz refletir sobre o homem, sobre a existência humana e sobre os valores mais elementares da nossa vida.
Acredito também que peripécias e aventuras como essa todos nós, um dia, já maquinamos ou almejamos praticar. Mesmo que tenha sido mudado o comportamento das pessoas através do tempo, esse tipo de situação ainda se torna comum em nossos dias. É certo que com conceito, leitura e juízo de valor diferenciado.
Os quatro, desde a mais tenra idade, já se mostravam aventureiros e nunca foram “flor que se cheirasse”. Desde pequenos já eram ditos, as “ovelhas negra” da família.
Janjão era irmão de Florinda e Norberto irmão de Bela. Eles se destacavam de todas as crianças ali da vizinhança. Como ninguém, souberam aproveitar a sua infância e imprimir de modo irreverente nos costumes da época, brincadeiras ousadas.
Brincava-se de tudo lá por aquelas redondezas: caí no poço; maça, pêra ou uva; murro doido; cabra cega; turma; peteca; pião; toinhém; biloquê; ordem, seu lugar, cambota de madeira, cambota de latinha de massa de tomate; de casinha; papai mamãe; até fazer “Saliença” as vezes era também fazia parte da brincadeira. Qual de nós, um dia, até mesmo os mais puritanos, não foi tentado a fazer.
Tínhamos um mosaico de brincadeiras que nos valeu por toda a nossa infância e adolescência, mas para essas crianças não havia limites. Daí a idéia de criar um “cabaré”. Nada mais excêntrico para a época do que uma brincadeira como essa. Ainda que se tratasse de brincadeira de criança, não deixa de ser no mínimo curioso.
A idéia, se assim podemos referir a uma coisa como essa, surgiu da serenidade e inocência de quatro crianças incomuns que viviam à frente de seu tempo.
O cabaré era uma pequena faixa de terra no meio do mato onde eles se reuniam pra fazer “saliença”. A sua localização também dava a impressão de que eles entendiam de que se tratava de algo que feria os princípios éticos e morais da época.
Atrás do salão paroquial da Igreja Católica tinha um “munturo” e por detrás dele uma estrada que nos levava para as olarias perto do seu “Sindô”. O local era cheio de arbustos de sarã, goiabinha e o resto era só “maliça”.
Dentre elas havia uma planta cheia de espinhos por todo o seu tronco. Era uma planta arbustiva de folhas bem pequenas, que ao simples toque da nossa mão se encolhia como se tímida se envergonhasse da nossa presença. Ao passar pelo caminho tocávamos nela e dizíamos: tua mãe morreu e automaticamente suas folhas murchavam e encolhiam como se entristecessem com a notícia que acabara de receber.
O ambiente preparado por eles era bem rústico. Não tinha móveis, portas ou janelas, apenas o verde das árvores que serviam como paredes e cobertura. O chão era de terra batida e debaixo dos pequenos arbustos eram abertos alguns espaços que porventura funcionariam como os quartos.  Nesse cabaré tinha de tudo. Litros de óleo com tábua em cima que serviam de tamboretes, como cortina improvisada, um lençol, certamente subtraído de algum baú, onde naquele tempo era comum guardar as nossas roupas e algumas decorações que pudessem caracterizar o ambiente e o que se fazia nele.
Os pagamentos pelos programas eram feitos com dinheiro de cigarro. Tinha Albany, Arizona, Belmont, Charm, Continental, Dallas, Free, Hollywood, Marlboro, Minister, Pall Mall, o “porronca” não entra na lista porque era fumo brabo e era enrolado em “papel abadie” e folha de milho seca, etc.Cada marca de cigarro correspondia a um valor e ao serviço que ele cobriria. Tinha beijo na boca, abraço, aperto de mão, cada um com o seu preço. O serviço mais caro era a “picada”. A picada era a saliença propriamente dita.
Os cafetões Janjão e Norberto eram quem regulavam as entradas e saídas e repartiam os ganhos no final da brincadeira. As raparigas do cabaré Florinda e Bela já em desvantagem, nem se davam conta de que a profissão mais antiga do mundo era mesmo ingrata.
Só pra variar, como sempre toda brincadeira que não dava certo, o “coro” comia. E esse comeu! E pra quem conhecia o Seu Nicolau, sabe muito bem, que resolver uma situação bastava apenas uma paulada, e com ele só um tapa no pé da orelha, era “pá bife”.
Hoje, quase trinta anos depois, conservo em meu coração apenas a nostalgia das brincadeiras que deixaram saudades e a alegria de saber que valeu a pena viver cada um desses momentos.
Os personagens desta história cresceram, e hoje, Janjão e Norberto, Florinda e Bela seguem o curso de suas vidas normalmente, mas num ponto eles diferem de todas as outras crianças que em outros tempos conheci o fôlego de vida latente dentro deles. Formaram as suas famílias e nas suas lembranças apenas “retalhos de memória” costurados ao longo do tempo a partir de cada aventura e brincadeira que lhes ensinaram que vale a pena viver, quando descobrimos que para isso é simples e não custa tão caro.
A vida que vivemos em Araguacema não tem preço. Fomos formados pra viver a vida em qualquer circunstância. Facilmente nos adaptamos a lugares e situações adversas. Em tempo de escassez não nos abatemos se as “vacas são magras”, de outro modo, somos capazes de andar entre príncipes e em momento algum nos esquecer de quem de fato somos.
Aprendemos lições incríveis quando: entendíamos que as primeiras chuvas do mês de agosto traziam as “pés curtos” para a desova; adoçava as mangas temporãs; quando entendíamos que círculo pequeno ao redor da lua é sinal de chuva longe; que circulo grande ao redor da lua é sinal de chuva perto; que nariz escorrendo sangue pra parar só mesmo deixando cair em caco de telha e tantas outras lições que aprendemos, vivendo intensamente.
Tudo isso é parte de um legado irretocável que recebemos e que se tornou patrimônio emocional de nossa existência. Esse é um legado que recebemos e que nos cabe agora transferi-lo aos nossos filhos e aos filhos de nossos filhos.
Nosso objetivo aqui não é descobrirmos quem são Janjão, Norberto, Florinda e Bela, muito menos expor de algum modo as suas intimidades. O que verdadeiramente importa, é saber que viver é muito mais gostoso quando para isso não precisamos lançar mão de coisas e favores. É simplesmente dar asas à nossa imaginação e deixar os acontecimentos fluírem naturalmente.
Escrevendo cada uma dessas histórias, fico a imaginar quantas coisas eu poderia ter feito e quantas delas tornaria a fazer. A maior das minhas alegrias na verdade, foi andar deixando rastros, porque agora, retornando às pegadas que deixei, me reencontro, e vejo a minha história impressa nas ruas, nas coisas, através de cada um dos vestígios que denunciam a minha existência, a minha permanência e a minha vivência entre  “lageiros”,  murinhos,  quadras, praias, pedrais, “impucas”, escolas, ruas e becos.  Simplesmente, não dá para voltar os olhos a tudo isso, escrever e não se contorcer em dores de parto. Pois a cada conto, poesia e histórias gerados aqui, se vai com eles um pouco de nós. Deixamos de ser os seus donos e nos tornamos apenas tutores de rabiscos e manuscritos que se desprendem de nossas mentes em forma de poesia.
Meus sinceros agradecimentos a Simone Araújo Teixeira pela contribuição dada às revisões de meus textos. A sua co-participação nesse projeto contribui de forma engrandecedora na feitura de cada um deles. Sem a sua colaboração faltaria neles a graciosidade das entonações dos verbos cada um a seu tempo e das temidas concordâncias verbais que tanto atribularam a minha alma. A ti irmã amada, a Paz que só Cristo pode dar e o amor do qual somos todos devedores um dos outros.
 
Glossário
Arioré: Menino, garoto, criança. (Uma palavra muito falada pelo seu Joaquim pontaria).
Baladeira: Estilingue.
Cabresto: Rédea curta; não dá folga.
Cascos: Cascão; pé grosso, mal cuidado; pés.
Cipó: Açoite;
Colim:Um tipo de facão muito antigo com rico cabo em madeira de lei, lamina de alta qualidade muito utilizado antigamente na lida.
Coro: Peia, pisa, taca.
Dava nó em goteira: Pessoa muito difícil; esperta; complicada; não inspira confiança; enrolada.
Esqueleto humano: Pessoa muito magra; que tem o corpo esquelético; magrelo; magricelo.
Estambo: O mesmo que estômago.
Filho de peixe, peixinho é: Muito parecido como os pais; semelhante; igual.
Jogo de Completo: O jogo de completo era um conjunto de lata e algumas delas até decorativas que serviam para guardar alimentos. Cada uma delas servia para acondicionar um determinado tipo de alimento como: Arroz, feijão açúcar, café. Costumavam ter entre quatro e cinco latas e cada uma delas trazia em sua lateral o nome do alimento ao qual era destinada.
Labregar: Tacar; lançar; meter; atirar (pedras).
Lapiada: Pisa; bater com cipó; sova; correção; peia.
Leite cortado com fatia de mamão: Para preparar um bom doce de leite, o original, punha-se o leite a ferver e depois de bem fervido eram colocadas fatias de mamão dentro dele em fervura. Quando o mamão cortava o leite, que significa, o leite perdia a sua liquidez e passava a uma nova textura semelhante a uma pasta produzia a massa característica do doce de leite. Tudo isso tinha um ponto certo, não podia errar. Não foram porcas as vezes que fiz esse favor para a D. Janice visto que era um trabalho cansativo e demorado. Como prêmio eu tinha um tacho inteiro pra rapar no final.
Massa de tomate: Extrato de tomate.
Maliça: Macega; bredo; impuca; mato fechado cheio de espinhos; mato espinhento.
Minhoca: Bibiu; bilau; órgão genital masculino (criança).
Munturo: O mesmo que monturo; local onde se colocava o lixo no quintal ou separado da cidade (hoje, utilizados ecologicamente corretos e conhecidos como aterros sanitários – o nosso era ao ar livre e descalços mesmo a gente andava por ele.
Não é flor que se cheire: Pessoa difícil; em quem não se pode confiar.
Pá bife: Bateu e caiu; tiro e queda; de uma só vez; bruco-tuco.
Pelá de Medo: O mesmo que pelar de medo; amedrontar-se; sentir medo; apavorar-se.
Pé curto: Tracajá; tartaruga.
Pampeiro: Escândalo; estardalhaço; gritaria; barulho; bagunça; tumulto; desordem.
Papel Abadie: Era um papel especial, extrafino, feito exclusivamente para enrolar cigarro.
Picada: Relação sexual propriamente dita naquele contexto vivido pela da história e para a cabeça daquelas crianças.
Porronca:Cigarro feito de fumo de rolo, ou mesmo dos empacotados tipo “cavalinho”. Os mesmos eram enrolados com papel abadie, folha de milho seca ou com outro papel qualquer. Tinha um cheiro característico muito forte e produzia bastante fumaça.
Rebolo: Tijolo; pedra; alvenaria.
Saliença: Ato libidinoso; imoralidade.
Sol de rachar momona: O mesmo que sol de rachar mamona. Sol muito quente; sol estralando; sol do meio dia. No processo de extração do azeite de mamona, uns dos procedimentos utilizados é a secagem da semente ao sol, por isso o dizer sol de rachar mamona.
Titela: Costela.
Vacas Magras:Situação difícil; tempo de sequidão;


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

EM ALGUM LUGAR NO TEMPO E NO MUNDO...


Aldir Lyra

- ‘Dia!
-Dia, moço...
-Tô vendo o senhor, sentado aí, já há um bom tempo, quieto...
- Hum...
- E fiquei me perguntando no que estaria pensando?
O outro levantou o chapéu, coçou o cangote e olhou pra cima na direção do outro, fechando um dos olhos pra escapulir do sol a vista, e como não adiantou fez sombra com o chapéu erguendo-o contra a luz.
Onde estavam a paisagem era bela, já quase findava o dia e soprava um ventinho morno que fazia encarapitar as águas do lago.
- Acho que mesmo que eu quisesse não conseguiria transmitir pra vc os meus pensamentos.
- Como não? Tente então...
- Pelo seu jeito, percebo que nasceu em cidade grande.
- Sim.
- Se nunca brincou na lama, ou subiu em árvores, ou correu com medo de vaca parida, nem vou tentar...
- Meu avô tinha uma fazenda no interior e sempre que minhas férias chegavam eu corria pra lá com meus pais.
O outro, com um meio sorriso desdenhoso mirou mais uma vez o rapaz:
- Vejo que é vivido. O que vc faz aqui?
- Meu carro quebrou ali na estrada. Tô esperando o socorro.
O outro olhou pra estrada e viu ali perto um lustroso carrão.
- Hum, os carros de hoje tão numa complicação só, num se acha nem lugar pra por a mão no motor. Se fosse no tempo do platinado eu poderia ajudar.
- O Sr. tá só me enrolando pra não contar no que estava pensando.
O outro olhou novamente praquele moço, como se avaliando a sua capacidade para absorver as palavras que viriam.
- Senta aí nessa pedra, se não se importar de sujar de terra essa sua calça...
O rapaz sem nem mesmo retirar a sujeira de terra que havia sobre a pedra, sentou-se, puxou um talo de capim pra por no canto da boca e tirou os sapatos afundando os pés na terra à sua frente, e quando o fez, sorriu ao sentir o frescor do barro escuro e úmido. E pensou ter visto um lampejo de satisfação no rosto do outro.
O outro pegou uma garrafa de água, despejou um pouco em um copo e ofereceu outro ao jovem, que declinou.
- E nasci há dez mil anos atrás...
O garoto fez uma meia careta, talvez pensando que o outro era só um maluco saudoso do Raul, e já começava a se arrepender de ter iniciado a prosa.
O homem deu uma gargalhada:
- Tranqüilize-se. Só estou brincando, não resisti! Na verdade eu nasci faz tempo, mas parece que foi ontem.
E continuou:
-Diferente de vc, nasci numa cidadezinha muito, muito pequena que mais parecia uma aldeia, mas que parecia ser mágica. As brincadeiras nunca acabavam, tudo era aventura. E era sobre Araguacema, minha cidade natal, de antes dos trovões, que eu estava pensando. Lembrando da cidade que era a cidade ...
... Dos banzeiros nas manhãs de verão, com suas brancas cristas açoitadas pelo vento, gaivotas fisgando vísceras de peixes tratados na beira do rio, gaivotas pairando, gritando, mergulhando, voando, peixe caindo, voadeira subindo, canoa descendo, barco do Vavá aportado, toldo preto, criança pulando, o Vavá avisando pra não subir no barco, cheiro de sabão de barra, sabonete, peixe, fumaça de óleo dois tempos, tábuas lisas, lavadeiras, roupas a martelar, coarar...
- Da tabatinga amarela nas barrancas do rio...
-Tabatinga?
- É, tabatinga, um barro amarelo e escorregadio. Os americanos não brincam de guerra com bolotas de neve? Nós fazíamos guerras com bolotas de tabatinga. Ficávamos amarelos, sujos de barro e depois era só cair no rio pra se lavar.
O Jovem sorriu, talvez imaginando a cena.
- Da casa de sal do porto do lajedo, dos cavalos lambendo as paredes da casa de sal...
- Como assim?
- Era um antigo depósito que antigamente, muito antigamente, se guardavam peles de jacarés e piroscas salgados. E era tanto sal que as paredes ficaram impregnadas, e vc sabe que cavalo e vaca gostam de lamber sal, né?
-Sei.
O outro o olhou, com ares de dúvida...
-Tinha também, no porto do lajedo e em todos os outros, malícias espinhentas - fecha a porta que o boi já vem- cinzeirais, ingazeiros, o pé de cajá ao lado da churrascaria Gaivota que me faz lembrar a própria churrascaria Gaivota com seu cheiro peculiar de cerveja e o sabor da Crush gelada (almejada) e do meu pai conversando e bebericando a Antarctica gelada, e me fazendo perguntar “porque não bebe rápido?”
- Fecha a porta que o boi já vem?
-É, a malíçia é uma planta espinhenta que ao ser tocada fecha as folhas parecendo que tá morta. E a gente falava isso ao tocá-las.
- Ah!
-Araguacema que me lembra também os pés de manga em frente à casa do seu Pedro Pinto (pai da Ilma do “P” vc não sabe quem é.), do monte de palha do fundo da Usina; das argolas incrustadas na calçada da Usina que nunca ninguém me explicou pra que serviram (e eu, na minha meninice, sempre imaginei um escravo ali açoitado, coitado).
- Vejo que nasceu mesmo há quase dez mil anos atrás. Escravos?!
- Que nada. Apesar da minha aparência eu não vi nenhum escravo, ou melhor, até vi, mas disfarçado de assalariado. É que na calçada alta da usina tinha umas argolas de ferro enferrujadas fincadas, e me diziam que era pra amarrar barco, mas nunca me convenceram. Sempre achei que ali era uma espécie de tronco de açoite.
O outro tomou um pequeno gole de água antes de continuar.
- Araguacema dos eucaliptos da igreja católica, sempre esvoaçados aos ventos das manhãs de verão, exalando um cheiro peculiar; do murinho dos padres, e do padre mais padre aquele que se chamava Frei Inácio e que tinha a voz mais caricata e imitada da cidade, do Doré de coroinha, das andorinhas (aos milhares) revoando sobre a cidade no final do dia quando badalava o sino e as senhoras, tantas, cobriam o rosto com véus negros e sussurrando, adentravam para a missa...
- Senhoras Santas?
- Nem tanto!
-Dos pés de muricis e cajá-manga do quintal do convento das freiras, os quais davam frutos tão almejados, mas que eram pra poucos (apenas alguns coroinhas ou...). Do portãozinho do convento, baixo, mas que era difícil de pular nas carreiras, após apertar a campainha...
- Fugiam por quê?
Ele deu uma longa risada e respondeu, coçando a ponta da orelha:
- Taí uma coisa que vc não imagina, sendo nascido num mar de campainhas... Só no convento das freiras tinha campainha na porta. Em toda a cidade! Assim, era uma tentação irresistível que nos obrigava a pular o portão para, sorrateiros, apertar e sair em disparada.
O garoto ficou com cara de bobo.
- Araguacema do Vale, do hotel Amazonas, da Praça da Independência, da Praça da Alvorada, da Praça Gentil veras que um dia deixei como apenas um largo e ao voltar outro ano vi espantado UMA PRAÇA! Com bancos, luminárias, gramados... Felicidade, modernidade, progresso (?)
- Araguacema da casa de Zinco com seu murinho de pedras, o aeroporto com o avião dos Americanos, a ladeira dos Americanos, os americanos João Blau... Larí... (Invasores?) Mata burro,  A Missão com suas casas de tijolos a vista e telas nas portas e janelas pra não entrar muriçocas e moscas (povim enjoado);  o Lajeado com sua água morna e uma plantinha com folhas sabor anis incrustada na pedra preta. A estrada do Lajeado que parecia longe...
- Larí? Que nome estranho para um Americano.
- Eu penso que ele talvez se chamasse Larry, um nome mais comum lá pra o norte, mas o povo da cidade deve ter abrasileirado a seu modo, o nome dele. Já João Blau devia ser John alguma coisa mesmo.
- Devia.
O outro também puxou um talo de capim, cortou um teco com o dente e pôs na boca o que restou da ponta, antes de continuar...
-Araguacema de lugares alegres que por vezes fossem tristes, mas eram alegres, como o salão do seu Zacarias e também o do Raimundo Dias com suas – nossas - diletas músicas: Empty Garden , Wigwam, Morena Tropicana, Reluz, Muito Estranho, Fanatismo, Años, e etc e tal.
- Araguacema que tinha o Canoão da D. DJesus que inovou, brindando-nos com um aparelho com k7 e toca discos que trocava sozinho os discos, vejam só! Lá mais atrás ainda, tinha o Salão Paroquial, no tempo do refrigerante Grapete. Os conjuntos com suas guitarras e seus sintetizadores luminosos a tocar O Lobo e Pholhas, e antes ainda o Canoa Chopp do seu Domingos (serrotão), o Tabocão que também era sorveteria. Me lembrei agora do Clube Social -Social Club.
-Araguacema dos cinemas itinerantes dos ciganos, do cinema do Dodô e também tinha o cinema do Pedro Lopes da Paulina que tinha um atalaia...
- Atalaia?
- É... Assim chamávamos qualquer auto-falante, daqueles tipo corneta. Começou a ser chamado assim, ainda antes de eu nascer. É que tinha um serviço de Auto-falante na cidade, comandado pelo J. Wilson e meu pai, dentre outros, que foi batizado de O ATALAIA, daí o nome pegou para o produto.
- E tinha tantos cinemas assim numa cidadela?
- Na verdade não tinha nenhum. Apenas apareciam alguns por algum tempo. Os ciganos iam e vinham de tempos em tempos. E foi num cinema parecido com um circo que eu assisti a meu primeiro filme. Django!
- Antigo hein?
O outro apenas sorriu.
- E naquela noite, ao entrar no cinema, tocava Good By Mi Love Good By, do Demis Roussos.
 
“Hear the wind sing a sad, old song
it knows i'm leaving you today 
please don't cry or my heart will break
when I go on my way.
Goodbye my love goodbye !”
 
Cantarolou.
-O filme, pra mim, foi uma grande emoção. O mocinho, estrelado pelo Franco Nero, andava puxando um caixão. Olha só que dramático.
- Com defunto e tudo?
- Que nada, depois, a grande surpresa: Lá dentro tinha era uma metralhadora gigante! E ele mandava bala pra tudo quanto era lado, depois apanhou que só galinha pra largar o choco. Quando eu saí do cinema, me lembrando do coitado do Django, tocou de novo o Demis e eu fiquei triste...
- E os outros cinemas, eram de ciganos também?
- Nada, o do Dodô ficou algum tempo, depois fechou. O do Pedro Lopes também teve vida curtíssima. Eu me lembro de um documentário sobre tubarões em que o áudio era em inglês e não tinha legendas. “Inteligentemente” o Pedro Lopes narrava pra os espectadores, só que como ele não sabia uma vírgula de inglês, tudo que fazia era narrar o que via, aliás, era o mesmo que todos nós víamos, e era mais ou menos assim: “Agora, o tubarão está nadando no fundo do mar... Agora o mergulhador pulou na água para mergulhar... O mergulhador mergulhou e está vendo os peixes... Está saindo bolhas do escafandro do mergulhador...” Não sei se foi esse o motivo de o cinema não ter sido longevo.
- Hilário!
- Coisas de Araguacema. E tinha também os nossos cinemas feitos com caixas de sapato, recortes de revistas e vela.
-Lá tinha também o Bernardão, um jipe laranja e preto pilotado pelo Kleber Bucar; e tinha também uma rural marrom que era companheira das Aero Willys, uma marrom e outra esverdeada, mas não sei de quem eram, mas sei que os pula-pula (ou paco-paco) eram dos americanos.
- Paco paco?
- É. Um veículo artesanal feito lá em Araguacema mesmo. Servia pra trabalho pesado e ir à igreja nos domingos. Era comum ver os gringos chegando, loirinhos tão arrumadinhos e diferentes dos nativos, sentadinhos, estacionando em frente à Menonita, domingo de manhã. O nome paco-paco era devido ao barulho do motor – um lento e contínuo “paco-paco-paco-paco”. Ainda hoje tem um lá. Do Paulo Brito.
- E Araguacema tinha patrol Hubber Wacco e o Daniel pilotando, C10 verde, caminhão negro das balas Neusa, Caminhão azul dos Irmãos Cecílio, empoeirados dos Irmãos Martins e principalmente os do seu Waldison, aquele que tinha um bolso fundo cheio de maço gordo de dinheiro; caminhonete do Isaias, caminhão do seu Curuçá, Corcel do Pacheco, Divino com seus carros Divinamente limpos, e de vez em quando o Gregório com sua caminhonete a dar cavalo de pau a dar com pau... O Gregório eu vi a um tempo, na praia em Araguacema.
- Que praia?
O outro olhou o garoto, como se fosse dar uma longa explicação, mas desistiu:
- Lá tem praia. Uma bela praia de rio. E por favor, não a chame de “prainha de rio” como a maioria das pessoas que pensam que só há praia no mar. Lá tem é PRAIA!
- Tá, nem pensei nisso.
- Lá não tinha shopping. Pra que shopping, essa mania nacional? Lá em Araguacema tinha era as lojas do seu Dodô, do Seu Elias Bosaipo onde ganhei meu velocípede!  A loja do seu Cesário, a farmácia do seu Laranjeira, a venda da d. Madalena, do seu Aureliano, do seu Né onde coloquei potaça na boca, às escondidas, pensando que era açúcar... quase me arrancaram a língua de tanto que esfregaram... Da venda do seu Doca em frente ao gabinete do tio Hezir, ali no gabinete tinha cheiro de Eugenol.
- Araguacema dos amigos João Cunha, Abraão, Borges, Betinho, Tatá, Davi da Rosa, Jairo e Tão- ambos filhos do Militão- Bídia, Josa, Dominguinhos do Glicério, Rom, Ruzi, Teté,Marcelo do Jauner, O Filho do seu Manoel Mesquita, o qual esqueci o nome, Klenio do Tí Rê, e sem querer cometer injustiças, já cometendo, paro por aqui de falar nomes de amigos... De alguns, nunca mais tive notícias.
- Araguacema de professoras austeras, mas que ensinavam mesmo: Maria Aldy – a primeira- Suzete, Eurídice, Julieta, Dalva, Inês, Inezona... dentre tantas que foram importantes.
- Araguacema do CEA, da Escola Menon Simons, Grupo Escolar Frei André Quinn, das merendas, dos flamboyants vermelhos no pátio, portão azul, do recreio, peteca, gramado, goela furada, da sopa de macarrão; dos desfiles de sete de setembro, carro alegórico, tarol, prato, zabumba, Doriel. E ai se não fosse... Perdia  nota em Ed. moral e Cívica ou OSPB!
- Doriel?
- Ele era quem tocava a Zabumba, ou tambor, como queira chamar.
- Goela furada?
- Já falei disso dia desses. Não vou repetir. Na verdade já falei de quase tudo aqui, mas hoje to querendo relembrar de tudo. Mas da goela não vou falar.
- Dos uniformes... Camisas brancas, bermuda, calça, saia cáqui. Sandália franciscana pra entrar na escola. Fila do menor para o maior – Hino, Pai nosso... Entrada, cimento vermelhão brilhando, crucifixo na parede, Ave Maria! Chamada, chamados, presentes ou “F”aos ausentes. Lixeira atrás da porta, Apontador a manivela, Carteira de madeira com ranhura pra por o lápis e buraco dedicado para a borracha. Chegaram outras mais modernas... Anatômicas, verde claro no tampo e nem tinha onde por o lápis ou a borracha. Progresso (?)
- Franciscanas?
- Você não sabe nada de nada? Sim, franciscanas eram nossos calçados de uniforme. Acho que porque lá é muito quente a sandália nos favorecia. E ai de quem não fosse pra escola com o uniforme completo, possivelmente voltaria pra casa sem assistir a aula.
- Puxa...
- Pois é. Assim que era. Uma vez um colega tinha um machucado no pé e foi de havaianas nos dois pés. O comum era que, pra honrar a farda, se usasse uma havaiana no pé machucado e franciscana no outro. Daí quando estávamos na fila a diretora deu aquele ralho geral e viu o meu colega de havaianas.
“- Fulano, porque não está de uniforme completo?!?!?
- To com o pé esquerdo machucado, psôra...
- Então porque não veio com a franciscana no pé direito e havaiana no machucado, fulano?
Numa argumentação inédita, coerente e inquestionável o aluno respondeu:
- E não estaria, ainda assim, incompleto, psôra?
...
- Hoje passa, mas sara logo esse pé! - Disse resignada.”
- Moleque esperto esse.
- Não sei se foi impressão minha, mas acho que a diretora ficou vermelha.
Ele olhou na direção do ocaso.
- Tá vendo esse por do sol? Comparando-o com o nosso, parece em preto e branco. Lá em Araguacema tem o mais belo de todos. Do mundo todo.
- E o Senhor Já viu o do mundo todo?
- Não, mas não pode haver outro mais belo que o nosso.
E ficou em silêncio por instantes, parecendo arrumar os pensamentos.
- Araguacema, da Igreja Menonita com sua bíblia de reboco na parede na entrada, Pastor Teodoro, pano vermelho atrás do púlpito, encenação de natal; Gaspar, Ireno, José Fernandes, Erismar, José Dirceu, D. Ana tocando harmônio... Escola dominical, Davi derrotando Golias, Sansão sendo derrotado... Dalila! Queixada de jumento.
- Queixada de jumento?
O outro esperou um caminhão barulhento passar na estrada, fitando-o até desaparecer deixando um rastro de fumaça.
- Sim. Quando eu ia à escola dominical, nos davam uns livrinhos bíblicos com ilustrações, e um deles tinha uma imagem de uma batalha onde Sansão – se minha memória não estiver me pregando peça – abatia alguns inimigos com a queixada de um jumento.
- Ah...
- Araguacema, Araguacema de tantas lembranças
Dos sete copas da Gentil,
Do Flamboyant da Independência
Dos flamboyants da Alvorada
Das Palmeiras do murinho dos padres
Dos cinzeiros dos campos de futebol
Das mangubas da porta de casa e da porta do seu Juarez
Dos “pau” de pular no rio, tantos... rio cheio
Do quintal da nossa casa
Do quintal do Abraão
Do quintal do Borges
Do quintal do João cunha
Das ruas da minha infância, Muricis, Couto, Santa Maria e tinha uma Rua da Minha Saudade.
- Bonito nome.
- Também achei, mas o nome de verdade era a Rua Frei Francisco. Foi uma colega que escreveu um conto e a rebatizou com esse nome. Achei mais bonito, sem querer desmerecer o Frei.
- Seria mais bonito mesmo. O que mais tinha lá?
- Ê Araguacema que gostava de falar mal das cidades vizinhas... Santana do Araguaia, Caseara. Dois Irmãos então... Coitados. Hoje, me parecem ser não muito diferentes.
- Araguacema de poeira vermelha, Borges do Piranha, do Piranha sem ponte, Do Lajeado com bueiro que o João do Rosa passou por dentro e saiu todo ralado, mas vivo! Das dificuldades pra se chegar, mais difícil ainda de se deixar... Bebeu da água do Araguaia? Vixe...
- Não seria “ Borges DA piranha”?
- Que sabes tu?
- Sei que piranha é feminino.
O outro pegou o chapéu pela aba e com ele se abanou...
- Essa piranha sua aí pode ser. O MEU piranha é masculino, pois é um rio. E naqueles tempos de setenta, oitenta a ponte era improvisada e só dava passagem no verão, quando o rio baixava. No inverno o rio enchia, a ponte sumia e o jeito era apelar para o seu Borges que morava do lado da cidade. Era uma dificuldade só. Uma vez eu e o Marcelo irmão do Tatá atravessamos a nado para poder avisar o seu Borges que precisávamos atravessar. Daí Ele pegava a canoa e Ia buscar os demais. E tinha uma boa caminhada ainda da margem até o ranchinho dele.
- Bem difícil, né?
- Hum! Se fosse só isso... Aí ele pegava uma bicicleta e ia até a cidade (uns 15 km) avisar o Pacheco ou outro carro pra nos buscar. A viagem toda, de Goianorte a Araguacema, demorava o dia inteiro.
- E o João do Rosa? Que aconteceu?
- Eu não vi, mas todo mundo soube do fato. Na estrada pra Dois Irmãos tem um rio chamado Lajeado e num inverno qualquer o rio transbordou passando por cima da estrada. O João do Rosa chegou junto com outras pessoas e estava tentando atravessar, mesmo sob aconselhamentos dos demais. E ele deu ouvidos? Foi andando já com a correnteza pelo joelho, quando escorregou e a força da água o puxou para o fundo e ele desapareceu. Todo mundo ficou num apavoramento perguntando pelo João do Rosa, Cadê, será que morreu? Sumiu! Depois de um tempo ele apareceu do outro lado da estrada. Passou por dentro da manilha e apareceu todo ralado, parecendo um bife de fígado. Não sei como não ficou entalado, barrigudo do jeito que era.
- Moço, que terrível.
- Pois foi assim. Pelo menos foi assim que ouvi.
- Pelo jeito o Sr. Viveu por muito tempo lá.
- Quisera, mas não. Aos dez anos me levaram de lá. Fui pra Goiânia, mas em coisa de um ano, pra minha felicidade, retornamos. Na verdade eu pensei que seriam tempos felizes, mas ninguém sabia de nada do futuro.
- Do que?
- Viria uma tempestade. Pra mudar tudo...
- O socorro chegou, ó o carro do mecânico!
- Vai lá, resolva seu problema e siga seu caminho.
E ele foi, mas voltou em seguida.
- Deixei o mecânico lá fuçando. Não ia adiantar eu ficar lá e eu não perco essa prosa é nada. Que tempestade? Deu enchente na cidade?
- Enchente até deu, mas não nessa época, ainda era mês de cachorro doido e não chove nesse mês. A enchente foi depois e lavou as minhas ruas e afugentou muita gente. Mas A tempestade foi outra e, para mim, mais devastadora. Na calada da noite os trovões soaram, raios caíram, me despertaram e quando vi, já estava andando pela rua, em desespero. O estrago foi grande lá e também cá. Manchas. Só ficaram os amigos de verdade, poucos, mas valiosos- E eu fui novamente de Araguacema e desta vez, apenas pra voltar de vez em quando.
E ouviram o barulho do motor do carrão funcionando.
-Parece que ficou pronto. Preciso ir.
-Vá, siga seu caminho.
- Obrigado por compartilhar suas memórias.
- Fiquei honrado por me ouvir. Poderemos nos encontrar qualquer dia desses. Tenho mais lembranças.  Agora vou entrar no lago.
- Vai se lavar?
- Não, apenas me refrescar. Já me lavei há muito nas águas do Araguaia. E as manchas não eram minhas...
 
 
 
 
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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

RUA FREI FRANCISCO

Esta Vai pra caçar intica com os meninos la da rua dos Muricis e da Thomás Vieira...

Zeila Oliveira
Colaboração especial em nomes, fatos e datas:
José Alano - Careca
Roosevelt Barreira

Rua Frei Francisco, rua de minha outrora e longínqua infância. Não foi la que nasci, mas foi lá que vivi parte da minha infância e juventude. Foi Lá que brinquei de pira, cobra-cega, caí-no-poço, queimada, até  quando o motor de luz nos dava sinal que era hora de ir pra casa e mal tínhamos tempo de apanhar nossas sandálias havaianas e sair correndo. Foi la que tomei banho de chuva,  que brinquei de casinha no fundo do quintal, que subi em árvores, foi lá que me apaixonei pela primeira vez, foi numa de suas esquinas que dei o meu primeiro beijo , foi lá que ganhei as mais belas e românticas serenatas de amor, foi lá que brincando descalça na rua de chão empoeirada, me vinham na cabeça  sonhos de um dia morar na europa, foi la que vivi os momentos mais felizes da minha vida, com papai, mamãe e meus seis irmãos. Ela se chama Rua Frei Francisco, em homenagem ao missionário italiano Frei Francisco de Monte são Vítor, que la viveu,  mas se eu tivesse que escolher um nome para ela, seria "Rua da Minha Saudade".

Debaixo das frondosas mangueiras dos quintais de nossas casas, fomos malabaristas, trapezistas, bailarinas, artistas de circo, com bilhetes comprados com papel de balas Nilva, e platéia assistindo sentados em tamboretes de madeira ou mesmo assentados no chão. Enquanto eu, minhas irmãs e amigas, nervosas por detrás das cortinas de chita que pegávamos emprestadas de nossas mães, nos preparávamos para o espetáculo,  alguém servia k-suco de groselha,  pipocas e puxas para entreter a platéia.

A Rua Frei Francisco, bem como todas as outras ruas, tinha pouca iluminação. Mas as noites eram prazerosas e divertidas. Nas noites de lua cheia, as crianças se divertiam com as brincadeiras de roda, amarelinha, salve latinha ou corriam atrás de vagalumes e era uma delícia. Nâo tínhamos televisão, vídeo gaime, Nintendo, ipod, mp3, mas éramos todos felizes.

Os adultos se metiam às portas de suas casas sentados nas velhas cadeiras preguiçosas e ficavam até tarde a contar histórias, que eu dizia: quando eu crescer vou escrever, pra nunca esquecer! Algumas até que nos enchiam de medo, como "alma penada", "homem da capa preta", "lobisomen", "aparelho chupa sangue", "disco voador"...

Em outras noites, éramos contemplados com alegres visitas em casa, sem sermos anunciados,  mas a gente não reparava isso, porque também fazíamos o mesmo,  e era aquela alegria, todos sentados, atentos ao compadre, comadre, filhos... e a certeza do café quentinho, acompanhado de bolinhos de chuva aumentava a nossa atenção.

A Rua da minha saudade é a penúltima rua da cidade no sentido oeste, sendo hoje a maior rua de Araguacema em extensão, embora ja tenha sido a menor em tempos remotos... seu crescimento ocorreu-se devido a grande enchente de 1980, que obrigou muitos de seus moradores a se mudarem para parte alta da cidade. O progresso veio mais tarde, em 1991, no governo Moisés Avelino, ganhando asfalto em toda sua extensão.

Teve como fundador e primeiro morador, seu Raimundo Pereira dos Santos, conhecido como seu Raimundo Gordo. Ele a desmatou com auxílio de foices, machado e enxadas e fez a abertura da rua, onde construiu sua residência no local que hoje reside Juracy "Saltachão". Seu Raimundo Gordo, trabalhou na reforma da igrejinha em ruínas, nos anos 30. Casado com Ana Pereira dos Santos, popular (dona Ciana), pai de Carmosina, Mundica, Maria das Graças, Tim Maia e Iranildes (Pibeca). Seu Raimundo Gordo faleceu em 1978 deixando como legado para seus filhos e netos o seu exemplo de honestidade, responsabilidade e coragem.

É a única rua de Araguacema que possui dois monumentos históricos. As ruínas da Igrejinha  e o muro de pedras. A igrejinha hoje em ruínas, foi a primeira igreja a ser construída em Araguacema, sob a orientação de Frei Francisco, no século XIX, por volta do ano de 1861, com o nome de "Igreja Nossa Senhora da Divina Providência", em homenagem a santa padroeira da cidade.

Rua do pecado, dos prazeres e dos amores...sim, dos amores escondidos, dos prazeres proibidos, dos desejos libidos... A famosa "Rua do Bom que Dói", era assim chamada por abrigar nela o cabaré Acajá e suas meretrizes. Mulheres belas, jovens, esbeltas, vestidas em minissaias, batom vermelho encarnado nos lábios, unhas grandes com esmalte rubí, tamancos de salto alto anabela, cabelos acajú ou louros oxigenados, sinal de beleza perto dos lábios, na maioria das vezes, desenhado com lápis de passar nos olhos e cigarro na boca, para completar o charme.
Eram desprezadas e ultrajadas, pelas senhoras "respeitáveis" que abominavam aquele estabelecimento, pavorosas que seus maridos se deixassem sucumbir à sedução e aos encantos de uma  "mulher da vida", "mulher da zona" ou "raparigas", como eram tratadas.

Rua do Luís Vandevô. A princípio conhecido como Luís do Cabaré, pois este também era proprietário de um "fôia" palavra utilizada para os cabarés naquela época. Algum cliente importante, em visita a tal recinto, sugeriu-o, que  passasse a se chamar Luís "Vandevus", porque era mais chique. Tempos depois uma má língua lhe disse, que "vandevus" significava cabaré em outro idioma.  Quando este veio a descobrir o significado da tal palavra, tomava por inimigo aquele que assim o chamasse. Mas não teve jeito, a onda pegou e todos o chamavam de Luís Vandevô.
Hoje como estudante da língua francesa, penso que eles queriam dizer "vendez-vous" que empregado neste contexto seria, vende-se o corpo, ou vendei-vos.
Luis Vandevô iniciou sua carreira de comerciante com um buteco, onde vendia cigarro Continental, Hollywood, Minister e Arizona e cachaças como Tatuzinho, Caninha da Roça, Velho Barreiro, Pirassununga 51 e cervejas Brahma e Antarctica resfriadas na areia. E só quando passou a vender gêneros alimentícios é que ganhou o pretígio da sociedade e passou a ser chamado de Luís de França. Pintando mais tarde em letras bem grandes na parede de seu estabelecimento "CASA BOA SORTE DE LUÍS ALVES DE FRANÇA". 
Luís de França tornou-se um homem próspero e muito honrado, proprietário de muitas casas de aluguel. Após a enchente,  mudou-se com a família para a Avenida Presidente Vargas, onde ampliou ainda mais o seu comércio.  Anos depois, preocupado com a educação dos filhos, mudou-se para Goiânia onde viveu seus últimos dias. Casado com dona Domingas, pai de Edileuza (Tilica) Euclides (Kid) Edvan (in memoriam), Edneuza, Emival, Helena e Hélio (in memoriam).   

Rua de dona Raimunda Pereira dos Santos (dona Mundica) que também foi uma das primeiras moradoras.

Rua de dona Graça e seu Herculano. Dona Graça é irmã de dona Mundica e filha de seu Raimundo Gordo. Conhecida como a boleira mais famosa de Araguacema. Procurada por todos os turistas pelos seus deliciosos bolos de arroz, de mandioca, roscas e etc.

Rua de dona Feliciana, proprietária do mais famoso Bar daquela época. Freqüentado pelas meretrizes e peões de fazendas. Era de lá que dona Feliciana tirava o sustento da família. Mulher valente, corajosa, de timbre de voz forte. Mãe de Nadir e Maraísa, duas belas moças, de seu tempo. Avó de Márcio, Jânio, Marilângela (Langinha), Margarete, Elisângela , Marlon, Marlos (Negão)  e  Karine.  

Rua de dona Antonia, mãe  de Erlinda e Evelina Noleto, as mocinhas que arrancavam suspiros da rapaziada. 

 Rua de dona Zefa Cantadeira, avó de Tânia e do nosso querido Luizinho.

 Rua que abrigou no seu coração, Francisca Clara Lima, conhecida como Chica Preta,  nascida em 6 de janeiro de 1906, foi uma das pioneiras na rua Frei Francisco. Chica Preta era boleira e trabalhou na função de doméstica por muitos anos na residência do Sr. João Gago (que era comerciante e esposo de dona Neném).
Quando trabalhava para o sr. João Gago, passou por uma grande decepção em sua vida, um certo dia desapareceu um dinheiro na residência de João Gago e logo suspeitaram dela. Para se ter certeza o Sr. João Gago mandou chamar um curandeiro para "Responsar" que seria o ato de provocar a devolução do objeto roubado. E o curandeiro com o nome de Melquíades apontou Chica Preta como responsável pelo roubo.
Chica Preta, mesmo afirmando que era inocente, não teve jeito, foi parar no xilindró. Já atrás das grades, mandou chamar uma grande amiga, alguém de muita influencia na cidade, Dona Amujacy Coelho, e disse para ela que não havia roubado o tal dinheiro, Dona Amujacy conhecendo o caráter de Chica Preta, imediatamente mandou soltá-la.
Chica Preta era benzedora de arca caída, amarelão, dor de dente, quebranto, vento virado, pessoas ofendidas de cobra, engasgada e outros tipos de doença. E assim rezava com fé " Cum a fé no coração, e treis de gaio de pinhão, treis veiz rezano incruzado, panariço e sete côro, firida braba e friêra, murdidura de bisôro, má de izipira e cocêra e tudo inquanto é firida, dô de ispinhela caída, garganta inchada e papêra, cumigo num tem gogó, essa história de agunia, quebranto, oiado, três-só, injôo e manicunia, sarna, bixiga e sarampo, ligêro como relampo, cura da noite pru dia."
Sempre fiel à Igreja Católica, fez amizade com todos os padres que passaram pela paróquia, na sua época.  Devota de Santo Reis, comemorava todo dia 6 de janeiro, com fogos, folia de reis e ofertava bolos para toda a vizinhança.
Chica Preta foi uma pessoa de vulto significante na história cultural e social de Araguacema. Faleceu em 24 de Março de 1997 aos 91 anos de idade.

Rua de dona Maria Sofia da Silva, conhecida como Dona Passarinha, mãe de Dona Maria Auxiliadora, vó do Nonato, Onerzã, Ernane, Silas, Sandra e Suzi.  Companheira de pesca da menina Leida, juntas pescaram muitos mandis, lambaris, patacas, piaus e compartilharam muitos segredos antes não ditos por dona Passarinha e jamais revelados pela menina que soube guardar consigo os segredos de uma verdadeira amizade, apesar da grande diferença de idade. Dona Passarinha tinha a voz trêmula em consequência de uma enfermidade na garganta, que anos depois a levou a morte.

Rua de Lucas Alves de Amorin, o saudoso LUQUINHA. Luquinha foi uma figura muito divertida que morou na Rua Frei Francisco durante muitos anos. Trabalhava de diarista limpando ruas, quintais e por muito tempo zelou do pátio da torre de Televisão para Prefeitura.
De origem desconhecida, Luquinha era solteiro, nunca se casou e não se tem registro de nenhum filho dele, tinha uma aparência física bizarra,  o rosto cheio de glândulas que formavam pequenos lombinhos, que eu chamava de verrugas,  de estatura muito baixa, sua semelhança era de um quase anão, talvez por isso ele se tornou uma atração na cidade, muito engraçado, brincalhão e carismático.
Luquinha faleceu na década de 90 vítima de cirrose, devido o excesso de álcool que ele consumia. Sua partida inesperada e precoce deixou saudades na cidade e principalmente na Rua Frei Francisco.

Rua do Sr. Manoel, popular MANÉ GATO ele era o máximo, sempre andava com um saco nas costa, tanto de dia, quanto de noite, era raro alguém ver ele sem esse saco, vivia pelos lixos da cidade a colecionar latas vazias de embalagem de óleo de soja, na época o óleo de cozinha era vendido em lata. As pessoas na rua, curiosas perguntavam o que ele iria fazer com tantas embalagens vazias e ele explicava que ia construir uma casa. E as pessoas indagavam mais, queriam saber se para tal, ele abriria as embalagens, ele explicava que não, que faria a casa com a embalagem inteira, montando um lata sobre a outra. Seu Mané Gato conseguiu juntar uma quantidade enorme de latas em seu quintal, mas ele morreu antes de realizar seu sonho.
Ele morava na Rua Frei Francisco no local que hoje é a residência da Sra. Lindalva Patureba. Seu Mané Gato só andava a pé, devido um grande susto que passou quando viajando de carona na carroceria de  uma caçamba para a cidade de Colméia, em busca de sua aposentadoria, numa freada brusca foi lançado de um lado para outro da carroceria, fazendo com que ele nunca mais andasse de carro, ele preferia buscar sua aposentadoria a pé.

E quem não se lembra das belas morenas de cabelos encaracolados e sorriso cativante, Zélia, Zelina e  Zelite? Pois bem, elas moravam alí na casinha verde que mais tarde serviu de cabana do amor, para Viturino e Judite quando se casaram. Filhas de seu Tomás de Aquino e dona Jardilina Pereira da Silva (dona Jarda). Irmãs de Rodolfo, Claudionor e Américo.
Américo aos 12 anos de idade, resolveu antes do almoço, tomar um banho nos lajeiros, acima do porto das mulheres, ficando seu corpo preso entre os lajeiros. Minutos depois, os colegas sentindo falta de sua presença, mergulharam imediatamente a sua procura. Américo ainda foi encontrado com vida, mesmo assim veio a óbito para grande tristeza de sua família.
Rodolfo casou-se com Maria José, filha de seu Marquinhos (Marcos Dias de Almeida) e dona Nêga (Filismina Rodrigues da Silva) pais de Wellington, Elaine e Oziel.
Dona Maria José foi uma das melhores costureiras de Araguacema na sua época, ela faleceu de parto, ao dar a luz do seu filho Oziel, sendo ela ainda muito jovem.
Wellington foi criado pelos avós, dona Nêga e seu Marquinhos, que moravam em frente a minha casa e era muito divertido ouvi-la chamá-lo: - Welto mininu, nu pim do mei dia, tu virou relampo?!!!

Rua de Dona Ana Vieira da Costa, mãe do Saltachão. Dois verdadeiros relicários da Rua Frei Francisco.

Rua de seu Adãozinho Pescador. Pai de Zequinha, Euzamar, Juvenal (Juca) Edna, Ivonete, Edite, Eunice, Elizene e Rúbia, esposo de dona Carmosina, até que a morte os separou.
Seu Adãozinho, passou a vida entre redes, linhas, anzóis, remos, canoas... entende a cor, o cheiro e o barulho das águas. A pesca era o seu ganha-pão.

Rua do menino, de sorriso tímido e olhar cativante, que veio lá de Araçatuba-SP, no ano de 1977. Se enamorou pela Frei Francisco, e só a deixou quando se encantou pela doce Rogéria. Estamos falando de Maurício, filho de dona Deise e neto de dona Matilde. Dona Matilde faleceu em 2006, aos 98 anos de idade, sendo considerada a pessoa mais idosa que alí viveu.
 Rua de dona Biluca, mãe de Nenzica e avó de Gilvaní. Sempre viveram alí. 

Rua de seu Majó e Dona Minelvina, pais de uma bela prole: Oscar, Oneide, Osmair, Ocimar, Ocineide... mudaram-se para Brasília, no ano de  1978, deixando um imenso silêncio na Rua Frei Francisco, que só foi preenchido com a chegada de João Oliveira e sua renca barulhenta (Leila, Leida, Zeila, Murilo, Tito, José Alano (Careca) e Jânio), quando comprou a casa que pertencia ao senhor Majó.

Rua de dona Suzana, Tio Bilô, professora Eurídice e Suzete... 

Rua do nosso querido professor Carlos Bronze, professor de Educação Física, que tinha como paixão  ser piloto de avião, abandonando assim sua carreira de professor para realizar seu grande sonho. Fatalmente o destino interrompeu sua trajetória, privando-nos da sua alegria e vontade de viver. Ele passou pela vida como um cometa, mas deixou muitas saudades para família, amigos e ex-alunos.

Rua de seu Geraldo Barcelar, homem humilde, trabalhador, prazenteiro e muito prestativo. Casado com Dona Conceição. Desta união nasceram: Werbena, Dejangru, Arapuanan, Cipriano e Aparecida.
Werbena faleceu aos 6 anos de idade, vitima de uma febre repentina, durante a enchente de 1980.

Rua de dona Geralda Barcelar, mãe de seu Geraldo, uma senhora muito tranquila que passava as tardes sentada à porta de sua casa a tecer tapetes de tiras. Vizinha de dona Anísia, mãe de sua nora Conceição. Esta por sua vez, era lamurienta, estava sempre a resmungar, vivia sozinha e era surda.
Rua de Dona Belcina, mãe de Lourival, hoje casado com Noêmia, que residem no mesmo endereço onde residia dona Belcina. Noêmia é paraplégica e anda de cadeiras de roda. Está sempre sentada a porta de sua casa, a pitar e pedir 1,00(1 real) pelo amor de Deus, a todos que por alí passam.
Dona Belcina sofria de uma ferida no pé, tinha poucos recursos e não recebia nenhuma assistência social. Quando aflita de dor, retirava querosene de suas lamparinas e passava na ferida. Seu pé, enormemente inchado, envolto em tiras de pano sujo, faziam-me lembrar  do Jeca Tatu, personagem das histórias em quadrinho, de Monteiro Lobato. Era a imagem viva do sofrimento, animada por um sopro de esperança: -  A de um dia ser curada. Lembro a última vez que a vi... guardo na minha lembrança remota, a ternura desse adeus.

Rua de Raimunda Ferreira da Silva, popular Dona Santa, a nossa "Madre Tereza de Calcutá". Mulher extremamente sensível, de indubitável bondade e de inteira doação aos outros. Cuidou de Rita (doida), até quando a saúde lhe acompanhou. Adotou como filha, Patrícia, filha de Rita. Estava sempre disposta a ajudar a todos que dela precisassem. Devota de São Lázaro, o santo padroeiro dos leprosos e dos cães de Rua.
Dona Santa  festejava o dia 11 de Fevereiro com um grande almoço para toda a comunidade, mas os seus convidados de honra eram todos os vira-latas da Rua que ansiosos aguardavam esse dia para  saciarem sua fome. Rua de João Araújo dos Santos, popular Bagiga.
Tinha uma de suas pernas amputadas,  e usava muletas, devido uma enfermidade que contraiu, quando trabalhava na caça e pesca. Era um homem humilde e sofredor, porém sempre sorridente e bondoso. Bagiga faleceu em 2004, aos 77 anos de idade.

Há umas boas centenas de dias, a rua Frei Francisco foi abrilhantada com a chegada de mais um ilustre morador, seu Luiz teodoro Coelho,( seu Sindô). Seu Sindô é  hoje o morador mais idoso da rua, sendo muito admirado e respeitado por todos.

 Rua do Zé Mulher!!!! Figura ímpar! Singular!!!! Zé Mulher tinha as pernas atrofiadas e a cabeça atrapalhada. Sofria de desejos sexuais reprimidos e de vez em quando resolvia exprimi-los, fazendo convites obscenos  para as pobres meninas ingênuas que por alí passavam, com suas trouxas de roupa na cabeça, em direção ao Porto das Mulheres.
Quando nervoso, da sua boca sortia um turbilhão de palavrões, seguidos logo após do arrependimento, então exclamava: Ôh divinu spritu santo!!! Rua onde nasceram e cresceram astros e estrelas como: John Lennon (filho da Valdina),  Wanusa, Wanderley Cardoso, Fagner e Rosana (filhos do Pibeca) e sua sobrinha Wanderléia.

 Rua de grandes atrações, mais parecia uma cidade cenográfica das novelas de época da Rede Globo, lá existiam lendas vivas e para completar o elenco de artistas desta graciosa rua, elas: Pau-que-Anda e Maria Borracha!!!!
Quem não se lembra desta divertida dupla? Maria de Jesus Batista Costa (Pau que Anda) Maria José Batista Costa (Maria Borracha). Duas irmãs gêmeas de descendência indígena, que chegaram em Araguacema, ainda adolescentes, e acabaram de ser criadas pelo Sr. Sandoval Simas e sua Esposa Dona Belinha.
Pau-que-Anda, ganhou esse apelido porque não parava em casa, passava o dia medindo rua e bebendo cachaça, o que acabou tornando-a numa alcoólatra. Com a idade avançada e os problemas de saúde devido o excesso de alcool,
Pau-que-Anda ficou cega e teve uma vida muito difícil, não era aposentada e vivia de favores das pessoas, Padre Afonso foi seu braço forte, sempre a ajudava com alimentos e costumava pagar suas tarifas de água e luz.  O corpo de Pau-que-Anda descansa hoje no antigo cemitério de Araguacema. 
Maria Borracha quando jovem, trabalhou como trapezista de circo e fazia ginásticas que impressionavam o público, ganhando assim o apelido de Maria Borracha. Quando saiu de Araguacema, Maria Borracha foi morar em Paraiso do Tocantins, lá viveu ainda vários anos, vindo a óbito em 2010.
Elas partiram e deixaram saudades, sem elas a Frei Francisco perdeu parte da sua graça e as brigas de Rua ja não tem mais tanta audiência. 

Rua do famoso Porto das Mulheres, para se chegar até ele via terrestre, só tem uma forma, ou seja passando pela Rua Frei Francisco.
Atualmente porto de maior movimento de embarque e desembarque de barcos e canoas, banhistas, lavagens de roupas, carros, pescarias e outros.
Porto que um dia alimentou muitas famílias de lavadeiras, que honestamente tiravam de lá o sustento de suas casas.
Porto que ouviu muitas conversas de lavadeiras, que batendo roupas cantavam e tricotavam, e guardou no seu mais discreto silêncio segredos de uma sociedade chamada araguacemense.  
Porto que deu asas as nossas mentes brilhantes de criança, sem nenhuma noção de perigo, saltarmos  dos seus barrancos na época das cheias, ou pularmos dos galhos das árvores, de atravessar nadando para os lajeiros e depois irmos até a prainha.
Meu olfato guarda lembranças do cheiro daquelas águas, que me banhavam  o corpo, e que hoje banham minha alma, nem sei de que: se de alegria, de esperança, de amor ou de saudade.
Porto que com sua beleza natural e seu romântico pôr-de-sol , serviu de cartão postal para os casais de namorados apaixonados,  que em seus velhos troncos tombados pela enchente se assentavam aconchegadamente como se estivessem na praça de São Marcos a contemplar Veneza.

Salão Paroquial, um nome associado para sempre na história cultural da Rua Frei Francisco. Ele serviu de palco de grandes eventos e comemorações, na década de 70 e 80. Foi lá que as belas jovens Perpeta Simas, Gracinha Cunha, Sandra Meneses, Luciley Mesquita e outras receberam os tão cobiçados títulos de "Miss Veraneio Araguacema".
Foi lá que o menino Luiz Otávio se vestiu de príncipe e a menina Flávia de Cinderela.
Foi lá que recebi meu diploma de professora primária, quando concluí o magistério.
Foi lá que tivemos nossas aulas de catequese.
Foi lá que recitamos poesias e cantamos canções de amor para nossas mães em homenagem ao seu dia. Foi lá que assistimos os mais divertidos  esquetes apresentados pelos jovens cômicos da época: Odair, Roxinho, Miguel e outros...
Sem falar nos memoráveis bailes animados por Antistas do Acordeon, que faziam nossos corações saltar de prazer, foi lá que dançamos os melhores bailes de nossas vidas... e foi para um  desses bailes que as jovens Dalvinha e Zeila, no ápice de suas vaidades, construiram uma passarela de tijolos de suas casas até a entrada lateral do salão, para não sujarem de lama suas belas sandálias.
A Rua dos apaixonados como Juracy Saltachão e Zequinha Torradeira que cantam para celebrar a vida, dos artistas como Aluízio pintor, e dona Antonia, esposa de seu Natalino, que através da arte registram um pouco das belezas naturais da nossa terra,
Rua de sonhadores como a Zeila, Leila, Careca,  que sonham com nossas praias limpas e águas transparentes, depois de uma temporada. Rua de pessoas que vêem a vida com olhos de um poeta, ouvidos de um músico e coração de quem ama.

...Rua que vive a melhor mãe do mundo, a minha mãe, guerreira, incrível e linda, que carrega no coração amor incondicional pelos seus filhos, aquela que faz meu coração bater mais forte, e merece as mais lindas canções de amor, a minha rainha!...
O que mais eu posso dizer da Rua da Minha Saudade? Ela não tem nenhum charme, nada de especial para alguém que não viveu alí. Mas para mim, cada esquina, me traz uma recordação.
Ainda me vejo criança, segurando na mão de minha mãe, parada em frente a nossa casa, conversando com uma vizinha. Existe um souvenir mais bonito que este?

Então só posso dizer que ela é mais bela que a Rua Thomás Vieira em toda a sua extensão, comparada pelo Paulo Henrique  à 5a Avenida em Paris, mais importante que a Rua dos Muricis comparada pelo Juarilson como a Via Ápia em Roma... para mim ela é ainda mais bela que a Grande Canal em Veneza, considerada uma das mais belas ruas do mundo, e mais rômantica que a Ponte di Rialto.

 
Zeila Oliveira.