sábado, 3 de março de 2012

ERNANE E OS BICHOS


   Comedido, meu primo Ernane sempre foi dessas pessoas que pensam muito sobre suas atitudes. Sensato, sempre pesou bens os prós e os contras de cada ato. Temeroso, sempre pensava na alternativa negativa que poderia acontecer. Pra comer um peixe, por exemplo, antes pensava na possibilidade de se engasgar com as espinhas, então recusava, apesar de querer comer. Dava um trabalhão convencer o Ernane a “embarcar” em nossas aventuras. Eram tantos, “e se...” que a gente muitas vezes esmorecia e deixava ele pra trás. Algumas vezes, a gente entendia, como sendo resultado da criação dura, que o tio Antônio lhe impunha, não podendo isso, não podendo aquilo. Mas passado tantos anos, percebemos que o Ernane tinha razão em estar sempre com “um pé na frente, outro atrás”, pois algumas coisas estranhas, diferentes, aconteciam com ele, então ele já era escabreado.
   Pois assim aconteceu que, numa bela tarde de setembro, chegam na Praia do Chicão, ele, o Ermilson, a Evinha e o Jonas, com intenção de caçar tracajás e seus ovos, muito tempo atrás. Fizeram a travessia do Araguaia na grande canoa a remo do tio Antonio. Chegando, cada um tomou uma direção à procura de rastros das tracajás, mas os rastros que atraíram mesmo o Ernane foram rastros dos maçaricos (sassaricos). Essas pequenas aves de pernas compridas e finas, tem o hábito de judiar de quem se mete a persegui-las, pois elas deixam o incauto chegar bem perto delas pra então levantar pequenos vôos e pousar logo adiante, deixando o sujeito naquela ilusão de que da próxima vez, vai conseguir pegá-la. E assim foi, com o Nane chegando bem pertinho, o maçarico voando e pousando logo adiante, até que chegaram numa pequena lagoa, no meio da praia, onde o esperto maçarico, vôou e pousou do outro lado dela. Seu perseguidor, ao chegar à lagoa, viu então, que haviam alguns tucunarés presos ali. Deixou o maçarico pra lá e se pôs a tentar matar os peixes usando um cacête que encontrara por perto. Muitas infrutíferas cacetadas depois, já cansado de tanto bater na água em vão, pois os tucunarés eram muito mais rápidos que ele, o Nane desistiu. Mas ainda não havia terminado, pois quando faltavam alguns passos pra ele sair da lagoa, a arraia de fogo o pegou no pé direito..., assustado, pulou pra frente, e quando colocou o pé esquerdo no chão, a arraia o pegou naquele pé também. Aos prantos, rolando na areia com os pés pra cima e gritando muito, se pôs a chamar pela Evinha que avisou os outros. Logo se reuniram, o colocaram nas costas e se puseram a percorrer a longa distância que os separava do local onde haviam deixado a canoa. Agasalharam o acidentado, que foi logo se apegando com o primeiro santo que se lembrou, e fazendo promessas, todas requerendo o imediato alívio daquela dor, em troca de nunca mais matar um passarinho, de nunca mais comer tracajá, etc... e se puseram a remar, coisa que não pararam nem por um minuto, até chegar em Araguacema, onde puderam medicá-lo adequadamente.
   Vítima da conspiração dos bichos, pois os maçaricos o atrairam, os tucunarés o distraíram e as arraias o executaram, o Ernane se tornou assim um dos poucos ribeirinhos a serem esporados pelas arraias, nos dois pés e na mesma hora. Restou porém uma dúvida: foi a mesma arraia, ou foram arraias diferentes, que lhe impuseram aquele castigo?
   Em uma outra ocasião, ele atendia a ordem do tio Antonio, de procurar pelas vacas, acompanhado de dois amigos, o Cláudio e o Caôlho. Como sempre faziam, iam passarinhando pelo caminho, colhendo frutas e jogando conversa fora. A enfieira de passarinhos mortos já tava grande, amarrada na cintura, quando chegaram ao Ponte Grossa, e já sedentos, resolveram contornar a grande ponte de madeira e atravessá-lo  por baixo. Desceram, lavaram os rostos e beberam água fresca, e se puseram a transpassa-lo por cima de um grande tronco caído. Passou o primeiro, passou o segundo, quando foi a vez do Ernane, um dos que já estavam do lado de lá, gritou:
_ óia a cobra!
   Amedrontado ele foi olhar e escorregou, colocando a perna bem ao lado da jaracuçu. Não deu outra, ela o picou bem acima do joelho, na parte posterior da perna. Como que pra vingar a morte daqueles passarinhos, a cobra não perdoou. Desesperado, gritou pros companheiros voltarem e se pôs a correr de volta pra Araguacema, não sem antes, arrebentar a baladeira liga-de-sôro e amarrá-la acima da picada, pra diminuir a circulação sanguínea. E, apesar de ter corrido e “agitado” o sangue, conseguiu chegar em sua casa, onde encontrou toda a família reunida na cozinha. Foi entrando e pensando em dar aquela notícia “com jeito” pra não preocupar muito a tia Maria, disse:
_ gente, eu tenho uma notícia ruim pra dá.
Alguém perguntou:
_ que foi? A Malhada morreu?
_ não.  A Malhada tá bem...é que...
_ah, então so pode ter acontecido alguma coisa com o Barrabás...(o marruco) que foi?
_ não gente, o Barrabás também tá bem. É que... é que fui picado de cobra bem aqui ó.
_ah... onde foi?
E levaram o Nane pro hospital, onde iniciou se um tratamento a base de anti-ofídico. E terminou tudo bem.
   Bom companheiro, o primo amigo Ernane sempre tentou minimizar nossas traquinagens de garotos. Sem a sua opinião equilibrada, talvez em alguns casos, teríamos ultrapassado os níveis de peraltices ingênuas, pra pequenos delitos mais graves.
Êita Araguacema véia...
JUARILSON AZEVEDO

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

UMA LEI CONTRA O MAU ELEITOR


Ontem, 16/02/2012, o STF julgou a constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa e sua validade para as eleições vindouras, cujo resultado da votação traduziu a vontade dos milhares de eleitores que, como eu, subscreveram um abaixo-assinado para pressionar os parlamentares a aprová-la, mesmo a contra gosto, uma vez que ela feria de morte os interesses espúrios da maioria.
É bem verdade que essa Lei seria plenamente dispensável, caso a consciência cidadã fosse predominante entre os eleitores deste país, ao ponto de jamais termos de engolir nossa indignação, ao vermos bandidos de colarinho branco nos representando como se fossem pessoas de bem. Afinal, ao se juntarem, legitimamente aos bons, pois foram eleitos, passam a ostentar uma aura de santidade, publicamente, embora nos bastidores ajam de acordo com o caráter que os (des) qualifica.
Mas seria mesmo uma utopia acreditar que uma geração de maus eleitores responsáveis pela recondução ao Parlamento de políticos corruptos contumazes se regenerasse da noite para o dia e passasse a votar pensando no quanto faz falta às criancinhas deste país o dinheiro surrupiado por esses malfeitores travestidos de parlamentares ou governantes.
Se, ao menos, os descendentes dessa geração, politicamente inconsciente, fossem orientados a exercer com responsabilidade o direito de voto, ao ponto de serem, eventualmente, uma vez só enganados, mas não duas, restaria esperança de melhores políticos, sem que precisássemos de uma Lei tutora.
Mas, como a nossa realidade presente não aponta para esse ideal, saúdo o surgimento de tão benfazeja iniciativa popular que deu origem a essa tão bem-vinda Lei cidadã, há muito esperada pelas pessoas de bem.
Finalmente foi-nos possível barrar as pretensões de milhares de oportunistas que pleiteavam um mandato para se tornarem imunes às ações da Justiça contra seus crimes e malversações do patrimônio publico. Doravante, o que parecia incorrigível terá, aos poucos, mas bastante perceptível, uma nova cara de confiabilidade, ao termos certeza absoluta de que os que nos representam passaram pelo crivo moralizador desta auspiciosa Lei.
Zé Modesto.
Brasília, 17 de fevereiro de 2012.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A CASA DO JOÃO-DE-BARRO

Há tempos que eu observava aquela linda casa na copa da árvore. Sempre que passava por ali, e isso não demorava acontecer, eu me perguntava: cadê ele?
Naquela região de cerrado baixo, bem antes do Môrro do Augustinho, a gente passarinhava sempre, pois era abundante a passarada. Passávamos também procurando por alguma vaca parida do tio Antônio, e às vezes passava acompanhando a Evinha, em busca de frutas, fosse oiti, ou pequi, ou passando pro brejo, em busca de buritis. Mas ele nunca estava lá. Então concluí que ele havia abandonado a casa.   
A árvore era uma sambaíba, de baixa estatura, casca grossa, tronco retorcido e folhas grandes e ásperas. Seus galhos não são muito resistentes, o que me causou certo medo, pois a casa estava situada em uma forquilha já próxima de sua extremidade.
Mas fui até lá e a arranquei, quebrando a ponta do galho. Levei – a pra minha casa.   Não sabia eu, que ela não estava abandonada, é que seu dono, por ser excêntrico, não usa a mesma casa por duas temporadas seguidas, promovendo sempre um rodízio entre duas ou três casas. Seu dono era um joão-de-barro, e havia milhares deles nos sertões de Araguacema.  
Inteligente e trabalhador, o pedreiro da floresta constrói sua moradia em forma de forno, misturando palha, estêrco seco e barro úmido. Ela é dividida em dois compartimentos, ou seja, em quarto e sala. A porta permite que o pássaro entre sem se abaixar e está sempre virada para o norte, impedindo assim, que o vento atinja seu interior, o que ajuda a proteger seus ovos e posteriormente seus filhotes.
Construída entre 18 a 30 dias, a bela ave, faz entre 500 e 2000 vôos diários carregando o material necessário. Suas paredes tem até 05 cm de espessura. Um espetáculo da natureza.  
O joão-de-barro, de nome científico Furnarius rufus (furnarius em referência ao formato de sua casa, forno, e rufus, por causa de cor de seu dorso), famosa em todo o Brasil, é também bem conhecida no exterior, na Argentina, por exemplo, é considerada “ave de la pátria“, e é conhecida por hornero.  
A primeira providência de um joão-de-barro adulto, é arranjar uma companheira, a joaninha-de-barro, que o ajuda na construção da casa, mas isso não é constante, e na difícil missão de incubar os ovos e alimentar os filhotes.
Quando assumem compromisso, é pra vida inteira. Cantam juntos todas as manhãs e todos os fins de tarde.

O João de Barro pra ser feliz como eu
Certo dia resolveu
Arranjar uma companheira
Toda manhã o pedreiro da floresta
Cantava fazendo festa
Pra'quela que tanto amava

 Sim, vivem sempre em casais que nunca se separam. Alimentam-se juntos, revirando folhas à procura de cupins, formigas, etc... ou debaixo de troncos caídos, em busca de minhocas.  
Chegando, acomodei a casinha de barro, em um cômodo que usávamos pra guardar brinquedos. Pensava eu em pintá-la e presenteá-la à minha mãe, pois ficaria muito bonita ornamentando a sala de estar. Quanta ingenuidade.   
O lindo e famoso pássaro, ave símbolo de um país, embora seja a Argentina, vai, já teve sua vida cantada em verso e prosa muitas vezes, sendo a mais conhecida, uma canção que foi eternizada nas vozes de Tonico e Tinoco, e é cercado de lendas. Uma delas diz que, se o macho for traído, pode se vingar fechando a porta da casa com a fêmea dentro, condenando-a a morte, por isso que um trecho da música diz:

Mas quando ele ia buscar o raminho
Para construir seu ninho
O seu amor lhe enganava
Mas nesse mundo o mal feito é descoberto
João de Barro viu de perto
Sua esperança perdida
Cego de dor trancou a porta da morada
Deixando lá sua amada
Presa pro resto da vida

Particularmente, prefiro outra lenda, que conta, havia um homem chamado João, muito bondoso, fazia casas de barro e capim, na posição correta, virada sempre para o nascer do sol.  Tão bondoso que não cobrava para construí-las. Certo dia, Deus o levou pra perto de si, deixando todos em prantos aqui na Terra. Como o desespero era grande, para consolar-nos, Deus criou o joão-de-barro, e ensinou-o a construir suas casas do mesmo jeito.  
Mas o sossego daquela casa eu já havia estragado, pois havia retirado-a de seu endereço original e não tinha feito nada do que tinha planejado.   
Passados alguns dias, estávamos eu e o Tom debaixo dos flamboyants da Praça da Independência, brincando de Zorro X Sargento Garcia, (eu, o Zorro...), usando os faveiros negros e secos, como espadas, quando o feri mortamente na barriga (um arranhãozinho de nada), e... o tempo fechou!
Disparei na carrêra na direção da casa de Elias Bosaipo e ele atrás, pega, num pega, mas teve que frear na porta, porque lá “a conversa mudava”. Fiquei por lá, protegido, e ele voltou faiscando...e foi direto para o cômodo dos brinquedos. O que ele fez, pra se vingar? Levantou a casinha do joão-de-barro acima da cabeça e pummm... foi pedaço pra todo lado.
Quando cheguei de volta e vi o estrago, fui atrás dele, e então foi a vez dele correr... disparou em direção a casa da vó Chiquinha, descendo ali pela Couto Magalhães, mas eu achei um caco de telha, então, calculei a velocidade do vento, calculei o “efeito”, e arremessei... rapá, o resultado você pode conferir quando estiver em sua companhia, observe bem no alto da testa, um pouquinho pra direita, a cicatriz... no momento que ele olhou pra trás tentando ver que distância eu tava, o caco chegou...   Pobre joão-de-barro...


JUARILSON AZEVEDO