sexta-feira, 26 de agosto de 2011

ARAGUACEMA COMO PAIXAO E O ARAGUAIA COMO SEPULTURA


ZÉ DA CODESPAR - zemonet@gmail.com

Era novembro de 1965, quando cheguei a um conjunto de belezas naturais em cujo centro
estava incrustada uma cidadezinha que se debruçava sobre margem direita do extasiante Rio
Araguaia. Eu estava vindo de São Paulo para gerenciar a Codespar, um projeto agropecuário
localizado no coração da floresta paraense, cuja sede ficava em Barreira de Campos, distante
de Araguacema 120 km rio acima.
Foi amor à primeira vista, não propriamente pela cidade em si, cujo aspecto físico denotava
muita precariedade, mas pelas pessoas que, rapidamente, eu conheci e se deram a conhecer e
pela exuberância das belezas naturais que a rodeiam.
A Igreja Católica e o Convento das freiras, tal como ainda hoje, erguidos na margem do Rio,
como atalaias, davam a falsa impressão de haver uma grande cidade por trás deles, aos que
chegavam de barco, vindos de Santana do Araguaia.
Quando eu conheci Araguacema a praça e o Bar das Gaivotas, esses diademas idealizados e
executados pelo operoso prefeito Mano, ainda não existiam, mas na praia em frente à cidade
havia uma aldeia dos Carajás, o que não impedia que ela fosse freqüentada, raramente, pelos
boêmios e namorados escondidos pelo saranzal que não mais existe.
Subindo rio acima, passando pelo Orfanato mantido pelos adventistas, chega-se à chácara do
Juarez, cuja localização oferece um panorama do Araguaia onde Deus concentrou tudo o que
há de beleza natural nesse fabuloso rio. A vista lá do alto que se tem do Araguaia é algo que se
eterniza na retina e se transforma na verdadeira Magia de Lembrar.
O professor e poeta araguacemense José Wilson Leite, de quem tive o prazer de ser amigo,
escreveu: “pode ser que exista alguém que te queira como eu te quero”. Pois é! Eu
personifiquei essa dúvida do poeta, ao compartilhar com ele esse querer apaixonado.
Com vinte e quatro anos de idade eu tinha toda experiência e malicia da cidade grande que de
quase nada me valeram, quando eu conheci a pureza de alma traduzida na sinceridade de uma
amizade oferecida a mim pelas pessoas do lugar.
Citar nomes é sempre suscetível de injustiça, mas não posso deixar de me lembrar de tantas
pessoas marcantes em minha vida, por terem feito parte de minha vivência em Araguacema,
cujos filhos, alguns deles, estão presentes nesta Magia de Lembrar, Intermináveis II
Mano era o prefeito totalmente acessível, cuja importância do cargo não o tornava arredio
aos papos jogados fora e, muito menos, aos freqüentes bailes organizados ou improvisados.
Seu dinamismo administrativo era notável, na medida em que dotava a cidade de praças,
logradouros, colégios, policiamento, além do salto da qualidade educacional dado por ele, ao
trazer de Goiânia professoras qualificadas para dirigir o recém construído colégio estadual. As
qualidades morais e comportamentais desse homem público me impressionaram e me
serviram de inspiração para que a importância do meu cargo não me tornasse esnobe, ou
metido a besta, como se diz, no trato diário com as pessoas simples
.
Aldir Lira era um homem notável por sua beleza física, mas também o professor dinâmico, com
uma liderança marcante e um sentimento de hospitalidade que dignificava o nome da cidade,
pela qual ele se doava.
Seu Dodô, apesar da idade, tinha uma vitalidade física impressionante e uma expansividade
contagiante, mesmo no trato com os estranhos como eu.
Cesário Borges era um homem de negócios carismático capaz de cativar a confiança dos que se
achegavam ao seu estabelecimento, pela sinceridade que seu olhar e suas palavras inspiravam.
Um homem comunicativo e divertido que tinha o dom de saber brincar sem ofender. Ele era
também proprietário, juntamente com sua sogra, D. Hortência, do Hotel Amazonas onde se
hospedavam, preferencialmente, os pilotos de taxis aéreos.
Infelizmente esse promissor empresário faleceu em um acidente no qual se envolveu seu
caminhão, quando a Belém-Brasília ainda não era asfaltada e o tráfego crescente de veículos
provocava muita poeira.
Uma particularidade me chamava a atenção: seus filhos, com d. Jesus, tinham nomes
curiosíssimos como: Vag-Lúcia, que vive na Alemanha, e Vag-Leide, duas lindas mulheres hoje;
Vag-Lan e Vilobaldo eram os dois garotos, dos quais não tenho notícias, como também não me
lembro se há outros filhos.
Antenor Barreira era mais amigo do que farmacêutico, tal era seu envolvimento com o doente,
a ponto de cuidar gratuitamente de quem nada tinha para lhe pagar
.
Onildo Cunha era o ex-prefeito por quem toda a cidade rendia respeito, quase veneração, em
virtude de uma administração municipal irrepreensível, em sua única gestão.
Ivone Carvalho, além de minha primeira amiga, juntamente com Aluisio, seu culto e bem
informado marido, era também a dona do Hotel Araguacema, onde me hospedava, quando
vinha à cidade, e onde almoçavam passageiros e tripulantes da Vasp. Era ali que me sentia em
casa, pelo cuidado quase maternal que ela dispensava a mim, providenciando sempre algo
especial e até mesmo “moças de bem” para namorar.
Ivan se tornou minha grande amiga porque, além de um papo amigo muito descontraído, era
em sua casa que a turma da boemia se reunia, em um ambiente seleto e sadio, para conversar
e se alegrar com canções regionais, ao som dos violões magistrais do Rani e do Olimpio.
Laranjeira era o proprietário da outra farmácia onde fiz algumas compras emergenciais para
socorrer peões e esse relacionamento comercial me levou a conhecer a figura humana que se
escondia naquele ar de indiferença. Na verdade, sua mansidão refletia essa admirável
integridade de caráter herdada por seus filhos e eu procurava me espelhar nele.
Sargento Modesto (Claudionor) chegou de São Simão para policiar a cidade, mas não tinha o
que fazer em uma cidade absolutamente pacífica e sem nenhum soldado a comandar. Ficamos
logo muito amigos, mesmo porque ele morava no Hotel da Ivone, onde eu me hospedava. Daí
em diante éramos colegas de noitadas até que ele se converteu ao evangelicalismo adventista
e eu continuei me divertindo. Era bom de bola, mas sua crença também lhe tirou este prazer.
Aldenor Lira, irmão do Aldir, teve um fim trágico, juntamente com sua esposa, fruto de fuxicos
e intrigas de quem não suporta a felicidade do próximo. Sua casa ficava ao lado do Hotel
Amazonas, onde o entra e sai de pilotos era intenso e propicio ao disse me disse que gerou a
falsa versão de que sua esposa estava lhe traindo com um dos pilotos. Aldenor ficou cego de
dor, ao saber disso, e, ainda possesso de fúria, entrou em casa e executou a esposa com vários
tiros, antes de se matar, sem nenhuma conversa ou pergunta. A cidade ficou em choque,
naturalmente.
Zé Corró e sua esposa Petronília tinham três filhos, dois dos quais, Wilson (Bode) e Zé Wilson,
eram crianças ainda e, mais tarde, me tornei grande amigo do Wilson, antes mesmo de ele
brevetar e se tornar dono de um avião. Alguns anos depois aconteceu uma tragédia que feriu
de dor a mim e a cidade.
Depois de uma divertida noite na casa de shows do Zacarias, Wilson embarcou de carona em
um avião monomotor com destino à Goiânia. Era uma manhã de julho e a praia estava lotada
de banhistas e outros pilotos com suas famílias, quando o avião decolou e, ao invés de seguir
seu rumo normal, o piloto, seu amigo, resolveu dar um rasante na praia para demonstrar sua
perícia. Fez uma tomada de aproximação e veio tão baixinho sobre as águas, rio acima, a tal
ponto que o trem de pouso se chocou contra o banco de areia da praia.
A asa direita passou a dois metros da barraca de um turista, também piloto, e o avião capotou
várias vezes ao longo de outras barracas, matando os três ocupantes da aeronave, entre eles
meu amigo Wilson, convertendo-se em um pequeno monte disforme de matais, sem que, por
sorte, nenhum banhista fosse atingido.
Berilo, certamente, foi a primeira pessoa a se tornar meu amigo. Bom de copo e presença
constante nas rodas de papos triviais ao cair da tarde. Era de índole pacata, mas com tiradas
jocosas e divertidas que animavam os bate-papos.
Esse camaradão de toda hora foi quem me levou a experimentar uma iguaria típica do lugar,
mas muito exótica para um sulista

Ele chegou com uma tracajá viva, que esperneava em suas mãos, convidando todos
para assá-la lá na praia e comê-la tomando cachaça com tira-gosto de caju. Sem saber
que gosto poderia ter aquilo, eu aceitei o convite e entramos em uma ubá, uma canoa
esculpida no tronco da árvore.
Um molho de cheiro muito agradável já estava preparado e a lenha foi rapidamente
encontrada ali mesmo. Cavou-se na areia uma vala onde foi colocada a lenha, que logo
pegou fogo e, sobre ele, puseram a tracajá de patas para cima, que começou a se
debater contra as chamas que a envolviam. No auge de seu sofrimento, já quase sem
vida, suas vísceras explodiram sobre o fogo, esguichando liquido ao redor, quando
alguém anunciou que estava pronto o estranho banquete.
Todos em volta do fogo entornando goles e mais goles de pinga e pedaços de caju para
aliviar a queimação, enquanto eu ouvia calado estórias do lugar sem prestar muita
atenção, porque estava ainda chocado com a crueldade perpetrada contra o pobre
animal indefeso.
Com as entranhas assim expostas, o animal inteiro foi colocado em uma tábua e cada
um metia os dedos por entre as vísceras, retiravam um naco de carne, o coração, ou o
fígado, mergulhava no molho e comia prazerosamente.
Para não frustrar a impressão de simplicidade e despojamento que eu havia passado a
eles, até aqui, reprimi minha repulsa natural contra aquela impressionante crueldade
e, sentindo um pouco de nojo, participei daquela bizarra ceia tentando aparentar a
mesma naturalidade de todos ali.
Para não me alongar muito, abstenho-me, por hora, de mais relatos, a não ser o seguinte,
prometendo retomá-los depois.
De tanto falar com meu irmão, em São Paulo, sobre as belezas naturais de Araguacema e da
profusão de peixes do Araguaia, ele veio conhecer e se apaixonou tanto pelo lugar que passou
a visitá-lo todos os anos em suas férias.
Em julho de 82 havíamos combinado irmos juntos, mas um imprevisto obrigou-me a adiar
minha viagem por uns dias e ele decidiu não me esperar. Em chegando lá nem descarregou o
carro, tanta era sua ansiedade, e, da chácara do Juarez, partiu rumo ao travessão, juntamente
com seu amigo de viagem Izaías e o Pedrinho Mesquita em uma canoa tão pequena que mal
cabiam os três.
Apesar de advertidos pelo Juarez, sobre a imprudência que estavam cometendo de enfrentar
as águas revoltas do Coalha-Sangue, remaram para lá com toda a tralha de pesca e meu irmão
ainda vestido em uma calça jeans.
A tragédia anunciada se confirmou quando a frágil canoa, que estava amarrada em uma goiabeira no pedral da corredeira, emborcou com todos e meu irmão ficou sepultado nas profundezas do Araguaia, enquanto os outros dois se salvaram com muita dificuldade. Sua esposa retornou transtornada a São Paulo com a filhinha de dois anos.
Durante três dias as buscas, com voadeiras vasculhando o rio até Conceição e bombeiros
mergulhando, foram infrutíferas e seu corpo permanece sepultado nas belas águas do rio, pelo
qual ele era apaixonado.